
Amilcar Bettega
De Paris
Se o homem escutasse gemidos dentro da noite fria e antes de se acomodar sob os edredons fosse à janela do seu apartamento e enxergasse lá embaixo um vulto, uma coisa, levantar com esforço da calçada, ensaiar uns passos bêbados pela rua e remexer cestos de lixo como um bom e experiente vira-lata; e se o tal molambento avançasse com gula nas sobras da cidade (tanto as transformadas pelo suco dos intestinos quanto as outras, ainda tenras e apetecíveis), deleitando-se com uma ânsia infantil na comidinha a escorrer-lhe pelos lados da boca e fazendo emanar um calor gostoso da barriga; e se o sarnoso, não satisfeito, começasse a urrar na madrugada silenciosa, gritando coisas ininteligíveis e impedindo o sono de toda a gente com uivos de animal no sacrifício e com um bater ameaçador nas portas das casas; se o perebento, como um desatinado, louco total, chutasse as paredes (por sorte muito sólidas) até esfarinhar os ossos dos pés, mas ainda assim o desgraçado continuasse, equilibrado sobre o toco das canelas e fazendo dos gemidos e dos berros uma ladainha repugnante e tão alta que fosse impossível deixar de ouvi-la - se tudo isso acontecesse na noite da cidade, com certeza o homem ficaria desesperado e não saberia o que fazer.
Porém, mesmo sem olhar para fora, o homem sabe que a rua está deserta porque a noite está de fato gelada e ninguém deixará o conforto do seu lar com um tempo desses, com um vento desses que emite gemidos e derruba latas de lixo e espalha toda a imundície na calçada. Sorte que antes do dia clarear virão os Trabalhadores da Limpeza Urbana com seu uniformes engomados e fragrantes e suas vassouras apagarão os sinais da passagem do vento, esse vento noturno que ainda se enfia pelas frestas das fachadas das casas, que faz cantar as portas e janelas, balança as placas de trânsito na rua, assovia nos fios de eletricidade e varre a cidade num silvo agudo. Esse vento que varrerá também as nuvens que ainda encobrem a lua da madrugada, dando lugar então ao brilho prateado que logo verterá uma língua de leite sobre os telhados. E espadas de lume perpassarão as venezianas dos quartos de dormir e encherão as casas de uma luz diagonal, calma e azulada, a luz que todo o mundo quer ver.
Pensando nessa imagem, o homem fecha os olhos e dorme calmamente.
Terra Magazine