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Reuters
A crise gerada após 15 de setembro, com a quebra do Lehman Brothers, prepara novos tempos
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Antonio Corrêa de Lacerda
De São Paulo
O novo quadro econômico global impõe profundas mudanças nas políticas econômicas dos países. Este é o grande desafio que se apresenta para a economia brasileira no curto prazo. Para além da superação dos problemas relativos à carência de crédito observada no mercado, haverá outras definições importantes. Muito do que vai ocorrer com a nossa economia em 2009 vai depender fundamentalmente das escolhas que forem feitas no presente, especialmente no que se refere ao conjunto das políticas monetária, fiscal e cambial.
No cenário internacional há sentimentos contraditórios. De um lado, se afasta cada vez mais o risco de uma crise sistêmica nas finanças mundiais. Esse era um risco iminente, a partir do pânico instaurado nos mercados, pós 15 de setembro, com a quebra do Lehman Brothers. Seguiu-se uma série de intervenções por parte dos bancos centrais e governos mundo afora, cuja conta já anda perto dos US$ 4 trilhões.
Porém, de outro lado, fica cada vez mais evidente o efeito contágio nas economias centrais do capitalismo. O World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado na semana que passou, acaba de reduzir o prognóstico do crescimento econômico mundial, de 3% para 2,2%, com destaque para a recessão eminente nos EUA e na Europa. O mesmo relatório aponta para uma contração de 0,3% para o conjunto dos países desenvolvidos, no próximo ano.
Há uma crise grave, a mais intensa desde 1929 e os governos e bancos centrais estão atentos, tomando medidas. Em alguns casos reativas, mas em muitos se preparando para os novos tempos. Muitos reduziram as taxas de juros. Mas há também os países que adotam uma clara política econômica anticíclica, como é o caso mais evidente da China, que acaba de anunciar um pacote de investimentos em infraestrutura da ordem de US$ 700 bilhões para os próximos anos, com o claro objetivo de contrapor-se à queda da demanda global.
Ao Brasil resta o desafio de ajustar as velas aos novos ventos. A queda nos preços internacionais das commodities e o desaquecimento da demanda global irão nos exigir maiores esforços para geração de excedente exportador. Isso, por outro lado, representa uma janela de oportunidade de o Brasil ajustar o câmbio, como de fato vem ocorrendo, aproveitando a onda deflacionista global. O desafio será o de evitar um overshooting cambial que viesse a gerar pressões inflacionárias adicionais, assim como a necessidade de elevação de juros, inviabilizando o crescimento econômico.
No que se refere, por exemplo, à calibragem da taxa básica de juros, o risco é cometer um erro de avaliação, baseando-se em indicadores do passado e que não mais representam a nova realidade. A contração do crédito e do financiamento está provocando uma forte redução do ritmo de atividades. Daqui a seis meses, quando efetivamente as taxas de juros definidas agora passarem a fazer efeito na "economia real", um juro mais elevado pode vir a ser um fator adicional para derrubar uma já combalida economia. Daí a importância da combinação correta entre as políticas monetária, cambial e fiscal.
A taxa de juros, assim como o câmbio, são variáveis determinantes para decisões envolvendo importações, exportações e também de investimentos produtivos. Da mesma forma, também impactam o custo de financiamento da dívida pública. A redução do custo do financiamento da dívida pública será um fator fundamental para definir o espaço para os investimentos públicos. Somente para efeito de comparação, enquanto o financiamento da dívida pública brasileira tem custado cerca de R$ 160 bilhões ao ano, o investimento público federal previsto para esse ano deve chegar a R$ 17 bilhões. Ou seja, em tese, uma redução de 10% no custo de financiamento da dívida permitiria dobrar o investimento público, sem maior esforço fiscal. É só uma ilustração da importância de algumas das decisões para o futuro, o que nos exigirá determinação, além de uma clara definição de prioridades.
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