Vinicius Jatobá
Do Rio de Janeiro
O rumor vítreo de uma cidade pode guardar os maiores segredos; a fantasia de um homem, mesmo ele pertencendo ao seleto grupo dos mais resistentes, nunca. Os segredos sempre surgem um dia, crispando a superfície da mera aparência antes tão intimamente conhecida, e pouco a pouco, sem sobreaviso ou assombro, invadem a tranqüilidade do mundo. Na juventude, surgem além da frágil fortaleza de um olhar ingênuo, por meio da mecânica oblíqua de algum movimento descuidado, pela presença concreta das palavras não ditas.
Porém, com o lento vagar dos anos, quando a acumulação de segundos vencidos alcança a saturação e o passado que se leva dentro, tortuoso e denso, afia suas garras, o imediato perde espaço para o ancestral e, então, confunde-se a mão velha que segura o lápis com a mão cheia de sonhos que um dia existiu, sem os calos e inocente, essa mão original acreditando em um futuro que parecia ilimitado e que se mostrou tão breve: recordar, acossado pala própria sombra, é trair e delatar: a memória só existe enquanto relato.
O lendário jornalista Joseph Mitchell suportou, por mais tempo que qualquer outro poderia agüentar, conhecer o que ninguém suspeitava, algo de que se expiou apenas com a publicação da reportagem memorialística 'O segredo de Joe Gould', marco zero de seu curioso silêncio de três décadas, e que por si só é um dos mais instigantes do rico jornalismo estadunidense.
Joseph Mitchell é um dos nomes mais respeitados da prosa de não-ficção americana. Seu estilo, ricamente sintético e informativo, possui uma elegância inusual e a exatidão obstinada dos grandes escritores. Os perfis e pequenas reportagens de Mitchell ajudaram a criar os paradigmas de um novo tipo de jornalismo que se configurava lentamente nos Estados Unidos, e que teve seu auge na turbulenta década de 1960: francamente narrativa e construída a partir de uma inédita posição subjetiva, com a prosa marcada por uma linguagem diferente da que era usualmente utilizada em jornais e revistas, a escrita jornalística foi elevada à arte.
Porém, se é certo que esse jornalismo literário norte-americano foi responsável por uma reviravolta na gramática e mentalidade dos meios de comunicação, também seria correto afirmar que, para conquistar seu espaço e atrair leitores, teve que se ater principalmente a personalidades extravagantes e grandes acontecimentos históricos.
Seu espaço de excelência foi o dramático e fora do comum, simplesmente porque para se narrar o mundo ordinário dos homens necessita-se de uma sensibilidade que é o avesso do próprio espírito comercial do jornalismo: uma apaixonada vocação para o insignificante. Opor crônicas de famílias mafiosas ao cotidiano de ciganos maltrapilhos; enxergar a idade secular de um relógio de parede enquanto o homem pisa, tateante, na Lua; preterir o glamour de astros e produtores de roque à música dos tristes solistas de metrô; os cuidados que um jardineiro dedica às suas rosas e orquídeas numa praça qualquer aos horrores sucessivos de um assassinato brutal.
Joseph Mitchell, nesse sentido, foi um gigante em tom menor: sua prosa magistral só alcança o cotidiano do anonimato. Talvez por isso, pela sublime monumentalidade que desvendou nos hábitos mais mínimos, pela vitória que infligiu ao tempo, seu nome seja uma das referências capitais de um movimento de cuja participação, inclusive, desconhecia. Com seus perfis e reportagens sobre miudezas, tornou-se um clássico involuntário; e, mesmo que a Nova Iorque de seu trabalho tenha perecido e seja apenas sombra de segundos nunca mais repetidos, são inegáveis o frescor e a atualidade de sua prosa e a perseverança de sua imaginação.
Publicado originalmente pela New Yorker, "O Professor Gaivota" foi um dos perfis mais admirados pelos leitores de Mitchell. Centrada na carismática figura do boêmio Joe Gould, o perfil também abarca a atmosfera do Greenwich Village da animada década de 1920 e seu reverso, os fanáticos e magoado anos 30, agraciando todos os seus artistas e doses etílicas e pretensões, assim como suas revistas lendárias, festas míticas e tumultos intermináveis.
O que diferencia o pequeno e desalinhado Joe Gould dessa multidão selvática de boêmios e artistas era a dimensão de sua empreitada solitária. Joe Gould se proclamava o autor da maior obra inédita de seu tempo, um livro inclassificável intitulado "História Oral", cujo manuscrito ocupava centenas de cadernos escolares que se encontravam espalhados por toda cidade. Segundo o próprio Gould, em 1942 o livro já era 12 vezes maior que a Bíblia, e tudo indicava que só teria fim, como tantas obras-primas do modernismo, com a própria morte do autor: um livro condenado à posteridade desde a primeira linha.
Disforme e ambiciosa, a obra possuía longos capítulos ensaísticos que tratavam de assuntos como a influência do tomate na vida da sociedade contemporânea; e, também, capítulos narrativos, ricamente carregados de digressões, onde Gould reproduzia conversas que tinha (ou escutava) com qualquer pessoa que encontrasse - médicos, putas, marinheiros, enfermeiras, aposentados, taxistas, garçons -, compilando um universo de vozes que, reunidas, estabeleceriam, segundo o autor, uma outra história, mais rica e verdadeira que a oficial. Comparava constantemente o seu trabalho com o grande clássico de Gibbons, e acreditava, com espantosa sobriedade, que fazia por Nova Iorque o mesmo que este fez por Roma.
Com a publicação do perfil, no final de 1942, Joe Gould virou uma celebridade, e suas manias caprichosas e hábitos estranhos, como conversar com gaivotas e beber potes inteiros de ketchup, tornaram-se apenas simpáticas manifestações de seu singular gênio; de certa forma, também envolveu seu livro de uma silenciosa expectativa e curiosidade, que cresciam a cada evasiva contraditória de Gould. Somente Mitchell conhecia a verdade.
"O segredo de Joe Gould", um extenso relato memorialístico publicado sete anos após a morte do boêmio, em 1964, veio aparar as arestas imaginárias de um mito que o próprio Mitchell ajudou a criar. Bem mais despojado que seus outros textos, o relato narra os bastidores do primeiro perfil: como Gould e Mitchell se conheceram, as primeiras conversas, as leituras de trechos da "História Oral", a publicação de "O Professor Gaivota" e as suas conseqüências.
O texto também acompanha o relacionamento dos dois até o falecimento de Gould. Mistura de autobiografia e relato investigativo, transita confortavelmente entre a informação e a leveza, entre a fina reflexão e o mero divertimento; o tom perfeito, sem sombra de dúvidas, para a despedida do próprio Mitchell do jornalismo que ele, em pouco mais de quarenta anos de profissão, tanto elevou. O resto, mesmo silenciosamente, nem sempre é silêncio, e o melancólico jornalista, com seu comedimento natural, compreendia isso como ninguém: poucos mutismos falaram tanto.