Fernando Eichenberg
De Paris
"Era uma vez Gainsbourg, príncipe louco de um mundo demasiado restrito para si. Ele escondia sua vulnerabilidade atrás de uma insolente agressividade que, à imagem de seu coração e de sua face, não representava mais do que a parte superficialmente visível desse iceberg fervente e generoso."
Entre tantas outras, as palavras de luto da ex-musa Brigitte Bardot voltaram a ressoar neste ano, marco dos 80 anos de nascimento de Serge Gainsbourg, registrado em 2 de abril de 1928. Na sua morte algumas décadas depois, no sábado 2 de março de 1991, por volta das 18h, na residência de número 5 bis da rue de Verneuil, em Paris, extinguia-se o homem e acendia-se um mito. Variados eventos foram providenciados para relembrar a data, entre os principais está a enorme exposição "Gainsbourg 2008", na Cité de la Musique, aberta à visitação até o 1° de março do ano que vem.
Efeméride ou não, lembro-me de Serge Gainsbourg praticamente todos os dias, menos por uma condição de groupie e mais por uma questão de endereço. Sou vizinho de sua antiga casa da rue de Verneuil, minha passagem quase obrigatória ao sair à rua para os compromissos cotidianos. Sua morada lá permanece como ele a deixou, fechada, com seu piano e suas recordações e fotografada diariamente por turistas e fãs de todos os lados do mundo, curiosos pelos grafites coloridos pintados em seus muros, uma constante homenagem de seus admiradores.
Quem é Serge Gainsbourg? Qual seja o caminho traçado para se tentar alcançá-lo, haverá sempre uma via na contramão, estradas paralelas e sinuosas e obscuros corredores subterrâneos para desmentir qualquer univocidade na interpretação do personagem. Gainsbourg é Lucien Ginzburg de nascimento, que desde menino escutava Scarlatti, Bach, Chopin, Gershwin e Irving Berlin no piano paterno. "Meu pai parou em Schumann, Debussy e Ravel, mas eu continuei com Stravinsky, Schoenberg e Alban Berg", dizia.
É o jovem pintor frustrado, estudante de belas-artes, que passou do clássico ao Impressionismo, Cubismo, Fauvismo, Surrealismo e Dadaísmo. "Depois me perdi, já não sabia onde estava. Lamento não ter sido Dalí. Ou Paul Klee, Max Ernst...". É o pianista de cabaré da rive gauche, adorador de Billie Hollyday, Art Tatum, Cole Porter, Thelonius Monk e Dizzy Gillespie. É, aos 30 anos, um iminente compositor chansonnier, pela simples descoberta das modernas melodias e da voz ácida de Boris Vian.
Gainsbourg é, sobretudo, poeta maldito e músico popular-erudito, autor de preciosidades musicais como La Javanaise, Le Poinçoneurde Lilas, Je Suis venu Te Dire que Je M'En Vais, Initials B.B., Melody Nelson, Bonnie and Clyde, Dieu Fumeur de Havanes ou La Décadence. É o compositor de canções fáceis, para embolsar dinheiro fácil, mas também o visionário experimentalista. Mestre da bricolagem inovadora, atravessou todos os sons, do jazz ao hip-hop, passando pelo reggae e o pop. Apropriava-se de um tema de Dvorák e do ritmo poético de Edgar Allan Poe e reinventava uma nova canção.
Foto: Divulgação

O surpreendente artista francês, Serge Gainsbourg
É o compositor requisitado, provedor de sucessos para as mais distintas vozes femininas: Petula Clark, Juliette Gréco, Françoise Hardy, France Gall, Barbara, Dalida, Nana Mouskouri, Anna Karina, Catherine Deneuve ou BB. Sua última lolita foi Vanessa Paradis, para quem compôs 11 músicas do disco Variations sur le Même T'Aime, e de quem dera a definição tipicamente gansbourguiana: "Ela emana uma aura de sedução, uma luz própria às estrelas... Paradis é o inferno!". Inspirado na luminescente ninfeta de 17 anos recém-feitos e no ídolo-poeta Arthur Rimbaud, regurgitou canções de amor em estado puro e sofrido, como l'Amour en Soi e Ophélie. "Vou tentar reunir-me a Rimbaud. Um dia o encontrarei, em algum lugar na Abissínia, onde ele fazia o tráfico de armas e de ouro...", dizia.
Gainsbourg é o provocador delinqüente frente às câmeras de tevê, que incendeia, diante de um apresentador atônito, uma nota de 500 francos para denunciar a ganância tributária do governo; em outra, anuncia em alto e bom som para uma Whitney Houston de olhos esbugalhados, sentada ao seu lado: "I want to fuck you!".
Gainsbourg usava a mídia para escandalizar; a mídia usava Gainsbourg para elevar a audiência. É ele o autor de Aux Armes et Caetera, versão rude e iconoclasta da Marseillaise, o ilibado hino nacional francês. Num concerto em Estrasburgo, enfrentou irados e ruidosos pára-quedistas do exército nacional e subiu ao palco sozinho para cantar, a capella, o hino original. É também o espectador, das janelas do Hotel Hilton, dos protestos de Maio de 68: "Dali, ouvia os bangue-bangues dos moleques. Fiquei esperando que passasse. Acompanhava tudo pelo tubo catódico, no ar-condicionado".
Gainsbourg é o autor do furor erótico de 1969 Je T'Aime Moi non plus, censurado pelo Vaticano e, na época, proibido em diversos países, tanto no Brasil da era militar como na Suíça da era liberal. Inicialmente reservados a Brigitte Bradot, os versos de sensualismo explícito e gemidos lúbricos acabaram revelados pelas agulhas dos toca-discos na voz de Jane Birkin. Ele não pregava a liberação sexual, estava apenas interessado no hedonismo individual.
É também o cineasta underground de quatro filmes, entre eles Equateur, ostensivamente vaiado no Festival de Cinema de Cannes, e Charlotte for ever, tardiamente elogiado por Jean-Luc Godard. Antes, com a filha Charlotte, havia causado polêmica com a letra e o videoclipe da canção Lemon Incest, no qual aparece estendido em uma cama redonda, o torso nu, vestindo a parte de baixo do pijama, e ela, ajoelhada ao seu lado, com a parte de cima. Explicação: "A crítica me demoliu, disseram que era incesto. Mas não, era a vertigem do incesto".
Gainsbourg é o sedutor de irresistível fealdade, que transita por anônimos lençóis de prostitutas e conquista as mais belas, inatingíveis e desejadas mulheres: "A feiúra é superior à beleza, pois é permanente", dizia. Com Brigitte Bardot, viveu uma paixão ardente e efêmera, da qual herdou sentimentos indeléveis. Dela, diria: "A mulher ideal, no absoluto". Com Jane Birkin, inseparável companheira, experimentou uma relação duradoura e intensa. "Foi um amor violento", observou, com todos os sentidos que comporta a afirmação e todas as conseqüências resultantes da inevitável separação. "Eu a perdi por causa de meus abusos", admitiu. Gainsbourg é "o homem incandescente em frágil desespero", definiu Catherine Deneuve.
Gainsbourg é Gainsbarre, seu duplo, personagem inventado por ele mesmo na década de 1980 como uma desculpa a suas excentricidades, seus constantes excessos alcoólicos e suas vertigens depressivas. Ao Gainsbourg pai fraterno e dedicado, ao homem sensível opõe-se o Gainsbarre revolto, ébrio, notívago, transverso e desviado; o Gainsbarre da barba de três dias, movido a nicotina, cínico, misantropo e misógino amoroso. Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O manipulado debatia-se contra o manipulador. "Em casa, escuto o silêncio, mas, na rua, preciso do crash, do destroy", admitia. "Gainsbarre matou Gainsbourg como uma vingança por ter sido por ele criado", disse Charles Trenet, no rastro emocional de seus funerais.
O biógrafo Gilles Verlant revelou ter sido aspirado pelo desejo de contar a vida do personagem ao escrever, certa vez, uma única sentença: "Gainsbourg esconde seu imenso pudor poético sob uma máscara de transtornante obscenidade". Para ele, Serge Gainsbourg estava resumido nessa frase, ditada pelo inconsciente: "Gainsbourg e Gainsbarre. O poeta e o provocador. O tímido e o exibicionista. O esteta e o escatológico. O austero e pornógrafo. O dândi e o vagabundo. O milorde e o vadio. O chorão e o mata-mouros. O farsista e o desesperado. O burlesco e o trágico. O sonhador e o egoísta. O gênio e o falsário".
Em 1981, dez anos antes de sua morte, em um de seus ímpetos dadaístas, Gainsbourg aceitou o desafio de simular uma entrevista do além, como se já tivesse deixado o mundo dos mortais. Em dado momento do surreal testamento, diz: "Inútil querer sobreviver pelos seus atos, sua obra. Querer sobreviver é algo de uma arrogância monstruosa. Não há eternidade. Há eternidades de 300, 400, 700 anos... E então? E aí?".
E aí que sobrevive o mito Gainsbourg.
Arrogante e docemente eterno.
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Fernando Eichenberg/Terra Magazine
"No sábado 2 de março de 1991, por volta das 18h, na residência de número 5 bis da rue de Verneuil, em Paris, extinguia-se o homem e acendia-se um mito"
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