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Terça, 2 de dezembro de 2008, 07h46 Atualizada às 21h51

Fernando Rego: pensador profundo, humano incomum

Potira de Nola Barbosa/Reprodução
Seria possível dizer que Fernando Rego viveu quase tudo por amor ao saber e à vida
Seria possível dizer que Fernando Rego viveu quase tudo por amor ao saber e à vida

Bob Fernandes

A partir desta terça-feira, 2 de dezembro, Terra Magazine passa a reproduzir, in memoriam, ensaios do filósofo e professor Fernando Rego publicados no livro História Noturna da Filosofia (Editora Quarteto). São textos que criam um universo profundo, denso em humanismo e iluminadora percepção da vida.

Fernando Rego nasceu em Salvador, a 19 de dezembro de 1943.

Foi professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, por mais de duas décadas, onde lecionou Lógica, Estética e História da Filosofia. Durante anos, após as aulas e a pé, a bordo de suas sandálias franciscanas e camisas coloridas, Fernando percorria o mesmo trajeto, ponte fundamental para entendê-lo e à sua obra.

A largada, com quem fosse escalado ou se dispusesse a encarar 8 km, se dava no campus de Ciências Humanas, em São Lázaro, vizinho à igreja de mesma denominação. São Lázaro, Omolú no candomblé e/ou vice-versa. No caminho, parada técnica no Colón, um bar-balcão para profissionais.

Na seqüência, no caminhar pela Piedade, Avenida Sete, Praça Castro Alves, Praça da Sé e Pelourinho, os encontros com os humanos que não vivem em shoppings. Humanos de todas as cores, de todos os tipos. Dos loucos aos que se supõem destinados à sanidade.

Autor de ensaios que se expandem para a literatura, o filósofo Fernando Rego foi colaborador do Caderno Literário do jornal A Tarde e da revista Carta Capital.

Dono de personalidade marcante, ainda que um tímido, Fernando possuía o raro dom de entender-se da mesma maneira com crianças, idosos, jovens, de todos os credos e classes, desde que despidos de suas carapuças. Quanto mais simples, melhor, mais fácil. Quanto mais empoados e pedantes, maior o perigo de o tímido Fernando libertar a ironia, o sarcasmo embalado em uma inteligência poderosa.

Por vezes, um aparente paradoxo. Quando eram rasos o discurso ou modos do ou da oponente, a resposta se dava no mesmo nível, quiçá ainda mais abaixo.

Inesquecível a noitada na casa de Dona Ivone, onde o "líder estudantil", um qualquer, despejava uma tonelada de baboseiras, em uma daquelas revoluções orais movidas a cerveja. Nesta tertúlia o líder sugeria ter como alvo a ditadura embora, por demais evidente, a oratória mirasse a mais bela da noite.

Pelo despudor da carapuça, pela incomensurável burrice na argumentação, pelo amontoado de platitudes, em meio a toda aquela dialética Fernando optou por chamar carinhosamente o dálmata de Dona Ivone, trazê-lo para os braços.

Não houve tempo sequer para o "não faça isso" por parte de quem conhecia o professor. Mesa tombada, garrafas e copos a voar, gritos e gritinhos, a bela a gargalhar e a recomendação ao líder que recebia o dálmata no peito:

-... Continue a conversa com ele, se ele aceitar...

O dálmata saltou para o jardim. A noitada se encerrou com a filosófica observação:

-... Pois é, também o dálmata de d. Ivone não agüentou essa presepada!

O mesmo interesse que levou Fernando Rego a ler livros de maneira concomitante (tão díspares quanto um clássico de filosofia, um ensaio científico e um romance policial) aproximava-o das pessoas. Com exceções.

O gosto pelas coisas simples da vida, o exercício filosófico no cotidiano, afastava-o das convenções e manifestações de vaidade. Seus mais de vinte e cinco anos na universidade foram marcados por uma atividade intelectual complexa, admirável e admirada. Não por todos, bom que se diga. Jamais pelos prisioneiros da medianidade. Estes, a ele dedicavam todo o poder das sombras, dos escaninhos, dos truquezinhos burocráticos. Recebiam em troco doses arrasadoras, muitas vezes públicas, de humor e sarcasmo.

Em suas aulas e debates, um passeio articulado pelos grandes mestres da Filosofia - os gregos, a princípio, Spinoza, Montaigne, Kierkegaard, Heidegger, Wittgenstein, entre tantos -, todos abordados em análises movidas pela necessidade constante da aplicação e interlocução do aprendizado. Enquanto correntes mais à esquerda detinham-se quase que exclusivamente nas teorias marxistas, Fernando, sem abandoná-las como objeto de estudo e prospecção, fazia questão de ensinar Freud, recomendar a leitura de Borges, a poética de Baudelaire, de pensadores que expressavam a complexidade de seu olhar.

Pensador de formação literária sólida e abrangente, pontuava suas aulas com a visão de clássicos que leu a vida toda. E leu muito. Leu de tudo, movido apenas pelo amor ao saber, não por modismo chinfrim, pela busca de verniz de ocasião, aquele que ora eleva o livro ou o cinema, ora troca o azeite pelo vinho, a Daslu pela filosofia.

Seria possível dizer que Fernando viveu quase tudo por amor ao saber e à vida, um dionisíaco o professor Fernando Rego; ainda que sempre atento às artimanhas de Thánatos, objeto sincero do seu estudo.

De seus saberes e inteligência já disse o ex-aluno, professor de Filosofia e colunista de Terra Magazine, João Carlos Salles (leia aqui):

- Encontramos em seu livro pequenas leituras de grandes textos, iluminados então de um ângulo que os procura tornar mais inteiros. Uma leitura das luzes, portanto.

Em Arembepe, ao norte de Salvador, onde passou incontáveis verões, os grandes amigos sempre foram os pescadores e suas famílias: Cabeça, Jigunço, Egídio, Casquete, dentre tantos outros, pessoas, muitas delas, que não tinham chegado aos bancos escolares e faziam parte da vida de Fernando Rego tanto quanto ele participava de suas vidas. Foi padrinho de filhos de pescadores, como o foi de filhos de vaqueiros nas fazendas - da família da sua mulher, Magda, em Vitória da Conquista, outro roteiro inescapável.

Criado nas ruas de Salvador, conhecia os bares, restaurantes, os meios artísticos e boêmios, os arruaceiros... A pé ou de ônibus, desde sempre avesso à idéia de dirigir, zanzava pela cidade da Bahia. Podia passar horas a conversar em uma mesa de bar, fosse em Salvador, Conquista, Arembepe... Cardápio variadíssimo que sugeria desde intrincadas teorias filosóficas ao rumo das marés, das vacinas no gado à política, do "verde Henrique na campina" ao futebol.

Torcedor do Vitória, na mesma poltrona em que lia, acompanhava no rádio as partidas de seu time. Com os amigos, de idades diversas, freqüentava as arquibancadas do Barradão. (Esse amor ao rubro-negro, uma prova de que ninguém é perfeito.)

Na universidade, o professor criou laços que iam além do campus. Quando percebia em um aluno o interesse honesto pelo saber e pela vida, de pronto se estabelecia o caminho para uma amizade, em geral profunda e duradoura. A visão humanística e o modo particular de se expressar nas aulas foram responsáveis pela formação de uma escola de seguidores, ainda que tal expressão, se vivo estivesse, certamente seria por ele demolida a golpes de sarcasmo. Escola esta que não se restringia apenas a filósofos... Publicitários, jornalistas, escritores, professores, percebiam-no como uma personalidade inovadora, luminosa e iluminadora. Um ser humano atípico, visceral e verdadeiramente avesso a disputas, rivalidades, egotrips e preconceitos pedestres.

Um ateu, Fernando Rego não deixou de mencionar Deus em muitos de seus escritos. Um cético, inclusive em relação a ditames convencionais, não abria mão do que lhe dava prazer. Passava noites em claro, na sua poltrona. Lia, conversava, fumava, bebia, comia o que queria, sem jamais abdicar do seu permanente culto à simplicidade.

Morou longe de Salvador por duas vezes. A primeira, ainda menino, no interior da Bahia, em Irará (terra de Tom Zé), acompanhando o pai que era médico. A segunda vez foi em São Paulo, nos anos de 1969 e 1970.

Então, Fernando Rego mudou-se com sua mulher, Magda, em busca do mestrado na Universidade de São Paulo. Ele, que nunca militou formalmente em partido algum, nem por isso escondia, desde aqueles tempos, o seu espaço na dicotomia geopolítica, tantas vezes enterrada e ressuscitada: à esquerda.

Depois de temporadas no interior paulista, para escapar do olho do furacão pós AI-5 quando amigos e conhecidos da USP tiveram que deixar o país, o casal voltou a Salvador, antes mesmo da conclusão do mestrado. Fernando Rego reingressou na UFBa, onde passaria a ser uma referência. Ainda se estuda filosofia com retornos aos caminhos palmilhados pelo professor.

Sua história não está impregnada somente nas salas de aula, entre os amigos e família. Pelas ruas da cidade da Bahia, registros e sinais de toda uma vida. Assim é que ex-alunos, a baiana do acarajé, o encanador, o porteiro, garçons... todos têm histórias do "professor" para contar.

Sua despedida da vida não poderia ser, e não foi, diferente do que pregou e viveu.

O acesso de tosse, o edema pulmonar, o desfalecimento e a ambulância, a caminho do hospital Santa Isabel ao lado do cunhado médico, Mozart, e de uma enfermeira. Ao recobrar os sentidos, por instantes, o susto na enfermeira.

Ela o imaginava ainda desfalecido, sobressaltou-se ao ter o braço tocado. Susto ainda maior, o da enfermeira, ao ouvir Fernando serenamente despedir-se da vida:

- Ô minha filha, sabe do que eu estou precisando? De um caixão...

Fernando morreu em 16 de julho de 2005, aos 61 anos de idade. Seus ensaios contam a história de um pensador brilhante. De um humano incomum.

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