Terra Magazine

 

Quinta, 13 de novembro de 2008, 14h22 Atualizada às 22h01

Toda a dimensão da crise

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
APARÊNCIAS ENGANAM   - Neste feliz flagrante, o ministro da Justiça Tarso Genro, o diretor da Abin - afastado - Paulo Lacerda e o ministro-chefe do ...
APARÊNCIAS ENGANAM - Neste feliz flagrante, o ministro da Justiça Tarso Genro, o diretor da Abin - afastado - Paulo Lacerda e o ministro-chefe do GSI, general Jorge Félix

Bob Fernandes

Os intestinos do Brasil.

É grave a crise.

O general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), passou parte da manhã desta quinta-feira, 13, na Agência Brasileira de Inteligência, que é vinculada ao seu gabinete. No auditório da Abin, o general reuniu dirigentes e agentes para apaziguar ânimos. Desatada no pós-operação Satiagraha, a crise espalhou-se e subiu de andar desde que a Polícia Federal apreendeu computadores da Agência e, neles, material classificado como "secreto".

Para que se tenha uma idéia de em que ponto se encontra a ebulição: em que pesem suas declarações públicas em busca de um esfriamento de ânimos, na segunda-feira o ministro da Justiça, Tarso Genro, recebeu duas cartas; uma do general-chefe do GSI, outra da Abin. No mesmo dia, Jorge Félix consultou o Advogado Geral da União, José Antonio Toffoli, sobre a hipótese de um mandado de segurança da AGU contra a ação da PF.

Veja também:
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Terra Magazine apurou na AGU que a resposta seria positiva se a intenção do mandado prosperasse. Antes disso se concretizar houve o envio da mensagem do general para o ministro da Justiça - cuja cópia a Abin também recebeu, e de cujo teor Terra Magazine trata agora.

O tom é inabitual, porque mais duro do que costumam ser as intervenções do general; o seu estilo se pode conhecer nas recentes e pacientes passagens pelas comissões do Heráclito e do Itagiba, no Senado e Câmara.

Na mensagem recebida por Tarso Genro - com cópia para a Abin -, o general historia, primeiro, as medidas tomadas pelo GSI desde o pós-Satiagraha.

Recorda o general que foi o Gabinete quem pediu abertura de inquérito para apurar o suposto grampo contra o ministro do STF Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres, que foi o GSI quem abriu sindicância interna na Abin para apurar os fatos, e que também do GSI partiu o pedido de perícia nos aparelhos de varredura da Abin.

Na mensagem para o ministro da Justiça o general Jorge Félix alerta para a ausência de "necessidade" do ato praticado pela PF ao apreender computadores recheados de material reservado do serviço secreto brasileiro. Lembra o general em sua carta que um simples requerimento "administrativo" teria obtido o mesmo efeito prático da intempestiva ação.

Na mensagem, Jorge Félix elenca os motivos que tornaram gravíssima a ação da PF no episódio. Não pela ordem de importância: expôs ao ridículo ante seus congêneres no mundo o serviço secreto do governo brasileiro.

(Aliás, entre certos adidos estrangeiros em Brasília; aqueles cuja nomenclatura apenas acoberta os serviços secretos, corre, movida a gargalhadas, a opinião de chefes do serviço secreto de Portugal quanto à sucessão de eventos. Como relatado aqui por Terra Magazine, no dia em que a PF fez a apreensão, chefes de espionagem de 9 países de língua portuguesa reunidos na Abin assistiram, pasmos, à ação.)

De volta à carta de Jorge Félix para Tarso Genro. O general discorre sobre a extrema dificuldade de se explicar, e convencer, aos demais serviços secretos do mundo, o como e o por que de no Brasil um delegado com autorização de um juiz de 1.ª Instância ter o poder de esvicerar segredos militares, políticos, comerciais e funcionais do Serviço Secreto.

Como explicar aos chefes e integrantes de outras agências de espionagem que os segredos, informações, listas de agentes e informantes, do Brasil e dos demais países, estão agora em posse de um delegado? Que basta isso para expor a todos?

E segredos estes sob os cuidados de uma Corregedoria, a da PF, de onde tem vazado mais informação para a mídia nas últimas 72 horas do que toda a informação que teria sido vazada nos 4 anos de investigação que culminou na Satiagraha. (Isso não está na mensagem, é Terra Magazine que afirma).

Quais são, até o momento, algumas das conseqüências da apreensão na Abin?

Do ponto de vista dos Serviços Secretos externos, há irritação, além do ar de deboche ante os eventos. E o temor da exposição de agentes estrangeiros, contenciosos políticos e comerciais.

Em sua carta a Tarso Genro, já de amplo conhecimento na Abin, o general diz que não questiona o inquérito que apura responsabilidades anteriores ao caso de agora, mas questiona, isto sim, a ação da PF contra a Abin. Entende ter sido um ato desmoralizante.

Daí a crescente, quase incontornável irritação na Abin e o desejo de retaliação. Daí a presença do general nesta manhã de quinta-feira, 13, na Abin.

É grave a crise, ainda não há perspectiva de ser dirimida e, ao contrário, a temperatura pode subir. Os fatores para tanto são de ordens diversas.

Primeiro, e fundamental, do ponto de vista do núcleo da crise: os computadores estão com a PF. O ministro Tarso Genro garantiu que o material segue lacrado e que só será aberto e manipulado sob acompanhamento e supervisão de uma equipe da Abin. Até o final da tarde da quarta-feira, 12, o documento que oficializa tal compartilhamento ainda não havia saído do ministério da Justiça em direção ao GSI/Abin.

Risco potencialmente explosivo: se, ao contrário da garantia dada, o material já tiver sido explorado - e se o foi não há como evitar que os técnicos da Abin descubram -, não haverá como controlar retaliações por parte do baixo clero da Abin.

Terra Magazine sabe que já há munição estocada. Sabe também que já há repórteres, de várias organizações de mídia, no rastro. (Aviso à arapongagem: não percam tempo e dinheiro com Terra Magazine, não é o caso.) Sabe-se também que um dos alvos é o passado, funcional e pessoal, tudo vinculado, de importante e decisivo personagem em toda essa crise.

Um outro fator é a eleição presidencial de 2010.

Mesmo a Velhinha de Taubaté, se sabedora da história de cada personagem, perceberia o que se passa na CPI dos Grampos. Ela é comandada pelo deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ).

Itagiba, Diretor de Inteligência da PF numa porção do longo mandato de Vicente Chellotti, logo depois se tornaria responsável pela "Inteligência" no ministério da Saúde comandado por José Serra, agora governador de São Paulo e favorito na sucessão presidencial.

A CPI dos Grampos é e será, do ponto de vista político, uma trincheira de 2010. Ali tudo pode ser esclarecido, mas tudo também pode ser montado. Ou enterrado, escondido. Da mesma forma o é, e será, na Comissão presidida pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI).

Por trás de toda essa fumaça, dispensadas explicações jurídicas rocambolescas - em respeito à inteligência, por favor - os alvos são claríssimos.

Pela ordem: o delegado Protógenes Queiroz, e quem nele atira pouco se importa de verdade com seus acertos ou erros; o juiz Fausto de Sanctis, porque é ele quem vai produzir a sentença sobre Daniel Dantas & Cia; o chefe afastado da Abin, e também delegado, Paulo Lacerda, exatamente por ser ele Paulo Lacerda e ter a história que tem e, por fim, um alvo que está mais acima. Bem mais acima.

A crise se expande. Para conhecer sua dimensão basta ver a quantidade de páginas que ocupa nos jornais desta quinta-feira 13, o espaço que ganha nas rádios e na internet, e os editoriais de jornais nos últimos dias.

Uma crise que tem tudo a ver com o passado recente do grande poder no Brasil e a intestinal promiscuidade, inclusive no presente. Uma crise que produz combustível para 2010. Uma crise que, por enquanto, ainda em muito depende da ação, ou falta de ação, do governo.



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