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Sábado, 22 de novembro de 2008, 09h28

Austrália, o filme

Divulgação
Cena de  Austrália, o filme , do diretor Baz Luhrmann, que estréia no Brasil em 23 de janeiro
Cena de Austrália, o filme, do diretor Baz Luhrmann, que estréia no Brasil em 23 de janeiro

Alberto Luiz Fonseca
De Sidney, Austrália

"Austrália", o filme, teve sua 'première' esta semana em Sydney e em várias outras cidades do país onde foi filmado. Entrará em cartaz nos cinemas australianos no dia 26 de novembro.

As estrelas maiores do filme, um épico romântico e melodramático, uma espetacular saga que se passa nos anos de 1939 a 1941, filmada em sua maior parte na bela região do "outback" da Austrália, são os australianos queridinhos de Hollywood Nicole Kidman e Hugh Jackman (o 'Wolverine' dos filmes da série "X-Men").

O diretor, Baz Luhrmann, é também australiano. Claro. Já filmou diversos filmes "de autor", ou independentes. Mas você se lembrará dele por ter filmado "Moulin Rouge", que também contou com Nicole Kidman no papel principal.

Reserva-se, porém, possível surpresa na cerimônia do Oscar para o garoto aborígene Brandon Walters, de 12 anos, que representa nas telas o papel do jovem Nullah, neto do feiticeiro aborígene King George.

A tocante história de vida do garoto Nullah está no núcleo do enredo do filme, que foi financiado e está sendo gerido pelo estúdio '20th Century Fox', um dos gigantes de Hollywood.

A cobertura jornalística do lançamento de "Austrália" tem tido um pouco de tudo: desde o diretor Baz Luhrmann dizendo "espero que os australianos e todos que forem ver o filme se divirtam", a reclamações de alguns dos críticos de que há clichês demais na saga, dos quais cita-se sobretudo a cena final, segundo eles feita apenas para arrancar lágrimas da platéia em todos os cantos do mundo.

O mais interessante ponto de vista, porém, a meu ver - até mesmo como experiência a ser analisada para uma possível iniciativa similar futura no Brasil -, é estudar a nova saga australiana pelo ângulo do ganho de imagem que representará para o "país dos cangurus" no exterior.

Mais ainda, o impacto evidentemente positivo que ele terá no aumento do fluxo de turistas estrangeiros para a Austrália, tanto no curto quanto no longo prazo.

"Austrália", o filme, foi financiado por dinheiro norte-americano, mas a autoridade australiana de turismo (a Embratur local), não perdeu tempo, e lançou uma campanha de propaganda ao custo de US$ 50 milhões para promover o país como destino turístico na esteira do sucesso do filme!

Entre outras ações, foram produzidos dois curta-metragns de propaganda feitos com o dinheiro do órgão, mas dirigidos pelo próprio diretor Baz Luhrmann.

Esses filmes serão mostrados em 22 países escolhidos, cujos cidadãos viajam internacionalmente e trazem divisas a seus destinos turísticos.

Se nada mais pudesse mencionar aqui, eu destacaria já que a mais famosa personagem norte-americana de "talk shows", Oprah Winfrey, falou na semana passada, ao vivo, para seis milhões de telespectadores nos Estados Unidos: "o filme Austrália vai fazer vocês saltarem dentro do próximo avião a caminho do país".

Imaginou o impacto, caro leitor?

A Austrália, é caso conhecido, aumentou exponencialmente o fluxo de turistas estrangeiros para suas atrações turísticas nos anos 90, quando do lançamento do fenômeno de público "Crocodilo Dundee". E agora está fazendo de novo!

Outro caso conhecido é o da Nova Zelândia. Depois que foram filmados naquele país os três filmes da saga "O Senhor dos Anéis", o fluxo de turismo na Nova Zelândia aumentou em mais de 65% em 3 ou 4 anos!

Bem, e quanto ao Brasil?...

Não podemos aprender nada com isso?

Sim, creio que sim.

Temos visto, principalmente desde "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, um aumento do fluxo de turistas que quer ir ao Rio de Janeiro visitar uma favela.

Sim, sei bem, na favela da Rocinha (pelo que sei), já tem até hotel para receber esses "curiosos".

Porém, eu me pergunto, e lhe pergunto também, caro leitor: qual será a porcentagem de pessoas comuns, turistas potenciais do mundo todo, endinheirados e com divisas para gastar em nosso país, que vai ao cinema perto de sua casa, assiste a filmes violentos como "Cidade de Deus" ou "Tropa de Elite", e passa a ter uma vontade irresistível de ir ao Brasil?!

Vejam bem, aqui não há crítica a esses filmes. Acho legítimo, e necessário até, pintar-se a realidade das favelas do Rio de Janeiro como ela é.

Mas... será que não haverá mais nada no Brasil, de interessante, que se possa TAMBÉM mostrar ao mundo, além dessa triste realidade?

O que acho, caro leitor, é que há. Claro que há, você não concorda comigo? Se, no cinema nacional, mostrássemos também belas partes de nosso país, a força e a beleza natural de nossa gente; se nos permitíssemos isso, deixando um pouco de lado esse nosso ridículo - ridículo mesmo, desculpem-me a força da expressão - complexo de inferioridade, que eu nem sei mais de onde vem, talvez conseguíssemos muito bons frutos em termos de melhora da imagem do país, em termos de aumento do fluxo turístico mesmo. E com relativamente pouco esforço.

Os "intelectuais" de plantão dirão: vexame!

Eu digo: fazer um, ou mais de um, belos filmes, mostrando coisas que o Brasil tem de belo e bom, os (muitos, não nos esqueçamos) pontos positivos de nosso País, não é hipocrisia intelectual, não é melodrama para enganar estrangeiros.

Veja-se, por exemplo, o sucesso da novela "Pantanal", há tantos anos já passada.

Claro que se poderia, sim, mostrar as belas regiões do país, como por exemplo o Pantanal, ou mesmo a própria Amazônia.

Com bons atores, boa história, belos personagens. Assim se prestaria um serviço ao Brasil.

Na Austrália, a maioria da população carcerária do país é constituída de aborígenes negros. Muitas comunidades aborígenes estão completamente devastadas pelos efeitos da bebida alcoólica; acabaram-se as tradições, corromperam-se jovens e velhos e há muita violência, contra o pano de fundo da "ingenuidade" inicial dos "selvagens" que ali viviam na chegada dos brancos, há séculos.

Assista ao filme "Austrália" e me diga quanto dessa realidade está retratada ali.

Pensando bem, melhor eu já lhe adiantar, meu caro leitor, minha cara leitora: nada.


Alberto Luiz Fonseca, mineiro e diplomata, serve atualmente na Embaixada do Brasil em Londres, onde ocupa o cargo de Adido Cultural. Filho de pais músicos, foi fundador do "Café com Letras", conhecido café e livraria de Belo Horizonte.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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