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Quarta, 19 de novembro de 2008, 08h08

Fotógrafo lança livro sobre luta curda na Turquia

Rogério Ferrari/Divulgação
Senhora curda se protege e protesta contra a violência turca, em livro de Rogério Ferrari
Senhora curda se protege e protesta contra a violência turca, em livro de Rogério Ferrari

No livro que lança na quinta-feira, 27, o fotógrafo Rogério Ferrari trata da luta curda por uma pátria autônoma na Turquia. Curdos, uma nação esquecida resulta de viagem feita entre novembro de 2002 e fevereiro de 2003 por Ferrari a Diyarbakir, a "capital" curda na Turquia.

A foto reproduzida acima é a mesma que ilustra a capa do livro. O fotógrafo soube que a senhora retratada tinha familiares presos pelo governo turco acusados de serem guerrilheiros separatistas curdos. Ela mesma, segundo soube Ferrari, havia sido detida e torturada pela polícia.

Quando Ferrari perguntou se podia fotografá-la, a mulher negou temendo represálias. Depois, conversando, aceitou desde que pudesse usar a foto de seus familiares "para se proteger e denunciar" a repressão contra curdos, conta o fotógrafo.

Ferrari retratou e colheu depoimentos de vinte pessoas. Registrou momentos espontâneos do cotidiano em Diyarbakir - ou Amed, o nome curdo para a cidade. Leva-se no local uma vida "normal", relata o fotógrafo, mas há a constante tensão em relação a represálias policiais.

Imagens da celebração de casamentos lembram a luta curda pelo direito à expressão cultural. Diz Ferrari que é costume consumar o matrimônio em espaço aberto e para tanto, os curdos devem pedir autorização à polícia. Conceder, os soldados concedem, afirma o fotógrafo, mas através da "barganha, da corrupção".

As manifestações culturais são cerceadas. "Bandeiras e símbolos que identifiquem curdos como curdos são passíveis de repressão", analisa o autor. Ele relata:

- Existe uma tevê curda que transmite da Bélgica. O canal é importante porque traz informação independente sobre as perspectivas curdas e por outro aspecto, a língua. Novas gerações estão perdendo a língua materna porque nas escolas só é permitido ensinar turco. Acontece uma aculturação e o canal ressalta a identidade curda.

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK, foi fundado em 1978 reivindicando um território curdo a leste da Turquia. As guerrilhas atuam na clandestinidade e servem hoje como bode-expiatório a autoridades turcas, segundo relato de Ferrari.

Quando ocorrem manifestações políticas nas ruas, a polícia reprime de "forma violenta". Acusam os manifestantes de separatismo e condenam à pena de 35 anos, à qual estão sujeitos os familiares da senhora fotografada.

Originalmente a favor da separação dos curdos da Turquia, o PKK hoje defende a autonomia de seu povo dentro do território estabelecido. O alinhamento da Turquia com países ocidentais limita as relações diplomáticas dos curdos, segundo análise de Ferrari. Por uma opção mais plausível, apostam na autonomia nos moldes existentes na Espanha, que não implica separação.

Organizado em montanhas ao norte do Iraque, o PKK se movimenta sob ameças e bombardeios turcos. Ferrari tentou chegar nas vilas onde estão as guerrilhas, mas diz que foi impedido pelo bloqueio militar que as circundam. Há vilas e cidades inteiras destruídas (pelos bombardeios) em que o trânsito normal, sobretudo de jornalistas estrangeiros, é interditado, critica o autor.

O livro foi traduzido para o francês, italiano e para a língua curda, banida na Turquia. O lançamento de Curdos, uma nação esquecida será dia 27 de novembro na Aliança Francesa de Salvador, onde na seqüência haverá exposição das fotografias até 24 de dezembro. (Av. Sete de Setembro, 401 - ladeira da Barra).

 

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