
Claudio Martini
De Campinas (SP)
Hergé estabeleceu as fronteiras do estilo Linha Clara com as Aventuras de Tintim, e seus passos foram seguidos com muito talento por seus antigos colaboradores E. P. Jacobs (Blake e Mortimer), Jacques Martin (Alix, Lefranc) e outros. Essa maneira de desenhar, linhas espessas de contorno onde não há diferenciação entre objetos em primeiro plano ou a paisagem de fundo junto com o uso de cores chapadas e sem sombras, trazia consigo o carimbo de um estilo antiquado de quadrinhos e datava suas obras como sendo dos anos 1940 a 1960, no máximo.
Mas quando parecia que estaria fadada ao desaparecimento, uma nova geração de desenhistas, principalmente europeus, a partir dos anos 1970 deram nova vida à Linha Clara e a utilizaram como mais um recurso gráfico, um elemento criativo, moldando o clima e a ambientação de suas HQs.
Um dos mais talentosos é o francês Floc'h, que tem uma obra excelente mas pouco conhecida em nosso país. Sua primeira história em quadrinhos, junto com o roteirista François Rivière, foi O Encontro em Sevenoaks (Le Rendez-Vous de Sevenoaks), que causou um forte impacto quando de sua publicação em capítulos pela revista francesa Pilote, em 1977. A história, que se passa na Londres de 1949, esconde atrás de seu visual clássico e comportado um conto fantástico de terror com uma trama de suspense e cenas sangrentas raramente vistas até então nas HQs.
A obra também apresentou ao leitor a dupla de personagens recorrentes em várias HQs de Floc'h: a escritora inglesa de livros de suspense Olivia Sturgess e o crítico literário Francis Albany. A novidade é que eles não são os atores principais da trama, estão ali mais como observadores ou espectadores da história. Histórias que vão lançando pistas inconclusivas, perguntas não respondidas e explicações truncadas ao longo das páginas.
A seguir veio O Dossiê Harding (Le Dossier Harding), uma história amorosa com assassinatos e bastante suspense, e À Procura de Sir Malcolm (À La Recherche de Sir Malcolm), uma incursão pela memória de Francis Albany à trágica viagem do Titanic, com uma trama de espionagem pré-guerra. Aqui, Floc'h vai deixando de lado a violência explícita e tornando seu trabalho mais sutil.
Uma curiosidade nessas primeiras obras é a homenagem prestada pelos autores a Alfred Hitchcock, que faz pequenas aparições nas HQs, como fazia em seus filmes.
Pouco antes de ...Sir Malcolm, a dupla Rivière/Floc'h lança Blitz. Com um estilo de desenho mais apurado e um formato narrativo diferente, a história é um folhetim em capítulos com espionagem, crimes, romances, e toda ela se passa na sala de estar da casa de um oficial britânico reformado, enquanto Londres está sendo bombardeada todas as noites por aviões nazistas.
Seguindo esta idéia criaram também Underground, ambientada em duas estações de metrô londrinas, uma em um bairro pobre e outra em um bairro de classe alta, durante um bombardeio alemão, e preparam para 2009 a seqüência da série com Black Out.
Com roteiro de Fromental, Floc'h cria Jamais Deux Sans Trois (Nunca Dois Sem Três) uma HQ sobre um triângulo amoroso no jet set, com desenhos magníficos.
Seu trabalho mais recente com Rivière é Olivia Sturgess 1914-2004 que, com o formato de documentário, retraça a vida da escritora de romances de suspense, com depoimentos de amigos, fotos, documentos. Aqui a vida fictícia de Olivia se mescla às obras de Floc'h/Rivière, como se na verdade a autora dos livros que inspiraram os quadrinhos fosse a romancista.
Além das HQs, Floc'h realizou uma série de obras conceituais:
Ma Vie (Minha Vida) - uma história que se desenvolve através de uma série de cartões postais.
Meurtre en Miniature (Assassinato em Miniatura) - que tem como personagem principal a casa de bonecas da Rainha Mary da Inglaterra, no formato de um livro infantil.
Journal d'un New-Yorkais (Diário de um Nova-iorquino) - livro em forma de diário com belíssimas ilustrações.
Life - pequeno livro que recria capas da revista Life.
Fez também muitas ilustrações para propaganda, cartazes de filmes (Woody Allen e Alain Resnais) e capas de CDs, reunidas nos livros Un Homme Dans la Foule (Um Homem na Multidão), Floc'h Illustrateur (Floc'h Ilustrador) - Volumes 1 e 2.
Com exceção dos primeiros livros, que foram publicados há muitos anos em Portugal, o leitor brasileiro só pode ter acesso às edições originais francesas desse excelente autor de quadrinhos, que revive o estilo Linha Clara com muito talento e criatividade em histórias apaixonantes.
Blog que acompanha o trabalho de Floc'h: lhommedanslafoule.blogspot.com.
Terra Magazine
|
Reprodução
Detalhe da HQ Blitz, da dupla Rivière e Floc'h
|