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Sábado, 15 de novembro de 2008, 08h02 Atualizada às 18h00

Os prêmios na ficção científica

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo (SP)


Quando o Brasil terá o seu próprio Prêmio Hugo?

Num momento em que a comunidade de fãs de ficção científica volta a discutir a existência e a ausência (o caso no momento) de prêmios destinados a obras desse gênero, é bom discutir um pouco da experiência brasileira com essas iniciativas.

Começo lembrando que sob a expressão "prêmio literário" se agrupam iniciativas substancialmente diferentes, o que pode levar a confusões.

"Prêmio literário" pode ser uma premiação dos melhores textos de literatura publicados durante um determinado período, em uma determinada área da literatura. Os prêmios mais famosos da ficção científica contemplam os melhores do ano. São os prêmios Hugo, Nebula e Locus, todos criados nos Estados Unidos e todos com múltiplas categorias, em geral romance, novela, noveleta e conto, escolhidos diretamente por corpo de votantes.

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No caso do Hugo, esse corpo de votantes é popular (não é um júri) e composto dos inscritos na convenção mundial de ficção científica. Para o Nebula, votam os membros da Science Fiction and Fantasy Writers of America, com um júri que indica alguns trabalhos que podem ter escapado da atenção da maioria dos votantes, mas não faz nenhum julgamento final. E os votantes do Locus são os assinantes da revista Locus "The Magazine of the Science Fiction and Fantasy Field".

Há premiações semelhantes na Inglaterra, Canadá, Austrália, França e outros países, e todas elas se espelham no prestígio conferido por grandes prêmios do mainstream como o Pulitzer Prize e o National Book Award, nos EUA, o Booker Prize, no Reino Unido, o Deutscher Buchpreis na Alemanha, que são todos dependentes de júris e não de votações diretas de um grande grupo de pessoas, como é também o mais prestigiado prêmio brasileiro de literatura, o Jabuti.

Agora, "prêmio literário" também pode ser um concurso de textos inéditos. Nesse caso, o autor submete o seu texto inédito (conto, poema, crônica, novela ou romance) a um júri, que vai escolher os melhores dentre os inscritos na competição. É uma situação bastante diversa daquela discutida acima, em que o material julgado não é inédito.

No caso do Brasil, para um Jabuti, existem dezenas de concursos de maior e menor prestígio, a maioria destinada ao escritor iniciante. Um desenvolvimento recente são concursos literários que não analisam obras completas, mas romances ou livros de conto em andamento, com o fim de fornecer uma bolsa para o término do projeto escolhido. É o caso do Programa Petrobrás Cultural

Há, enfim, prêmios outorgados - para o conjunto da obra ou para um feito literário em particular que os organizadores do prêmio consideram particularmente relevante. O mais famoso deles é certamente o Prêmio Nobel e suas variantes como o Prêmio Camões, para a língua portuguesa, ou o Prêmio Miguel de Cervantes, para a língua espanhola, o Goethe Prize da Alemanha.

No Brasil, e no campo da ficção científica, nosso primeiro prêmio provavelmente pertenceu a essa última categoria - o troféu Monólito Negro, entregue a Arthur C. Clarke durante o Festival Internacional do Cinema e o Simpósio de FC no Rio de Janeiro em 1969. O Simpósio aconteceu embutido dentro do Festival e foi idéia do fã, tradutor e editor de FC José Sanz. Consta que Sanz pretendia que o troféu fosse entregue anualmente a um grande realizador da FC mundial, mas isso acabou não acontecendo. Não era, evidentemente, um prêmio destinado ao melhor gênero no Brasil. Clarke ficou com a peça única, obra em hematita criada pelo escultor Caio Mourão.

O editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, que quase sozinho foi responsável pela Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira na década de 60, chegou a anunciar na quarta capa de sua edição de Os Senhores do Sonho (Unearthly Neighbors; 1964), de Chad Oliver, um concurso literário para romance inédito de FC, o "Prêmio Bartolomeu de Gusmão". A proposta era de um concurso anual, mantido por Dorea e pelo livreiro Adonias Filho, pagando Cr$ 300.000,00. Mas ele não se realizou - aparentemente por falta de concorrentes.

Dessa forma, o primeiro concurso brasileiro de FC de que se tem notícia acabou sendo o Prêmio Fausto Cunha, de contos, promovido pelo Clube de Ficção Científica Antares de Porto Alegre, com duas ou três edições na primeira metade da década de 80. Homenageava o autor da Geração GRD Fausto Cunha (1923-2004), e dele participaram autores que se tornariam relativamente conhecidos, nos anos seguintes: Jorge Luiz Calife, Gerson Lodi-Ribeiro, Miguel Carqueija. O Clube de Leitores de FC, na gestão de Dorea, teve seu concurso de contos, com apenas uma edição, em meados da década de 90.

O primeiro concurso de âmbito verdadeiramente nacional, porém, foi o Prêmio Jerônimo Monteiro, realizado pela Editora Record e pela Isaac Asimov Magazine em 1990. Recebeu 444 contos de 17 estados brasileiros. Os três classificados foram Roberto Schima (em primeiro com "Como a Neve de Maio"), Cid Fernandez (em segundo, com "Lost") e Roberto de Sousa Causo (em terceiro, com "Patrulha para o Desconhecido"). Além de prêmio em dinheiro, os três foram publicados na revista.

A revista semi-profissional Scarium MegaZine, de Marco Bourguignon, mantém um concurso de contos - e a edição N.º 23, recém-lançada, traz os contos vencedores da terceira edição do concurso. Recentemente, o concurso FC do B, da BHB Eventos, uma empresa extra-fandom, movimentou as coisas com esse concurso de contos, com os classificados reunidos no volume FC do B: Ficção Científica Brasileira: Panorama 2006/2007.

O primeiro prêmio do tipo melhores do ano foi criado por mim em 1988, o Prêmio Nova de Ficção Científica. Na época, votavam os colaboradores do meu fanzine, Anuário Brasileiro de Ficção Científica, e as categorias eram poucas: conto, livro e fanzine. Conforme a FC evoluía no Brasil, as categorias se alteravam para acompanhar essa evolução. Em 1990 ele foi dividido em dois campos: profissional e amador, definidos da maneira mais simples possível - é "profissional" o que fosse publicado em veículos ou por editoras profissionais, e amador o que fosse publicado em fanzine ou em edição do autor.

O Nova entregava um troféu em madeira, feito pelo artista plástico Chico, de Sumaré, SP, onde eu também vivi até 1991. O prêmio passou a ser cercado de controvérsias a partir de seu segundo ano, quando o fanzine do CLFC, o Somnium, perdeu para Hiperespaço, então editado por Cesar Silva & José Carlos Neves.

Logo fui procurado por gente do CLFC que afirmava que o sistema de votação era "pouco científico" e que precisava de uma planilha para orientar os votantes. A planilha sugerida acabaria na verdade orientado os votantes a escolher o Somnium, então rejeitei a idéia. Daí as críticas avançaram para a falta de representatividade, a incompetência crítica dos votantes, etc.

Outra figura do clube afirmou, quando foi convidado a votar e assim ampliar a representatividade, que não tinha competência crítica para isso, embora tivesse feito parte do júri do Prêmio Jerônimo Monteiro (para o qual foi pago). Nas reuniões do CLFC, eu enfrentava verdadeiras sessões da inquisição, em que se dizia (entre outras coisas), que o Nova deveria ser votado por professores universitários de literatura (supõe-se que por indicação dessa mesma figura, que trabalhava em uma universidade do interior).

O desgaste natural em torno dessas situações me fez passar o bastão, em 1991, a uma comissão independente formada por Cesar Silva, Marcello Simão Branco e Gerson Lodi-Ribeiro, que, segundo Silva, "seria o gérmen da futura Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, fundada no ano seguinte". A comissão estabeleceu novo regulamento e incluiu categorias que contemplavam trabalhos de história em quadrinhos. Não foi livre de polêmicas também nessa fase, como quando um conhecido fã de Porto Alegre "confundiu" o processo de escolha por votação dos melhores, com um processo de "eleição", e alegremente distribuiu cédulas de composição idêntica aos amigos, apontando seu fanzine como o melhor.

Bem se vê, o Nova foi cercado pela "política literária" de fanzines, autores e clubes, mas lutou para manter sua autonomia e sua característica de ser um instantâneo não apenas da produção da FC no Brasil, mas também do entendimento que o próprio fandom tinha do gênero no país.

Marcello Branco também se aventurou a promover, através do seu fanzine Megalon, um prêmio semelhante, o Tapìrài, que durou de 1992 a 1994. E o CLFC, que certamente deveria ter assumido iniciativa semelhante por ser o maior fã clube de FC do país, de fato, sob a direção de Lodi-Ribeiro, criou no início deste século 21 o Prêmio Argos, com as categorias algo limitadas de melhor ficção curta, melhor publicação e melhor publicação periódica, sem distinção de profissional ou amador. Infelizmente, o Argos durou apenas um par de anos.

Resta o Prêmio SBAF, irregular e outorgado por Cesar Silva e Marcello Branco, o que aconteceu apenas duas ou três vezes, desde sua criação em 2001.

Já passou da hora de termos um novo prêmio (ou o velho Argos, se o CLFC sob nova direção se dispuser a isso) para os melhores do ano, especialmente diante do momento particularmente auspicioso que o mercado editorial de FC e fantasia vem vivendo nos últimos anos.

Um prêmio como este tem o potencial de chamar a atenção de autores, artistas e editoras, de movimentar a opinião de fãs e leitores, de gerar apreciações críticas e de promover a discussão dos rumos desses gêneros no Brasil. Fica, porém a lição do Nova, de que a política literária no fandom é feroz e freqüentemente desproporcional - se um prêmio como o Jabuti pode fazer a carreira de um escritor, um Nova dificilmente o faria, embora os egos não se aparentemente não se dêem conta disso.

Um novo prêmio teria de tentar se esquivar da inclinação que um ou diversos grupos, feudos e camarilhas quisessem dar, mantendo-se ao mesmo tempo aberto à idéia de ser um instantâneo do estado da arte no Brasil e de como o próprio fandom o enxerga.

Por outro lado, a idéia de um prêmio julgado por acadêmicos hoje não parece tão estranha como há dez ou quinze anos atrás. É o caso de convencer os professores universitários a abandonarem suas pesquisas para ler dezenas de contos e livros contemporâneos e opinarem a respeito...

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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