
Tony Monti
De São Paulo
Acho que é sobre a morte, pensei num lapso, como se pudesse dizer em uma palavra o irresumível. Acho também que é sobre estar atento. A atenção do olhar do autor artista plástico é das coisas que mais me impressionam no livro. Atenção distraída. Morte e atenção são, em suas amplitudes, características de quase tudo. Morte não como um fim, mas como um processo. Nuno Ramos é atento e cuidadoso como aquele que não tem pressa, embora o peso da desintegração o empurre. Sem pressa no olhar nem no pensamento. O plano é eu dizer alguma coisa com o corpo ainda pulsando as vontades que o livro, Ó, me provocou.
Acho que há uma busca por um tempo exato das transições, tive a sensação de que, em cada texto, Nuno leva um fio de pensamento até o limite, onde uma fronteira tenha se desenhado sem ter sido anunciada. O texto preenche de idéia um pedaço de espaço, devagar, até o instante em que a forma está pronta. A maioria dos textos do livro têm títulos compostos - "galinhas, justiça", por exemplo. As palavras enchem grão a grão a idéia galinha, o enunciador conta da impressão que lhe causam as aves quando presas em gaiolas. A idéia deriva e expande até que uma forma compacta e detalhada esteja posta.
Mas ainda há mais idéia. Um grão cai no texto. Não cabe mais em galinha. Escapa no tempo certo para então começar a idéia justiça. Lembrei agora da naturalidade com que alguns palhaços tomam tombos. Ou continuam em pé. Um palhaço caminha em direção a um buraco, sorrindo. Está distraído com a bola vermelha que carrega nos braços. Anda trôpego, calças largas, gravata borboleta, um catavento no chapéu. Assopra o cabelo de lã, mas os fios voltam a cobrir os olhos. Cordas coloridas pendem do teto, atravessam o picadeiro como cipós e insistem em desviar do homem.
No outro lado do palco, uma tábua se desloca devagar perto do chão. O palhaço dá seu último passo antes de desabar, um pé no ar sobre o abismo. A tábua se aproxima, cobre o buraco sob o sapato enorme. Um acidente ao avesso. No passo seguinte, o palhaço deixa a tábua, caminha em uma direção diferente da primeira, o buraco para trás. Ele não viu. A tábua continua a se mover. Uma cratera separa o palhaço do lugar onde ele estava dois segundos antes.
Borges contava a vida de um místico sueco, Swedenborg. Eu estava na praia, com o livro nas mãos. Fascinado com uma dúvida - se o que ele dizia era ficção e ele me enganava, eu alternava o olhar entre o livro e o corpo das pessoas embaixo do sol, aquela evidência da realidade perto de mim. Parece que Swedenborg existiu. Ali, Borges foi o avesso do que foi em Ficções, ensaio com aparência de conto. Ou o que seja. Sob muitos aspectos, a dúvida é tão possível e válida quanto a resposta é desnecessária.
O palhaço vai saindo do palco. As pessoas riem, não todas, quase fecham os olhos devido aos espasmos musculares. Alguém ainda presta atenção, mordendo forte. Aguarda, pensa. Evita o riso para enxergar o último detalhe, se houver algum.
Contos ou ensaios. Sem responder, localizo, no universo, um ponto de dúvida. Ó, o livro, constrói-se no percurso, com a marcha do mostrar. Não pergunta como quem quer resolver um problema, mas com atenção de quem quer vida, tocar a matéria e pensar, antes que acabe. Acho que é sobre ter que ser outra coisa para afirmar alguma liberdade.
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