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Sexta, 14 de novembro de 2008, 08h00 Atualizada às 10h05

A gangue

Reuters
Porta para o mundo.  Crianças participam de campanha de incentivo à leitura na Malásia. No Brasil, revela o escritor Tony Monti, raras são as edições ...
Porta para o mundo. Crianças participam de campanha de incentivo à leitura na Malásia. No Brasil, revela o escritor Tony Monti, raras são as edições que chegam a 3 mil exemplares, e raros os escritores que ultrapassam a primeira edição

Tony Monti
De São Paulo

Apenas o óbvio, não há leitores. Não se lê tão pouco no Brasil, há um mercado de livros razoavelmente movimentado, mas não há mais que três mil leitores de literatura brasileira contemporânea (conforme a polêmica declaração de Marçal Aquino, há algum tempo). Três mil é a tiragem de um livro em uma grande editora. Poucos escritores esgotam a primeira edição. Às vezes fico sabendo de quantos livros vendem meus colegas mais conhecidos. Raras vezes escutei um número que garantisse, em direitos autorais, o salário mensal de um operador de telemarketing. Poucos escritores no Brasil são profissionais da escrita.

Conheci outro dia numa mesa de bar um escritor americano que mora no Brasil há bastante tempo. Ele vive dos direitos autorais de seus livros nos Estados Unidos e das traduções em três idiomas. Ele acha que os escritores brasileiros são uma gangue bizarra, que vivem em um mundo tão restrito, sem perceber a pouca abrangência de seu trabalho, que ser escritor se torna uma atividade para amalucados. A análise irônica esconde algumas sutilezas dos significados e dos valores envolvidos em escrever e em ser lido, mas é difícil negar que a literatura é, aqui, uma atividade com pouca repercussão social.

Há duas semanas, aconteceram as entregas da maioria dos principais prêmios da literatura brasileira. A regra é que os vencedores não vão ser lidos por muita gente. Porque não há mesmo leitores. O livro de literatura não faz parte da rotina das pessoas. A demanda de ficção é suprida pela televisão e, às vezes, pelo cinema. O livro ou é visto como algo imediatamente útil ou como algo sagrado. Ou se lê com uma finalidade específica ou por devoção. Minha opinião é que nenhuma das alternativas arrebanha leitores de literatura. A ficção não parece me ajudar a consertar o computador, a ganhar mais dinheiro ou a redimir minhas culpas mais evidentes.

Outro dia conversava com um amigo que conheço desde a adolescência. Falávamos sobre livros. Especulávamos sobre o último romance que cada um dos nossos mais antigos amigos tinham lido. Na empolgação da conversa, resolvemos ligar para um ou outro e conferir. Na primeira ligação, a resposta foi que, literatura mesmo, só no vestibular. É provável que este nosso amigo, dentista formado na USP, nunca tenha lido um livro adulto de autor brasileiro vivo. Talvez um ou outro best seller. Pouca diferença encontramos em relação aos outros amigos.

A literatura é uma categoria estranha às pessoas. Percebo às vezes que a questão para muita gente é leio ou não leio, sem se preocuparem com o que ler. Isso não é um problema exclusivo do livro, há quem se refira à televisão do mesmo modo, você gosta de televisão?, como se a relação que se estabelece fosse conseqüência exclusiva de ter um aparelho em casa e de apertar a tecla de ligar. Falta a sutileza da reflexão sobre os usos possíveis dos objetos, que livro não é só papel, assim como televisão não é só uma máquina.

Embora os próprios escritores às vezes colaborem para não aumentar o número de potenciais leitores, quando se preocupam em celebrar a existência do seu grupo sem tentar seduzir novos adeptos para suas práticas, não consigo imaginar nenhuma maneira razoável para que o Cristovão Tezza (que escreveu, na opinião de muita gente, o melhor romance brasileiro publicado em 2007) seja lido por vinte ou trinta mil pessoas nos próximos anos, a não ser o investimento em escolas e professores que gostem de literatura e que estejam dispostos a convencer seus alunos de que ali, no texto literário, há alguma coisa que vale ser explorada.

Neste meu texto, de prático para mudar a situação, pouco ou nada. Se alguém se sentir tentado a entrar para a gangue, e sem que eu muito explique, indico cinco livros interessantes, recentes, que não ensinam a maximizar seus lucros:

- A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli
- O filho eterno, de Cristovão Tezza
- Mãos de cavalo, de Daniel Galera
- A história dos ossos, de Alberto Martins
- À margem da linha, de Paulo Rodrigues

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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