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José Cláudio/Terra Magazine
Amazônia. "Motor Ana Cristina" para 50 passageiros. Desenho de José Cláudio, Rio Madeira, 1975
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José Cláudio
De Olinda (PE)
Da boca do Madeira para Manaus o Garbe vai umas dezoito horas porque é subindo e o Amazonas deve estar começando a encher. O Lindolpho é forte, tem noventa e dois cavalos, enquanto um motor de recreio carregando bem cinqüenta pessoas e carga, com dois andares, tem cinqüenta cavalos, como o Mario Antonio III, que encostou ontem junto de nós em Novo Aripuanã. Mas a grande diferença é que vamos com duas proas e por isso um recreio nos passa com facilidade.
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Quero prestar atenção, ao passarmos no Paraná da Eva, de nome tão bonito, quando pegarmos o Amazonas. É de água preta, isto é, limpa.
A sumaumeira lá atrás é de largura da casa cá na frente e a casa é tanto larga, mais larga do que alta, com uma porta no meio e duas janelas afastadas. A gente fica pensando que alguma coisa está errada, que a casa é de brinquedo, até que aparece uma pessoa na janela.
Hoje de manhã, sol aberto, eu disse: "O sol hoje vai ser de tinir". Às sete horas já se sentia calor. "Daqui a pouco começa a mutuca", eu disse a Filomeno. "Não tem mutuca", ele respondeu. Quando acabou de dizer pousou atrás dele no tabique a maior mutuca que já vi. Chica já tinha pegado duas delas, que atende pelo nome de Tabanus, da família dos Tabanidae, e é do tamanho de uma semente de sapoti. Mas Chica disse que a outras maiores, como a Midas heros que chega a dez centímetros. Ela já pegou uma Midas no Brasil, em Pernambuco, mas não a

Pormenor de "Motor Ana Cristina"
Do rio só se vê uma casa pequena, porta e janela, pintada de cor rosa e azul, com o letreiro CASA SILVA. O homem que veio vender macaxeira disse que era negócio, mas está fechado. Queria trocar macaxeira por açúcar. Recebeu três cruzeiros pela bolsa de macaxeira.
A Panthophthalmus é chamada "mosca da madeira" porque sua larva fura a madeira, não se sabe se para chupar o caldo ou digerir a polpa. Também não se sabe se o adulto come. Alguns pensam que simplesmente não comem, não se alimentam. Os cientistas deviam criar um híbrido desse bicho, boi, carneiro, porco, em vez de fazer bombas.
A viagem é uma delícia. Não se tem medo de catabi nem batidas, anda-se com os músculos descontraídos, o banco não balança e a paisagem vai mudando lentamente, deixando-nos vê-la e saboreá-la à vontade.
Aqui na ilha do Guajará amarramos bem na mata, que começa na beira. Entre o barco e a mata só tem mesmo o capim da beira. Pensávamos que ia ter muito mosquito mas até que nem. O carapanã foi discreto. "Estão repartindo as vítimas", Paulo disse. Mas não houve o ataque. Pouco antes de atracarmos passamos pela ponta da ilha de José João, onde levamos a pior surra de carapanãs de toda a viagem.
Em Barreira de Matupiri tinha uma velha, e depois chegou uma criança no braço da mãe, com malária. Agora mesmo aqui no Guajará entrou um homem querendo comprar bolacha porque estava com dois filhos doentes, um de quinze anos e outro de doze e ele mesmo estava com a cara inchada e cor de cera. Deve ser cachaça, porque o ministro da saúde Paulo Almeida Machado (1974-1979) disse que malária na Amazônia é problema resolvido.
Em Novo Aripuanã não tem telefone. Não pude falar com Léo.
O andaime que o seringueiro arma para cortar no alto se chama "mutá".
Mas mutá mesmo é um jirau para esperar caça.
Paulo só pode ser de Oxossi. Quando vê mata, se estiver doente fica bom. Quando entra na mata, baixa-lhe uma tranqüilidade, uma beatitude, fica paciente, explica: "Tá vendo aquele pontinho esverdeado ali? Vem onde estou, aqui: é o olho de uma aranha. Gota d'água é vermelho. Não precisa ficar tão calado: bicho de noite não faz muita questão de ouvir fala de gente. Estão certos de que a noite é deles".
A mata para Miriam é uma partida de baseball. De repente ela se entesa em posição fundamental, pés bem afastados, ela é alta, braços retos com a mão empurrando os joelhos, simétrica, o corpo caído para diante a se esticar, move o pescoço com cuidado dando voltas com a cabeça: é para passear o holofotezinho que carrega na testa em vez de lanterna de mão, pelas moitas. Desiste, daí a dois passos pára de novo, acredita sempre. Tem olho fino, é quem pega mais rãs, por isso o americano a trouxe. Quando perde uma rã, dá-lhe um verdadeiro desespero, é como quem perde uma bola de bandeja. Gesticula e grita o tempo todo, deve dizer mil "porras" e "putas-que-o-pariu" na língua dela. Teve uma hora que ela gritou que eu que eu pensei que ela tivesse se espetado numa taquara. Vanzolini saiu de junto de mim correndo, segurando suas mochilas: era para atirar numa rã que ela viu que não dava tempo de dar o pique e botar a mão em cima dela viva. Quando cheguei Vanzolini já apontava a pistolinha para o pé do tronco de uma árvore separada de nós por uma vala. Ela jogou-se em cima do tiro e voltou com a rãzinha na mão examinando-a com a maior curiosidade, uma criança que acertasse no primeiro sanhaçu.Vanzolini tem uma pontaria da gota, com aquele carocinho de chumbo do tamanho de um grãozinho de areia.
O índio rouba boi rastejando e jogando terra, primeiro na cara, se o boi estiver deitado, para o levantar, e virar na posição desejada, e assim o vai tangendo em direção ao rio, em cima do vaqueiro e ele não vê. No rio derrubam ele n'água e já tem mais de cem mulheres esperando. Esquartejam de baixo d'água com couro e tudo, empurram o fato rio abaixo, não fica um pingo de sangue. O rastro é apagado: vai um índio tangendo e outro atrás, também rastejando, com folhas apagando o rastro sem fazer barulho.
O jabuti vê o caçador e em vez de correr, pára, estica o pescoço e diz abrindo bem a boca: "paass-ssa...". Aí o caçador o pega.
Estamos em Borba, tomando "vinho" de açaí que um menino veio vender num caldeirão. Estava fazendo uma caixa de cedro para embalar os quadros no quintal da casa do filho de criação de Dna. Mundica.
Chegou uma velhona gorda de cabelos brancos e essa cor roxo-avermelhada amazonense, bons dentes e óculos: "Vou atravessar por aqui para encurtar caminho", disse. E perguntou à mulher da casa: "Compraste porco-do-mato?", assim na segunda pessoa do singular, que a gente do Nordeste só tem coragem de dizer no dia do exame. "Não", respondeu a outra, "quando cheguei não tinha mais, tinha se acabado". "Eu também", disse a outra. "Comprei porco desse de casa mesmo. Fiquei com uma pena! Uma cabeça de porco-do-mato com pimentão, cebolinha, pimenta, hum..."
O homem de um "cuméuço" (comércio) onde comprei fio para amarrar a caixa dos quadros, que não se pode fechar de vez com pregos porque tem de abrir na alfândega de Manaus, me arranjou um cachinho de açaí.
Ás vezes eu durmo demais e passo da hora: mas é raro. Paulo me chama. Hoje ele abriu a porta do camarote disse: "Acorda, patativa". Outro dia ele abriu, eu acordei e disse: "Oi! Nem vi que o dia tinha amanhecido!" "Não só amanheceu", respondeu ele, "como sorriu".
Se eu pudesse faria em Olinda uma casa amazônica. Sem paredes, suspensa do chão. Nada de cama: rede, para não ocupar espaço. Ou esteira de pipiri para quem não gosta de dormir em rede. Aliás uma coisa que eu vi lá e se usa muito aqui: esteira de pipiri. Toda criança do Nordeste se arrastou numa esteira de pipiri. E aprendeu a morder, e a pegar, nas pontas da palha.
Saímos de Borba hoje às quatro e meia da manhã. Vamos dormir a última noite no Paraná da Eva. Vou pintar um "Kitsch" com esse título, árvores se debruçando dentro do rio, araras, onças antas, moças tomando banho, que é o tema mais lindo de toda a História da Arte.
Também vou pintar uma onça numa praia.
Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em novembro de 2007.
» Diário de uma viagem ao Amazonas (XX, final)