Terra Magazine

 

Sexta, 28 de novembro de 2008, 13h38 Atualizada às 17h33

Estréia do cinema retrata conflito com índios

Gerhard Dilger/Terra Magazine
Índios kaiowá, que historicamente foram explorados pelo homem branco, são agora retratados no filme  Terra Vermelha , que estréia nesta sexta, 28 de ...
Índios kaiowá, que historicamente foram explorados pelo homem branco, são agora retratados no filme Terra Vermelha, que estréia nesta sexta, 28 de novembro

Gerhard Dilger, especial para Terra Magazine
De Porto Alegre (RS)

Hoje estréia no Brasil um dos filmes mais importantes do ano: Terra Vermelha, do diretor ítalo-chileno Marco Bechis (Garage Olimpo, 1999). A produção ítalo-brasileira já havia causado furor nas mostras de Veneza e São Paulo.

Há algumas semanas, no "Amazonas Film Festival", de Manaus, o filme ganhou o prêmio especial do júri presidido pelo britânico Alan Parker. Estranhamente, os meios locais se interessaram muito mais pelas celebridades nacionais e internacionais que por Terra Vermelha ou por seus cinco protagonistas presentes: Ambrósio Vilhalva, Alicélia Batista Cabreira, Eliane Juca da Silva, Abrísio da Silva Pedro y Ademilson "Kikí" Verga.

Os cinco atores pertencem à etnia guarani-kaiowá, provavelmente o mais castigado dos 227 povos indígenas do Brasil. Foram acompanhados por seu amigo Nereu Schneider, um advogado de 45 anos, e pelo co-produtor Caio Gullane.

O título europeu de Terra Vermelha, Birdwatchers, (Observadores de aves) remete às cenas iniciais: ao descer por um rio que atravessa os restos de uma selva, os turistas estrangeiros vêem um grupo de índios pintado e equipado com arcos e flechas. Mas esse "encontro" é produto de uma montagem: os índios, já vestidos com suas roupas ocidentais, recebem um pagamento miserável da organizadora do tour, a esposa do dono da terra e protagonista.

O cenário de Terra Vermelha é o estado do Mato Grosso do Sul, situado ao norte do Paraguai, cujo nome é uma lembrança cruel de sua história mais recente: os colonos brancos já destruíram 98% da mata virgem. Mas a película não é um panfleto moralista. Apresenta o sangrento conflito de terra entre índios e brancos com ramificações tão inesperadas como o episódio inicial.

"Para mim, o título ideal teria sido Retomada", diz Schneider, que acompanha a luta dos kaiowá desde os anos 80. Nos últimos anos os índios estão recuperando parte de suas terras ancestrais que foram retiradas por pecuaristas que, nas últimas décadas, têm ampliado as plantações de soje e de cana.

O advogado que serviu de ponte entre Marco Bechis e os indígenas é oriundo de uma família de colonos pobres do sul do Brasil. "Ainda me lembro de meu pai me contando como, nos anos 50, incendiaram as ocas dos índios no interior do Rio Grande do Sul", conta Schneider. "Depois plantaram soja".

A etapa posterior da colonização por pequenos agricultores de origem alemã ou italiana deu-se no centro-oeste. Enquanto os kaiowá foram encurralados em oito reservas, suas terras tornaram-se áreas de monocultura. Hoje, através do trabalho semi-escravo, contribuem para abastecer as fábricas de etanol. Outras trinta fábricas seriam construídas nos próximos anos, de acordo com planos do agronegócio.

Os kaiowá, um subgrupo da etnia guarani que vive dispersa por Argentina, Paraguai, Bolívia e vários estados brasileiros, são os verdadeiros protagonistas do filme. Em Manaus, os cinco jovens atores observaram o circo cinematográfico da Ópera imortalizada em Fitzcarraldo e hotéis de luxo com uma mistura de assombração e entusiasmo. Todos chegaram à Amazônia pela primeira vez, e o contraste com a vida cotidiana foi colossal. "Que é isso? Um rio ou um lago?", pergunta Alicélia Batista Cabreira, de 28 anos, numa saída de barco até o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.

"Uma parte do dinheiro que se gasta aqui poderia ser utilizada em projetos sociais", opina Abrísio da Silva Pedro, de 19 anos, depois de pernoitar num "jungle lodge" no rio Negro. Ambrósio Vilhalva, que representa no filme o papel de um experiente líder indígena, tem uma visão mais pragmática: "Não tem problema em gastar, isso também é uma forma de avançar nossa causa".

"Muitos de nossos jovens tornam-se alcoólatras nos campos de cana", conta Vilhalva, "isso destrói os laços entre pais e filhos". Há duas décadas, uma lúgubre onda de suicídios está arrasando a juventude kaiowá. Mais de 500 jovens deram cabo na própria vida, entre eles, um irmão de Abrísio.

Terra Vermelha apresenta a alienação cultural e os suicídios dos índios kaiowá, mas também o aumento de sua auto-estima que se expressa na obstinação das retomadas. "Agora o Brasil poderá conhecer um pedaço de nossa história", disse Eliane Juca da Silva. A bela garota de 20 anos sonha com uma carreira de atriz, como seus amigos Abrísio e "Kikí". Em Manaus eles superaram a timidez, aproximaram-se dos famosos atores de novelas e tiraram fotos com seus aparelhos celulares. Ambrósio Vilhava, o "filósofo", já tem um projeto de novo filme. "Gostaria de mostrar como a justiça tira de nós nossas crianças sob o pretexto de que não sabemos cuidar deles".

Em Terra Vermelha, Matheus Nachtergaele tem um papel secundário como comerciante e agente dos empresários. "É uma história bem maluca", conta. "Eu queria fazer um filme sobre esses suicídios quando Caio Gullane me contou que já tinha alguém fazendo. Primeiro, fiquei um pouco chocado por ser um italiano, mas senti que era um assunto urgente, e esse filme foi feito".

"Foi difícil estar na reserva, foi duro, foi triste", diz Nachtergaele. "Os kaiowá são muito queridos, são pessoas autenticamente brasileiras. A gente construiu um país em terra indígena, e algum dia teremos que dar uma resposta".

Nereu Schneider descreve a reação do público no Mato Grosso do Sul, onde já houve uma pré-estréia: "O filme foi solenemente ignorado. Fou um silêncio quase sepulcral". A partir de hoje, o Brasil poderá reencontrar-se de novo.

 

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