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Sexta, 21 de novembro de 2008, 08h10

A história de Victor Meyer, um "bom clandestino"

Reprodução
Victor Meyer, militante baiano da Política Operária biografado pelo jornalista Emiliano José
Victor Meyer, militante baiano da Política Operária biografado pelo jornalista Emiliano José

Thais Bilenky
Especial para Terra Magazine

Preso por quatro anos durante a ditadura militar, o jornalista Emiliano José liberta a história do militante Victor Meyer através do livro que lança, hoje, sexta-feira, 21 de novembro de 2008, no Centro Cultural da Câmara Municipal de Salvador (BA).

O terceiro volume da série "Galeria F, Lembranças do Mar Cinzento", publicada pela Caros Amigos Editora, Victor Meyer, um revolucionário narra a "boa clandestinidade" do militante e da organização que ajudou a manter, a Política Operária, ou Polop.

Em 1967, aos 19 anos de idade, o baiano Meyer ingressou na militância da Polop seis anos depois de a mesma ter sido fundada. A partir de então, "embarca definitivamente nas águas da revolução... Não a 'revolução' de 1964, como alguns milicos a chamam. Ele ingressa na clandestinidade, na luta contra a ditadura", relata seu biógrafo.

Victor Meyer morreu com 52 anos em decorrência de um câncer. Jovem em comparação à expectativa de vida do brasileiro, especialmente aqueles que tem acesso a cuidados de saúde e à educação, como o teve o biografado. (Meyer lecionou economia na Universidade Católica de Salvador e na Universidade Federal de Feira de Santana, na Bahia, para onde regressou nos anos 1980, após período no sul.)

Ao contrário, sua vida na clandestinidade foi mais longa que a média, como observa Emiliano José:

- Era bastante capaz. Viveu na clandestinidade, trabalhou duramente, foi militante da Polop e conseguiu escapar da queda. Na militância tínhamos uma vida- útil de um ano e meio, dois anos, no limite. Quando mais, caíamos. Ou éramos presos, ou mortos, ou tínhamos que sair do país. O Victor conseguiu a proeza de viver na clandestinidade e manter-se. Era um bom clandestino.

O biógrafo explica por que dedicou a Meyer o terceiro volume da série, inicialmente pensada para reconsituir a história da Galeria F - a ala dos presos políticos na penitenciária Lemos de Brito, em Salvador. Emiliano escreveu livros (entre outros cinco) sobre os guerrilheiros Carlos Marighella e Carlos Lamarca. Victor Meyer, um revolucionário é, em suas palavras:

- A história de um revolucionário que não tinha a notoriedade do Lamarca, do Marighella, mas que deu uma enorme contribuição, dos pontos de vistas intelectual e militante, à causa da luta contra a ditadura.

Emiliano José é professor licenciado da Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi vice-presidente do PT da Bahia e exerceu a presidência em 2005. Em 2003 assumiu mandato como deputado estadual (PT-BA) que terminou em 2006, quando passou a integrar o Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores.

A Polop sustentava, desde sua fundação, idéias diferentes das principais organizações e partidos de esquerda do período em que o regime militar tomou o poder no Brasil (entre 1964 e 1985). "Defendia a manutenção da independência frente aos partidos comunistas no poder em diversos países, criticava as deformações burocráticas do campo socialista então existente, mas solidarizava-se com estes países em conflito com o sistema imperialista", segundo Emiliano. Para ele:

- A Polop se caracterizava pela condenação ao que se considerava "política de colaboração de classes" do PCB (Partido Comunista Brasileiro), do PSB (Partido Socialista Brasileiro) e do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) - isso no seu nascedouro. Afirmava o caráter socialista de qualquer futura revolução no Brasil.

Prossegue:

- Isso parece pouco mas o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e vários outros defendiam a revolução em duas etapas. A Polop não. Defendia também reconhecimento da importância da classe operária como força aglutinadora para formação de uma frente de trabalhadores da cidade e do campo. Defendia a construção de um partido político representativo desta classe.

A Política Operária teve na sua origem intelectuais de "muito peso": Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, Rui Mauro Marini, Eder Sader, Émir Sader, Marco Aurélio Garcia, Paul Singer e outros. "Desconhecido" era o "grande pensador" da Polop, diz Emiliano.

Ernesto Martins (pseudônimo de Eric Sachs) "chegou ao Brasil no começo da Segunda Guerra Mundial, fugindo das perseguições do nazismo e do stalinismo. Era um judeu austríaco, membro de uma família de militantes comunistas. Havia se exilado na União Soviética em 1934 e aí se aproximou dos ciclos de oposição interna do Partido Bolchevique. Em 1938 foi expulso da União Soviética, então tornou-se um jovem integrante da oposição comunista alemã. Veio ao Brasil e foi um dos principais pensadores da Polop", afirma o biógrafo.

Marco Aurélio Garcia é hoje assessor especial da Presidência da República. Carlos Tibúrcio é assesor especial da Secretaria-Geral da Presidência da república. Nilmário Miranda assina o prefácio do livro, foi secretário Especial dos Direitos Humanos do governo Lula. Os três integraram a Polop.

"Eles estão sendo dignos desta memória?", reflete Emiliano. "Sem dúvida nenhuma", responde, "com tranquilidade":

- Nada no plano das idéias se congela. Nada será como antes, sempre. Tudo se modifica. Até a classe operária à qual se referia a Polop é completamente outra nos dias de hoje com a revolução tecnológica. Se você fizer uma análise atual, terá que ser com outro olhar. Muitas dos sonhos presentes naquele tempo da Polop estão presentes nos dias de hoje mas postos em prática de maneira diversa.

"Trincheira por trincheira, há conquistas de grande alcance. É evidente que o governo Lula é parte da revolução democrática no Brasil", conclui o biógrafo atuante na vida que narra.

 

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