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Quarta, 10 de dezembro de 2008, 07h57

Fotografias de viagem (II)*

Amilcar Bettega
De Paris

Durante muito tempo viajei sem máquina fotográfica. Fazia certo charme para justificar este desprezo pelo registro da imagem vista, enfatizando que o importante era vê-la, presenciá-la, ter um contato físico com aquilo que, por uma ou outra razão, motivaria a tomada de uma foto

.

Mas na verdade apenas camuflava a minha incapacidade para fazer fotos que estivessem à altura da imagem vista, ou melhor, que traduzissem minimamente as sensações e sentimentos provocados pela visão de algo (uma paisagem, um rosto, etc.) do qual estive próximo. Incapacidade e conseqüente frustração, claro.

Leia também:
» Fotografias de viagem (I)

De maneira ingênua, achava que se não podia tudo registrar e guardar, melhor então que tudo se perdesse de uma vez após o olhar, que tudo fosse confiado a uma frágil memória visual, ou antes, sensual.

Mas registrar, guardar, e rever - no papel ou em outro suporte qualquer - uma imagem vista in loco não é garantia da reprodução exata da mesma imagem visualizada no passado. Antes disso, é um aditivo à memória - outra vez ela -, que se atiça e reinventa a imagem e suas sensações, criando outra coisa, revelando e ocultando, distorcendo descaradamente, como é, aliás, o seu papel: o passado é uma invenção da memória.

Ainda hoje e a todo momento, na rua, no ônibus, no metrô, me deparo com fotos que não faço. São fotos prontas, perfeitas, que precisam apenas do clic da máquina para serem fixadas. Mas nem sempre trago comigo a máquina fotográfica, ou se trago sou tomado por uma grande inibição para sacá-la e apontá-la em direção a este quadro já pronto e à espera do clic. Sinto-me sempre pouco à vontade, como se fosse cometer um ato repudiável, lesante, interdito e suscetível de ser penalizado. Então, na maior parte do tempo, deixo o quadro escapar, dissipar-se em sua própria seqüência de coisa dinâmica, móvel e inapreensível.

Nas viagens tudo isso parece mais agudo, aumentado, excitado. Os sentidos tornam-se mais despertos, livres do amortecimento inevitável que o cotidiano impõe e naturalmente abertos para o novo. E tudo é novo. Tudo é novo e imediatamente vinculado a uma experiência nova, o que gera uma espécie de ansiedade: "é a primeira e talvez a última vez que vejo isto, preciso guardá-lo..." - e se faz a foto sem nem mesmo entender o que está à frente (ou precisamente se faz a foto porque não se entende o que está à frente, como um mecanismo de defesa).

Muita gente só faz fotos quando em viagem. Como para trazer na bagagem, em meio a roupas sujas e lembrancinhas para os amigos, o lugar distante, para agregá-lo à sua geografia doméstica. Como um apoio concreto à fluidez indecisa da memória. De minha parte, agora carrego sempre uma máquina fotográfica na bagagem, embora minha postura em viagem seja a mesma que em minha cidade: continuo esbarrando em fotos que não tiro (creio que um dia inteiro, qualquer dia, de qualquer pessoa, daria uma bela seqüência de fotos), guardando imagens na minha cabeça que invariavelmente estão misturadas a um som, uma temperatura, uma época, uma luz, uma companhia, uma solidão, um olhar, um detalhe que à primeira vista parece insignificante mas que depois se revela como a coisa mais importante da foto que se oferece, a sua essência, o motivo pelo qual ela se impregnou na minha memória.

Dessa forma, não revejo fotos, mas relembro-as, enquanto refaço alguns passos buscando na palavra a tradução daquilo que o olho viu e que ecoou nos demais sentidos. E uma outra viagem recomeça.

* de certa maneira este texto introduz um outro publicado aqui mesmo, sob o título Fotografias de viagem (I) (leia aqui). Como toda introdução, foi escrito depois e a partir do texto introduzido. E como neste espaço a publicação é imediata à escrita, mais de seis meses se passaram para que a quase constrangedora orfandade de Fotografias de viagem (I) agora se atenue.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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