
Amilcar Bettega
De Paris
Uma imagem parada: Sophie à mesa do café, diante de Martín que a olha (os cotovelos apoiados no mármore encardido da mesa, as mãos sob o queixo). Ela, Sophie, tem o olhar voltado para um ponto um pouco acima do nível onde se localizaria o observador da cena. Como se alguma coisa se passasse, naquele exato instante e fora do quadro da imagem, atraindo-lhe a atenção. Ou então simplesmente ela olha de forma vazia para um ponto aleatório dentro de seu campo de visão mas sem ver e sem se preocupar em ver o que quer que seja, pois completamente absorta em seus pensamentos que, é muito provável, estão longe daquele café ou até mesmo daquela cidade.
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(a cidade é Buenos Aires e não lhe diz nada. Um dia, quem sabe, ela vai se perguntar: "mas por que Buenos Aires?"; ou ainda, confundida com o curso das estações no hemisfério sul, ela recordará: "no verão de 2006, em Buenos Aires...". Aí então já será outra Sophie que fala, carregada de tempo, que relembra um episódio de sua vida quase como se tivesse sido vivido por uma terceira pessoa)
Os dois estão no centro do plano (embora a figura de Martín, talvez porque um pouco de lado, mas sobretudo por sua postura passiva, seja claramente secundária). À volta, os outros clientes do café e os garçons formam o pano de fundo (ainda que todos estejam mais ou menos à mesma distância do observador).
O quadro é fixo, e os dois elementos principais (Sophie em primeiro lugar, Martín depois) também têm uma posição estática. Eles conversam.
(não há conversa nesse exato instante: Sophie olha vagamente para um ponto no canto superior do quadro, Martín tem os cotovelos fincados no mármore e as mãos sob o queixo; pode até ser uma pausa momentânea na conversa, na fala de Sophie, mas alguma coisa nos diz que o silêncio é duradouro, que ela não vai continuar)
Mas não há nenhum movimento, ou melhor, nenhum gesto a meio caminho ou postura do corpo que indica que ela vai falar. Por outro lado, em vários dos clientes à volta deles é possível perceber que essa imagem parou em meio a diálogos animados, há toda uma gesticulação (congelada) que acompanha as palavras que se cruzam sobre o tampo das mesas.
Porém, é no movimento (no registro do movimento) dos garçons, em seus passos que progridem entre as mesas numa dança de bandejas e bules de café e copos e xícaras que a cena ganha outra vez mobilidade. É nos comandos gritados ao balcão que outra vez o ambiente do café se povoa de vozes e ruídos e do calor que provém dessas vozes e ruídos.
E lentamente, levados pela dança dos garçons à sua volta, contagiados por uma onda de movimento que varre o quadro, Sophie e Martín (ainda que ele mantenha sempre o mesmo ar de passividade e espera; ela, ao contrário, parece despertar de um transe) retomam a seqüência desse instante de suas vidas em que Sophie fala a Martín num café da rua Suipacha em Buenos Aires.
*
Como que despertando de uma espécie de transe, Sophie recolhe o olhar desde um ponto indefinido no canto superior do quadro e, tornando a cabeça em direção a Martín, recomeça a falar.
Terra Magazine