|
José Cláudio/Terra Magazine
Bufo Typhonius. Casal no amplexo coletado por Paulo Vanzolini. Guajará, Rio Madeira, 1975 por José Cláudio
|
José Cláudio
De Olinda (PE)
Em Guajará fiz um desenho, enchi uma página de desenhos de um casal de sapos no amplexo. Paulo já tinha desistido de pegar qualquer coisa, na mata ruim, chovendo, aí ele arregaçou as calças e saiu descalço se atolando na lama da beira, frio, noite, carapanã, e eu disse: "Isso daí ta é cheio de espinho e caco de vidro!" Chica e a tripulação toda já tinham empacotado e eu fique deitado com a cabeça na moldura da escotilha fumando. "Zé Cláudio" - ele gritou. "Me dá uns saquinhos de plástico daí de cima da mesa". Pulou do capim para a canoa e enfiou num dos saquinhos o casal de sapos em cópula.Voltou para a beira e eu peguei logo a desenhá-los através do saco transparente. Depois Paulo chegou e disse: "Pode desenhar tranquilamente que não se separem". Mandou tirá-los do saco transparente e botá-los numa bacia. A luz de lampião de gás de bujão é forte na cara da gente mas não alumia bem. Só dava para ver um lado, ofusca, foi um trabalho cansativo porque viravam sempre as costas para a luz e não dava para ver direito posições de mãos e pernas a não ser encostando a cara em cima. E assim fiz, sempre pensando que iam se separar antes de terminar uma pose. "Ta bom" - eu disse. Paulo jogou-os num balde, que estavam querendo pular da bacia, isto é, a fêmea, que era maior, e o macho ia em cima dela, feito um jóquei. De manhã, depois do meu café, vendo por acaso o balde dei uma olhada dentro: continuavam colados do mesmo jeito. Não os vi descolarem, vi-os depois separados no formol com uma etiqueta amarrada na perna.
Leia também:
» Diário de uma viagem ao Amazonas XVIII
"Alonso Santos, navegando no Rio Madeira, a bordo do rebocador Lindolpho Guimarães, sua esposa Maria Santos avisa que recebeu as cartas, que todas estão passando bem, que sua netinha Laura já está andando. Envia abraços". Recado saído ontem na Rádio Difusora. Alonso, eu, João todos ouvimos. Alonso disse: "Vou tomar uma bicuda por causa disso". O locutor dá entonação que torna o recado emocionante.

Desenho de José Cláudio, Guajará (Rio Madeira, 1975)
O barco na hora do almoço encostou e passou para o chicote, porque amarrados, que é como andam o Lindolpho e o Garbe, ao lado um do outro, quando dá o banzeiro, batem que só falta quebrar. Assim o Lindolpho passa para a frente e sai puxando o Garbe. A corda tem de ter oitenta e cinco metros, é ordem da carpintaria, para poderem manobrar. Corda, não, que em navegação não tem corda, só se for a do sino: cabo ou espia. Espia é no Sul, isto é, São Paulo, que eu acho que é a que Paulo se refere quando diz Sul. Depende de onde se esteja, naturalmente. Para o amazonense, o Brasil todo é Sul. Norte, só Roraima. É novidade para um pernambucano ser chamado de sulista. Estava mais acostumado com suleiro, que é como os sertanejos chamam os da Zona da Mata em Pernambuco. Já os matutos, aos sertanejos ou agrestinos que vêm trabalhar no litoral, chamamos de curumbas ou curáus.
Em Borba o telegrafista rolou pela rampa bêbado, levantou-se a custo todo urinado, que ele antes de descer eu o vi urinar escorado no poste, já os meninos mangando, e ele perguntando aos meninos se "aquele motor vai para Manaus", começou, cá embaixo, um discurso contra o Garbe. "Bota a prancha! Bota a prancha que eu quero subir, porra!" Como ninguém botava a prancha, ele disse que ia se queixar ao presidente Geisel amanhã em Brasília. Outras vezes dizia que ia de avião nos esperar em Manicoré. Ora, Manicoré já tinha ficado muito para trás.
Ventrecha, isto é, do ventre, é a parte do pirarucu de que o pessoal mais gosta. O delegado de Borba foi ajudar a escolher na manta para trazer para o barco. "Ventrecha, doutor, ventrecha" - ele dizia. Hoje almoçamos pois carne ventrecha dos pirarucus de Borba. Ótima. Frita, e cozida com jerimum.
Chica tem feito, no pouco tempo que lhe sobra das moscas, desenhos a lápis de cores, a paisagem traduzida em recortes sinuosos apenas diferençados de leve pela cor. "Tarsila amazônica" - eu disse, e jamais pensaria em dar o mistério da mata usando a economia dos meios. Também está fazendo um trabalho que acho lindo mas não me apeteceria nem tentar: umas lâminas que Vanzolini quer documentado os bichos o mais fielmente possível, assinalando com rigor ainda maior o que é importante para a identificação da peça. Deus me livre.
São cinco horas da manhã. Estou na toldado Lindolpho, escrevo com a luz do mastro esperando ao sol nascer na boca de cima do Paraná da Eva de que acabamos de sair. Não quis que acontecesse com o Paraná da Eva o que aconteceu nas duas vezes que passei pelo estreito de Gibraltar, que não vi porque passei dormindo. Entramos ontem de noite, a lua parecia - não é preciso comparar, todo mundo sabe o que é um luão alaranjado subindo pela margem. Inda subi na capota do Garbe e fiz três desenhos aproveitando a luz do motor como agora. Fez uma noite arretada. Lá para as tantas Paulo, que já tinha puxado o primeiro ronco, chegou e disse: "Agora você completou o ciclo da viagem amazônica: viajou de noite".
Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em dezembro de 2007.
» Diário de uma viagem ao Amazonas (XX, final)