Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Fernando Eichenberg

Segunda, 1 de dezembro de 2008, 07h58 Atualizada às 16h20

Islândia (1): do frio glacial para o sol tropical

Creative Commons/Reprodução
Reykjavik, capital da Islândia
Reykjavik, capital da Islândia

Fernando Eichenberg
De Paris

No início dos anos 1860, duas senhoras que viviam na gelada região de Thingeyjarsýsla, no nordeste da Islândia, acalentaram o sonho de migrar para o desconhecido Brasil. Ao saber que a longínqua terra tropical era abundante em açúcar e café, a dupla achou que a vida ao sul do Equador deveria se assemelhar ao Paraíso, decidiu fazer as malas e partir.

Mas, ao serem informadas de que teriam de atravessar o rio Fnjóskár para embarcar em um navio no porto de Akureyri, distante apenas cerca de setenta quilômetros de onde residiam, desistiram da viagem. "É tão difícil atravessar o rio Fnjóskár que vamos ter de abandonar a idéia", teria dito uma das candidatas à epopéia.

De uma certa forma, a história, já integrada ao folclore local, resume parte do espírito islandês: aberto às coisas do mundo, mas extremamente ligado à realidade de sua terra.

O que os neófitos conhecem dessa ilha vulcânica de 60 milhões de anos, isolada às margens do círculo polar Ártico, constituída de desertos de lava, geleiras e águas geotermais, sacudida por tremores de terra, jatos sulfurosos de gêiseres e povoada de escassos mas intensos 319,355 mil habitantes em uma extensão de 103.125 km² (pouco maior do que os 101.023 km² de Pernambuco)?

Provavelmente, que é o berço da mundialmente famosa cantora Björk. Já quem leu Viagem ao Centro da Terra, escrito em 1864 por Júlio Verne, certamente lembrará que foi pela cratera do monte islandês Snaefells que o Dr. Lidenbrock, seu sobrinho Axel e o guia Hans debutaram sua aventura pelas profundezas do globo.

Alguns talvez já tenham ouvido falar das sagas islandesas, relatos em prosa de origem oral escritos anonimamente na Idade Média, um orgulho nacional e patrimônio mundial. Outros ainda devem saber que se trata da pátria do prêmio Nobel de literatura Halldór Laxnness (1902-1998).

Mais recentemente, nas Olimpíadas de Pequim, a equipe islandesa de handebol conquistou a medalha de prata, façanha que promoveu os vitoriosos atletas a heróis no retorno ao lar, mas um fato certamente ignorado pelo resto do mundo.

A Islândia, para quem desconhece, era até há pouco o primeiro país classificado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelas Nações Unidas, posto ocupado nos últimos seis anos pela Noruega. A média de suas performances que lhe conferia o invejável título: terceiro maior índice de esperança de vida (81,5 anos), menor taxa de mortalidade infantil (1,3 mortes para cada mil nascimentos), investimento de 8,1% do PIB em educação, índice de analfabetismo praticamente zero, gasto público de 8,3% do PIB em saúde, índice de desemprego de 2,9%, quinto maior PIB por habitante do mundo (U$ 36.510) e apenas um assassinato registrado no ano passado (nenhum ainda em 2008).

No entanto, as recentes turbulências no mundo financeiro abalaram os pilares da privilegiada sociedade insular e "crise" se tornou uma das palavras mais ouvidas na fria e úmida capital Reykjavik (temperatura média anual de 5°C). A euforia do acentuado crescimento econômico provocado pela série de reformas liberalizantes e privatizações deflagradas na década de 1990 alcançou um limite e também foi atingida pela atual crise financeira internacional. O país que possui um número de matrículas de carros superior ao de carteiras de habilitação (662,2 veículos por 1 mil habitantes em 2007) foi à bancarrota.

Acomodada no sofá de sua iluminada casa, situada ao lado da universidade, Vigdís Finnbogadóttir, primeira mulher eleita presidente em uma democracia moderna (cargo que ocupou na Islândia entre 1980-1996), critica o boom islandês e a "fome insaciável" pela riqueza pessoal: "Ganhamos muito dinheiro muito rápido e hoje sofremos as conseqüências do endividamento. Aceleramos demais. As pessoas passaram a viver do luxo e caíram na superficialidade. Agora é preciso enfrentar isso".

Enquanto a maioria dos islandeses se preocupa com o futuro, Oddur Helgason, 67 anos, mergulha diariamente no passado. No escritório de seu instituto ORG, de pesquisas genealógicas, se empenha com entusiasmo na recuperação dos dados ancestrais dos islandeses. O organismo possui hoje um dos maiores acervos de informações genealógicas e históricas da Islândia, com 680 mil nomes já catalogados.

Durante 30 anos, Oddur trabalhou como marinheiro em barcos de pesca islandeses. "Fui cozinheiro, manejava o leme, limpava o convés", conta, entre uma e outra aspirada na sua caixinha de rapé, um hábito que mantém desde os tempos em que navegava no mar. Sua camisa, sua escrivaninha e o teclado de seu computador estão constantemente cobertos pelo oloroso pó, restos que ele cuidadosamente recolhe novamente para dentro do recipiente com a ajuda de uma minivassourinha.

Sua incansável busca inclui os islandeses que migraram para outras terras, entre elas o Brasil. O maior fluxo de migração islandês se deu entre as décadas de 1870 e 1930, período em que cerca de 30 mil pessoas deixaram o país. Em meados do século 19, a economia local era sustentada na pecuária. Dois fatores relacionados influenciaram na imigração: o esgotamento de terras disponíveis para a criação de ovelhas (principal criação na época); os rigorosos invernos do período entre 1850-1865, que escassearam as forragens e provocaram fome e mortandade no país.

A maior parte dos imigrantes escolheu o Canadá e os EUA como destino, mas a primeira leva, mesmo que modesta, se aventurou no Brasil. Nesse capítulo, Oddur conta em suas pesquisas com a colaboração do gaúcho Luciano Dutra, 34, radicado na Islândia desde 2002. "Apesar de ser um pequeno grupo, foi o primeiro a imigrar para o continente americano, e o posterior interesse dos demais pode ser atribuído a essa pioneira iniciativa de imigração organizada", diz Luciano.

Cerca de 5 mil pessoas se inscreveram como candidatas a rumar para o Brasil, em busca de calor e prosperidade ao sul do Equador. Mas o navio que deveria levá-las à terra prometida nunca apareceu. No início dos anos 1860, 39 islandeses conseguiram finalmente embarcar, alguns faleceram no trajeto e 34 acabaram desembarcando em Dona Francisca (mais tarde Joinville). A parada final seria a colônia alemã de São Lourenço, no Rio Grande do Sul, mas, aconselhados pelos escandinavos residentes em Dona Francisca, os islandeses seguiram para Curitiba, município que despontava e onde acabaram trabalhando na área de carpintaria e construção.

Luciano conheceu a última descendente da geração de islandeses que nasceu no Brasil, Nanna Söndahl. "Ela está em Curitiba, tem 93 anos, o pai dela imigrou para o Brasil aos sete ou oito anos de idade. Ela é a memória viva da imigração islandesa no Brasil", conta. Com o apoio do fundo de cinema da Islândia e de uma tevê estatal islandesa e financiamento privado ele pretende juntar recursos para fazer um documentário sobre o personagem. Oddur estima em até 4 mil o número de descendentes de islandeses no Brasil. Hoje, tem registrado no seu instituto o nome de 1 mil.

O genealogista foi criado por seus avós. Sei pai morreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o navio em que estava colidiu com uma mina. O interesse pela genealogia começou cedo, de forma inconsciente. "Sempre que alguém chegava na casa dos meus avós, me perguntava: 'De que gente tu és?'", conta. A curiosidade se tornou científica há 13 anos, por meio da leitura de um livro de genealogia.

Os islandeses são bastante ligados às suas raízes. Um dos primeiros parlamentos de que tem notícia na história foi constituído na Islândia, no século 10. É do país também um dos primeiros exemplos de organização de solidariedade social. "As leis da época determinavam que devia-se conhecer todas as relações de parentesco até o quinto grau. Se alguém enfrentasse algum problema, os parentes eram obrigados a garantir a sua sobrevivência", diz Oddur. Ele próprio foi mais longe e descobriu um rei turco como ancestral, no ano 20 D.C.

Luciano Dutra fez o caminho inverso dos islandeses do final do século 19. Do Rio Grande do Sul se mudou para Florianópolis, onde trabalhava em publicidade e propaganda. Depois de três anos em Santa Catarina, começou a procurar uma formação no exterior. Na mesma época, descobriu a literatura medieval islandesa, por meio das traduções do escritor argentino Jorge Luis Borges. "Me despertou um interesse específico o livro Edda, de Snorri Sturluson, de mitologia nórdica, germânica, e comecei traduzi-lo sozinho", conta. Ao mesmo tempo, se inscreveu no bacharelado de islandês da Universidade da Islândia, em Reykjavik, e foi aceito.

Hoje, já diplomado, prepara o primeiro dicionário islandês-português e sonha em traduzir na integralidade as famosas sagas islandesas. "É a mais original contribuição dos islandeses para a cultura ocidental, e já reconhecida por traduções em inglês, alemão, espanhol, francês, italianos e nos países escandinavos. Infelizmente nós, que falamos o português, até agora, em 2008, nos temos dado o luxo de prescindir de uma literatura desse gabarito. É uma lacuna que me deixa constrangido e espero fazer o que estiver ao meu alcance para corrigir isso", diz.

Oddur e Luciano continuarão nas suas pesquisas de descendentes de islandeses mundo afora. Mas no seus arquivos, certamente, não figurarão as duas velhinhas que se recusaram a transpor o rio Fnjóskár para chegar até a costa brasileira.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

 

Exibir mapa ampliado

Tags

O que Fernando Eichenberg vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela