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Sexta, 5 de dezembro de 2008, 13h55 Atualizada às 14h33

Crise faz movimento no Fasano cair até 10%

Diego Salmen/Terra Magazine
Culpa da crise.  A rede de joalherias H. Stern registrou leve queda de 10% no último mês, segundo o embaixador da marca, Christian Hallot.
Culpa da crise. A rede de joalherias H. Stern registrou "leve" queda de 10% no último mês, segundo o embaixador da marca, Christian Hallot.

Diego Salmen

Apesar de restrito a um segmento social mais imune, em tese, às oscilações vividas no mundo do batente, o mercado de luxo no país já sente os efeitos da crise financeira. Em maior ou menor grau.

Na quarta-feira, 3, Terra Magazine publicou a primeira parte da reportagem sobre os rescaldos da baixa na maré da alta sociedade verde e amarela (veja aqui).

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Em 2007, quando não havia crise, mais de 14 milhões de famílias brasileiras viviam com renda mensal per capita de até R$ 190,00. Abaixo da linha da pobreza, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Com este valor, é possível comprar um gole muitíssimo moderado do champagne Krug Clos du Mesnil 1995 da Chandon, tradicional marca francesa de espumantes. Nos trópicos, a especiaria não sai por menos de R$ 3.500,00.

Mesmo comercializando produtos cujos preços são inversamente proporcionais a sua facilidade de aquisição, a companhia garante que a crise não afetou seus negócios. Pelo contrário: neste ano, a produção de espumantes cresceu 11% em relação a 2007. A projeção não deixa claro, contudo, se o resultado leva em conta o período pós-crise.

Ainda assim, a empresa espera fechar 2008 com dois milhões de garrafas vendidas. Das quais, evidentemente, o módico Krug compõe ínfima parte.

Fasano

Reconhecido como restaurante dos mais sofisticados da cidade de São Paulo, ou ao menos o mais caro, o Fasano é parada obrigatória para os apreciadores da boa culinária e daqueles que gostam de parecê-lo. Uma refeição simples - se é que pode assim ser chamada - não sai por menos de R$ 100,00.

A crise, no entanto, parece ter embrulhado estômagos. Resultado: diminuição de 5% a 10% no movimento. Palavras de Manoel Beato, anfitrião da casa. "Foi uma queda relativamente pequena", pondera o sommelier que, ainda assim, considera a retração "preocupante", bem como as perspectivas para o próximo ano.

- A gente fica ressabiado.

Ele mostra certo espanto com o comportamento da freguesia cativa ("As pessoas que vêm consomem normalmente. Isso que é curioso") e disserta sobre as expectativas da clientela abastada diante do maremoto econômico:

- Algumas pessoas são menos cautelosas e levam a vida, outras são mais cautelosas. Tem muita gente tranqüila. É lógico que ninguém é ingênuo, mas a maior parte das pessoas é otimista.

O baque foi ainda mais forte na Lopes, imobiliária especializada na venda de apartamentos de alto padrão. Com o despertar da crise, a empresa foi obrigada a rever seus planos para o próximo ano. Reduziu custos num total de R$ 41 milhões - incluindo demissões e suspensão de projetos.

A foice decepou cerca de 30% do quadro de funcionários - aproximadamente 150 empregados. Antes da crise a Lopes vendia até 20 apartamentos por dia. Na semana em que a bomba explodiu, no meio de setembro, apenas uma unidade foi comercializada a cada dia da semana. Palavra de um funcionário da companhia, que conclui:

- A empresa projeta não crescer nada ano que vem, apenas manter o que já tem hoje.

Joalheria

A compra de jóias é um daqueles atos de compra motivados preponderantemente pela emoção, mesmo entre a nata das castas superiores. Dito isto, não é de se espantar que alguém queime até R$ 3 milhões por um pendente dourado.

O item pode ser encontrado nas lojas da H.Stern que, a despeito do alto valor de suas peças, viu suas vendas diminuírem 10% no último mês. É o que diz Christian Hallot, embaixador da joalheria no Brasil. Diplomático, minimiza o impacto da queda:

- Como estávamos com nossa capacidade produtiva saturada, esta leve queda ajustou os nossos estoques à demanda.

Para debelar os efeitos do vendaval econômico, a H. Stern recorreu ao comunismo. Não sob a forma de estatizações de bancos ou expropriações financeiras, recursos cada vez mais corriqueiros no combate à crise.

Apelou-se, desta vez, à contratação do arquiteto Oscar Niemeyer, responsável pela assinatura de uma nova coleção de 35 jóias para a rede. Os preços variam de R$ 1.860,00, pagos por anéis de ouro amarelo, a R$ 70.000,00, gastos com uma pulseira de ouro branco cravejada de diamantes. A ser lançada em 15 de dezembro.

Peças mais acessíveis também podem ser encontradas na joalheria. A mais barata - um berloque de ouro 18 quilates - pode ser obtida por cerca de R$ 500. Vale lembrar, o salário mínimo no Brasil é de R$ 415,00.

A crise se faz sentir, da ourivesaria às artes plásticas.

No mercado há mais de 30 anos, o marchand carioca Maurício Pontual é profundo conhecedor dos meandros dos negócios de arte. Dá um panorama sobre a movimentação no setor após o setembro negro. "Em algumas grandes casas leiloeiras, que costumavam ter de 70% a 80% em volume de negócios, esse montante caiu para 50%", diz.

- As galerias estão em compasso de espera.

"Desde que o Real se fortaleceu, há três anos, ninguém falava em dólar. Agora voltou a se falar", observa. De dois meses para cá, as obras de arte tiveram redução média de 20% a 25%.

Além disso, um fenômeno até há pouco inexistente passou a ocorrer com o início da crise, aponta o especialista. Agora, antes de alguns leilões, pede-se permissão para vender obras a preços inferiores ao mínimo estipulado. Exemplifica:

- Aquela obra de R$ 150 mil, com piso de R$ 100 mil, agora é vendida por R$ 75 mil.

Como contraponto, Pontual cita o leilão do espólio do escritor Jorge Amado, realizado em novembro. A iniciativa, segundo o marchand, teve resultado melhor do que o esperado. Na primeira sessão, foram vendidas 134 peças do acervo. "Ele (o comprador) aproveita (a crise) para fazer aquisições de conveniência", raciocina.

- O comprador de arte é uma pessoa endinheirada, e sabe que a crise atinge todo mundo.

 

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