
Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Por Braulio Tavares*
Este artigo foi primeiro publicado pelo escritor e editor Braulio Tavares na coluna diária que ele mantém no Jornal da Paraíba desde março de 2003. Apareceu lá em 17 de abril de 2005, e, embora não tenha nenhuma relação direta com a ficção científica ou a fantasia, tem algo a dizer a respeito do atual estado desses gêneros no Brasil. É reproduzido aqui com a autorização do autor, que tem seu blog em http://mundofantasmo.blogspot.com.
Perguntaram a Charles Baudelaire se ele se considerava um poeta de vanguarda e ele respondeu: "Não gosto de metáforas militares".
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Vanguarda é um conceito defeituoso porque nos induz a uma visualização errada da literatura. Vanguarda é aportuguesamento de "avant-garde, "guarda avançada" ou "tropa avançada", aquele pequeno grupo que vai à frente do restante do exército, embrenhando-se no território inimigo, descobrindo caminhos e correndo perigos que os que vêm lá atrás não correm. Ser de vanguarda, portanto, dá a idéia de ser mais audaz e mais corajoso, de não ter medo de correr riscos, e de estar conquistando hoje um território onde indivíduos mais prudentes só terão coragem de pisar muito tempo depois.
Quando se diz: "Fulano é a vanguarda da poesia brasileira de hoje", a gente fica com a impressão de que a poesia brasileira é um grupo de gente indo numa direção, e que Fulano está centenas de metros à frente de todo mundo. Admiramos e invejamos Fulano pelo seu talento e pela sua coragem de partir na frente sozinho, descobrindo tudo por conta própria. E aí nos vem o maior erro de pensar em termos de vanguarda: achamos que o Poeta Vanguardista está mais adiantado do que nós em algum tipo de maratona, e que precisamos ultrapassá-lo. E a única maneira de ultrapassá-lo é fazer, mais ou melhor do que ele, aquilo que ele está fazendo.
Quando a crítica começou a considerar James Joyce a vanguarda do romance ocidental muita gente se sentiu na obrigação de passar à frente dele. E tentou fazer isto escrevendo romances que eram imitações ao-pé-da-letra dos romances de Joyce. Todo país ocidental hoje em dia tem esses romancistas, indivíduos que tentaram ser aquele escritor que, como diria Shakespeare, "out-joyces Joyce" - o cara que supera em joyceanismo o próprio Joyce.
Joyce fez um mergulho fundo na fusão entre voz e escrita, na colagem de diferentes discursos literários dentro de uma mesma obra, no mergulho nos arquétipos culturais de sua Irlanda natal, e assim por diante. Seu trabalho é monumental e impressionante, mas em hipótese alguma significa que a literatura inteira esteja indo neste rumo, com ele à frente. Cada literatura está indo em mil direções diferentes. Todo mundo está escrevendo livros diferentes, e neste sentido cada escritor só é vanguarda de si mesmo, ou talvez de um grupo de textos com os quais ele deliberadamente dialoga - a novela de detetive, a crônica urbana, o romance histórico, o conto psicológico...
Jovens, em geral, acham que precisam ser de vanguarda, porque sentem-se com a compreensível missão de trazer ao mundo o Novo, o Inédito, o Original. Só que a melhor maneira de conseguir isto não é tentando suplantar o que já está sendo feito, e bem, por Fulano ou Sicrano. Vanguarda é toda vez que um indivíduo descobre sua voz pessoal e uma comunidade literária descobre o quanto esta voz lhe fazia falta.
*Braulio Tavares é autor de A Espinha Dorsal da Memória e de A Máquina Voadora
Terra Magazine