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Quinta, 11 de dezembro de 2008, 10h05 Atualizada às 10h25

Júlio: recessão no Brasil não está descartada

Diego Salmen

A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% é um "erro" e não contribui para reverter a escassez de crédito na economia brasileira. A avaliação é de Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

- O Banco Central errou ao achar que há um risco grande na questão de inflação.

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Em entrevista a Terra Magazine, o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) diz que o risco de inflação no país é "relativamente baixo".

- O balanço entre riscos de inflação e riscos de desaceleração forte da economia é muito, mas muito desequilibrado para o segundo.

Ele também não descarta a possibilidade de recessão na economia brasileira.

- Existe hoje efetivamente, ao lado de um risco relativamente baixo da inflação, um risco elevado de desaceleração da economia ou até mesmo de uma recessão. Não podemos descartar uma recessão.

Leia a entrevista:

Terra Magazine - Essa decisão do Copom de manter os juros é correta?
Júlio Gomes de Almeida -
Nesse caso, não existe ponderação a fazer. Foi uma decisão - do nosso ponto de vista - errada. Errada porque o balanço entre riscos de inflação e riscos de desaceleração muito forte da economia é muito, mas muito desequilibrado para o segundo. Ou seja, existe hoje efetivamente, ao lado de um risco relativamente baixo da inflação, um risco elevado de desaceleração da economia ou até mesmo de uma recessão. Não podemos descartar uma recessão.

Diversos países estão reduzindo seus juros para aquecer a economia em meio à crise. Levando isso em conta, a atual taxa é suficiente para debelar os efeitos da crise?
Todos os países também têm os seus problemas, suas moedas, muitas delas estão se valorizando. Mas de novo, esses países estão medindo os riscos da inflação, que eu acho que são muito baixos hoje a nível mundial, ou bem mais baixos, com o risco de uma recessão - que hoje são muito elevados. O risco de desaceleração da economia, que aqui é muito alto, também é alto no mundo. O BC acredita que nós temos uma problema inflacionário grave devido à desvalorização da moeda.

Por quê?
Porque ao lado da desvalorização da moeda, que realmente está ocorrendo, nós temos uma redução de preços importante para a economia e para o consumidor, como por exemplo no setor de alimentos, que advém do fato de que no mundo as commodities têm caído de preço. Considerada por si só a desvalorização do Real é um fator inflacionário. Porém, a queda de preços de alimentos e outros produtos, a nível mundial, mais do que contrabalanceia isso. Eu não vejo risco de aumento da inflação do Brasil, mas vejo risco grande do país entrar em desaceleração forte beirando a recessão. A atitude correta seria baixar.

A diminuição dos juros não compensaria a escassez de crédito causada pela crise?
Em parte. Colaboraria para isso. O Banco Central errou ao achar que há um risco grande na questão de inflação. Com a manutenção dos juros, ele não colabora para ampliar o crédito na economia. Existe uma escassez grande de crédito na economia e essa medida do BC não ajuda a resolver.

Terra Magazine publicou reportagem mostrando que Lula pode tirar Meirelles por discordar dos juros altos (veja aqui). Como avalia essa questão?
Eu acho que não é uma medida isolada que o presidente vai se basear para tomar uma atitude como essa. Uma iniciativa dessa é tomada pelo conjunto da obra, pela avaliação do todo. E aí eu não sei como ele avalia o Henrique Meirelles. O que eu acho é que (a manutenção dos juros em 13,75%) é um erro irreparável, porque tem horas que você pode voltar atrás no erro. Nesse aí não dá. O BC já errou e já acertou em outras ocasiões. Mas o erro de ontem foi extremamente grave.

 
Antonio Cruz/Agência Brasil
Banco Central (foto) manteve os juros em 13,75% ao ano

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