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Sexta, 12 de dezembro de 2008, 08h50

Primeira tradução direta do russo

Tony Monti
De São Paulo

O rapaz colocou cinco caixas sobre a banca, virou de costas e se abaixou para pegar outras cinco. Quando voltou à banca, o canto reservado às caixas já estava vazio. Repetiu o movimento algumas vezes. Sempre havia quem tirasse as caixas de cima da banca, abrindo o espaço onde o rapaz depositaria a próxima pilha.

A poucos metros dali, em volta de outra banca, amontoavam-se compradores. A turba era composta de três camadas concêntricas. Demorava alguns minutos para que uma pessoa fosse do ponto mais externo a um lugar de onde pudesse escolher suas compras. Os produtos desse comerciante eram bem embalados e um pouco mais caros.

Na maioria das outras bancas, onde os produtos tinham embalagens simples, o acesso dependia de bem menos esforço. Se se procurava por algo específico, era possível também obter informações com os atendentes.

A feira permaneceu cheia o tempo todo. Entre os freqüentadores, houve gente que chegou, comprou e foi embora. Outros se demoraram, passando com cuidado os olhos sobre as bancas mais vazias para não perder o que pudesse estar escondido. Um terceiro grupo aproveitou o ambiente, recheado de objetos tão interessantes, para passear, sorrir e encontrar algum conhecido, do mesmo modo como algumas pessoas vão ao shopping center.


Não desconsidero a possibilidade de um dia escrever sobre algum aspecto imbecil do consumismo. O centro da questão aqui é um pouco deslocado pelo fato de esta ser uma feira de livros. Acontece uma vez por ano na USP e dá 50% de desconto em qualquer título.

Algumas das pessoas que ali compram compulsivamente conhecem bem as ferramentas para um discurso sólido e permeado de argumentos contra o consumo irrefletido. Os livros mais procurados são aqueles com capa dura, com as edições mais caprichadas. O fetiche da mercadoria, no jargão marxista, inclui a possibilidade do fetiche do livro - o que é óbvio, quando se escolhe determinado caminho, e não outro, para justificar ou condenar escolhas próprias e alheias. Ressalvas feitas, eram livros, não televisores de plasma.

A última tradução d'Os Irmãos Karamázov para o português vendeu na feira todos os exemplares que o editor quis vender. Haveria compradores para mais. Fiquei curioso para saber quantos daqueles exemplares de 1000 páginas serão lidos. Quantos livros de 1000 páginas uma pessoa lê na vida? Dentro da caixa em que ele foi colocado nesta nova edição, concordo, o Dostoiévski se torna um belo livro de mesa.

Algumas pessoas dizem que aproveitam o desconto para montar a biblioteca. Na contramão, eu me propus a não ter mais que quatro pequenas prateleiras de livros em casa. Se eu adquirir um, vou ter que me desfazer de outro, para abrir espaço. Se eu precisar ler, a maioria dos livros está nas bibliotecas públicas. Questão difícil, sem dúvida, também porque, se as pessoas não comprarem os livros, nem quando a intenção é dar um bom presente de Natal, quem vai pagar os escritores nesse mundo de cada um por si? Eu também prefiro livro de capa dura, também prefiro as edições mais bem cuidadas. Ainda assim, aquela confusão toda me atrapalhou o pensamento.

Em certo momento, passou uma moça com uma mala de rodinhas, dessas de viagem. Dentro da mala (eu vi quando ela guardou mais um pacotinho), havia centenas de livros. Lembrei, na hora, de ter visto mais algumas pessoas lá com malas semelhantes. Passei pela moça e perguntei se eram os livros todos para ela. Ela disse que sim, um pouco constrangida, como quem sabe que está fazendo algo errado, e adicionou que não compra livros o ano todo, guarda dinheiro para comprar apenas na feirinha. Havia na mala livros para muitos anos de leitura.


É difícil avaliar as potências de um livro, o que alguém ganha ao ler um Dostoiévski, o que ganha alguém ao declarar que o leu, ao tê-lo na estante exposto, em capa dura ou na caixa da edição especial, primeira tradução direta do russo.

Tony Monti é escritor, autor de eXato acidente (Hedra), o menino da rosa (Hedra) e O mentiroso (7Letras).


Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br

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Reprodução
Dostoiévski, escritor considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e tido como fundador do existencialismo

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