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Reprodução
Mona Lisa Overdrive é uma "narrativa entrançada", composta de várias linhas narrativas caminhando de maneira relativamente autônoma
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Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Mona Lisa Overdrive, William Gibson. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 315 páginas. Tradução de Carlos Irineu & Candice Soldatelli. Capa de Thiago Ventura & Luisa Franco.
Este é o livro-fecho da Trilogia do Sprawl, iniciada com Neuromancer (1984). Poderia se chamar, ao invés de Mona Lisa Overdrive, de "Girls on the Run", já que se concentra em personagens femininas deslocadas dos seus contextos e ameaçadas por inimigos invisíveis.
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São elas Angie Mitchell, que conhecemos no livro anterior, Count Zero (1986), e que agora é a maior celebridade do mundo futuro criado por Gibson; Mona, uma jovem prostituta que faz parte de uma tramóia para seqüestrar Angie; Kumiko, a filha adolescente de um chefão da Yakuza, a máfia japonesa, enviada a Londres para sair da linha de frente de uma guerra de gangues; e enfim, "Sally Shears", que é a mesma Molly Millions de Neuromancer, uma de suas personagens principais.
Assim como Count Zero, Mona Lisa Overdrive é uma "narrativa entrançada", composta de várias linhas narrativas caminhando de maneira relativamente autônoma, que acompanham o ponto de vista destes e de outros personagens, e que vão se unir mais adiante.
O que Gibson fez com a Trilogia do Sprawl é semelhante ao que Cormac McCarthy faria na Trilogia Fronteiras - não há conexão direta entre o primeiro e o segundo volumes, mas o terceiro recupera parte do elenco de personagens dos dois anteriores, e algumas das suas situações.
Gibson não sentiu necessidade de caracterizar detalhadamente o seu mundo futuro em Mona Lisa Overdrive, em contraste com Neuromancer, e a maior parte da ação de ciberespaço (o seu mundo de virtualidade eletrônica) se concentra nos segmentos finais. O que parece ter ocupado mais os seus esforços é a caracterização das personagens principais, cuja subjetividade colore cenas e situações, e cujas histórias pessoais alargam o alcance do livro.
Nesse sentido, Mona Lisa Overdrive já é ponto de transição para a segunda trilogia de Gibson - a Bridge Trilogy, iniciada em 1993 com Virtual Light e completada com Idoru (1996; publicado no Brasil pela Conrad) e All Tomorrow's Parties (1999) -, em que os aspectos literários de estilo e caracterização se mostram mais sofisticados.
O livro é dedicado a Fran Gibson, irmã do autor, que claramente desejou valorizar a sua investigação do feminino. Bobby Newmark, o "Count Zero" do romance anterior, também aparece, mas de maneira bastante passiva, já que se encontra numa espécie de coma induzido, enquanto explora o ciberespaço através de um superconsole de hacker chamado "Aleph". Seu objetivo é proteger Angie.
Como forças desconhecidas estão em movimento contra Angie (uma das características da trilogia é a compreensão paranóica de que, agora que todos existem como dados no sistema, o "matrix", alguém sempre sabe algo de um outro alguém, e está disposto a usar isso contra ele), Bobby usa seus conhecimentos do submundo para montar uma equipe que protegerá seu corpo, enquanto ele mergulha nessa jornada de exploração. Nessa equipe está mais uma garota, Cherry, que tem formação em enfermagem e que monitora a saúde em desintegração de Bobby.
Ei, o vilão também é fêmea! Dá para dizer apenas que é uma das ultra-aristocratas do futuro de Gibson, em que megacorporações internacionais e organizações tentaculares globais possuem relacionamentos íntimos e incestuosos. Ela já havia aparecido em Neuromancer.
O terceiro livro apresenta novas formas de virtualidade, entre elas um chip implantado no cérebro de Kumiko, que permite a ela dialogar secretamente com uma presença virtual, Colin, que é uma espécie de guia para as ruas de Londres, para onde Kumiko é enviada, mas que também é dispositivo de segurança e um banco de dados super-secreto e valioso. Colin é meio simbólico da posição dos homens no romance, que é a de auxiliares ou complicadores relativamente pálidos (virtuais), em comparação com as garotas. E por que Angie está sendo objeto de um seqüestro? Ela também possui um chip biológico, muito especial, implantado em seu cérebro - e que foi o pivô das situações de Count Zero.
A outra forma de virtualidade é recuperação de uma idéia antiga da ficção científica - a de que a memória, a identidade ou até mesmo a alma da pessoa poderia ser "baixada" pra algum meio eletrônico. A idéia já fora explorada em Neuromancer, mas nisso Mona Lisa Overdrive também dá um novo sentido para a mistura de vodu e virtualidade, vista em Count Zero.
Se há um problema estrutural neste livro, talvez seja a forma como Gibson abre mão de um suspense verdadeiro - o livro engaja o leitor pela caracterização das personagens e pela expectativa que gera em torno de como as diversas situações se relacionam entre si, mas os mistérios são resolvidos menos por esforço dos personagens, do que pelo andamento mecânico do enredo, que nos conduz até o ponto de "entrançamento" das várias linhas narrativas. O passo da narrativa é distinto dos romances anteriores, e há um toque de Alfred Bester na conclusão, em que o ciberespaço - uma espécie de esfera informacional que circunda a civilização humana na Terra e no espaço orbital - se projeta para o espaço exterior.
Em tradução bastante sólida da dupla Irineu & Soldatelli, Mona Lisa Overdrive fecha de modo competente esta trilogia que é um marco da ficção científica. Não consegue trazer de volta o frescor ou a inventividade de Neuromancer, mas não deixa de ser um indicador da maturidade literária que William Gibson vem alcançando desde a publicação do seu primeiro romance.
Terra Magazine
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