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Quarta, 3 de dezembro de 2008, 15h05 Atualizada às 16h29

Na crise, mercado de luxo dá sinais contraditórios

Diego Salmen/Terra Magazine
A crise ainda não afetou o MG Hair Design, um dos mais sofisticados salões de beleza da capital paulista. Acho que as pessoas estão até se arrumando ...
A crise ainda não afetou o MG Hair Design, um dos mais sofisticados salões de beleza da capital paulista. "Acho que as pessoas estão até se arrumando mais", conta Marco Antonio de Biaggi

Diego Salmen

De meados de setembro pra cá, uma turbulência corriqueira transmutou-se em crise de proporções ainda incalculáveis para a economia mundial. Mercados globo afora desabaram e donos do dinheiro viram seus papéis evaporarem do dia para a noite.

Por aqui, no começo da crise, aparente otimismo com aquela "marolinha".

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Muito se falou - e se fala - sobre os efeitos da crise no Brasil. Percebida a derrocada, sucedem-se conjecturas para explicar a mais recente hipertrofia do sistema capitalista e seus efeitos na Terra de Santa Cruz. Em tempos de Bolsa Família e crédito abundante para a classe trabalhadora, não se estranha que o consumo popular, do povão, tenha sido - e seja - o alvo preferencial das análises e preocupações.

Mas e as dispensas e prateleiras daqueles que um dia se cansaram, os que integram a já célebre "elite", como ficam nessa história?

Apesar de ser um país "em desenvolvimento", o Brasil tem, há muito, um reconhecido mercado de produtos e serviços de luxo - concentrado basicamente nas capitais do sudeste e nichos ainda mais reduzidos país afora. Para saber como andam as compras da high society, Terra Magazine foi à luta.

Com muita pompa, glamour e circunstância. Como exige o target.

Um país de todos

Marco Antonio De Biaggi é dono de um dos mais, senão o mais sofisticado salão de beleza da capital paulista. Situado à Rua Estados Unidos, quase esquina com a Bela Cintra.

Ao circular por entre as disputadas poltronas e cadeiras do local, a expressão crise parece perder o sentido. Nos últimos dois meses, o faturamento do MG Hair Design cresceu 10% em relação aos meses anteriores.

Numa aterrissagem básica nesse templo do embelezamento, torra-se cerca de R$ 1.000,00. Isso se o pacote incluir, além do corte, reflexo, escova e hidratação. (Em tempo: o Lelo, o Fernandes, os mineirinhos do Light Look, na também endinheirada Praça Vilaboim, cobram quarentinha por cabeça).

Já no MG Hair, detona-se milão para ser "uma loira de Marco Antonio", definição do próprio.

A lista de clientes é vasta. Desde a biliardária Shella Safra até as celebridades de mais ou menos ocasião: Ivete Sangalo, Luana Piovani, Adriane Galisteu, Gisele Itié, Isabeli Fontana e Naomi Campbell, entre tantas outras.

Para explicar sua bolha anticrise, de Biaggi recorre à sociologia:

- Eu acho que as pessoas querem até se arrumar mais com essa crise. Hoje em dia o visual é tudo.

Ele, no entanto, sabe da gravidade da situação para além das tesouras. Suas clientes, temerosas, contam que não vão "mais passar a temporada na Europa". Agora, culpa da crise!, restringirão as férias ao "turismo dentro do Brasil". Se verdadeiro, não deixa de ser um evidente sinal da extensão da tormenta mundial. O próprio hair stylist pondera:

- Eu não sou louco de trocar de carro nesse fim de ano.

A depender do automóvel, existem mais loucos do que o cabeleireiro supõe. Mesmo com o estouro da crise, a Ferrari no Brasil não registrou queda em suas tratativas comerciais. Até porque não há como haver queda na média de dois ou três veículos encomendados a cada mês.

Uma Ferrari 612 Scaglietti One-to-one, o modelo mais caro da grife, sai por cerca de R$ 2 milhões. De janeiro a outubro deste ano, uma unidade comercializada. Um pouco mais em conta, a Ferrari F430 - a mais barata - custa aproximados R$ 1,4 milhão. No mesmo período, 25 dessas foram vendidas, segundo a Via Europa, importadora oficial da marca no país.

A saber: os valores, de acordo com a própria empresa, devem subir devido à alta do dólar.

Economia blindada

Infelizmente, nem tudo são flores quando o assunto é o mercado de primeira classe.

Uma amostra bastante representativa desse segmento é o setor de blindagem. A Armor, uma das maiores companhias do ramo, registrou uma desaceleração de 20% em seus negócios a partir da segunda quinzena de setembro.

O interessado em contratar os serviços da empresa desembolsa cerca de R$ 45.000,00 - o equivalente a 108 salários mínimos - para blindar um sedan médio.

Mais otimista, a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin) manteve a projeção de crescimento de 13,6% para 2008, na comparação com o ano passado. A entidade salienta, porém, que "historicamente o número de blindagens acompanha o desempenho do mercado de automóveis". A conferir.

Nos céus, a situação é semelhante. O mercado de helicópteros executivos deu uma "brecada geral", na avaliação de Kleber Mansur, presidente da Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero. "O boom já acabou", diz o especialista. "Está sobrando helicóptero usado, coisa que não havia".

Atualmente, a cidade de São Paulo possui a maior frota do mundo: são 420 aeronaves. A região da Grande São Paulo conta ainda com 260 helipontos, dos quais 210 instalados em cima de prédios. "Muitos proprietários contavam com linhas de crédito lá fora para quitar os helicópteros na hora da entrega, e com a crise esse financiamento acabou", explica Mansur.

"Do jeito que ia vindo, poderíamos chegar a 800 helicópteros em três anos aí a coisa ficaria complicada", afirma o piloto, que vê a diminuição do comércio de aeronaves como benéfica para o trânsito aéreo. O fato é verdade indesmentível, mas a tese mostra que a crise também pode ser vista de um viés poliana.

Oficialmente, a Helibras, maior fabricante brasileira de helicópteros, não compartilha da análise. Segundo a companhia, "o resultado do mercado executivo está dentro das expectativas para 2008". A empresa possui, hoje, aproximadamente 140 aeronaves em operação - cerca de 45% do mercado executivo. E espera manter o bom desempenho em 2009.

Os impactos da crise no mercado de luxo continuarão a ser esmiuçados por Terra Magazine nesta semana. Na próxima reportagem, o leitor poderá conferir o desempenho de nichos nobres da alta sociedade - de restaurantes a joalherias, passando pelo mercado de artes e imóveis de alto padrão.

Em se tratando da elite brasileira, há um mundo a ser descoberto. Afinal, como diz o cabeleireiro Marco Antonio...

- Quem é loira não vai deixar de pintar o cabelo para comprar uma bolsa Channel.

 

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