Terra Magazine

 

Sexta, 12 de dezembro de 2008, 09h42 Atualizada às 12h30

Kimbo Slice, Elite XC e Shaw, o fiasco de 2008

Guga Noblat
De Brasília (DF)

Kimbo "Kevin Ferguson" Slice ganhou fama de brigador ao aparecer no youtube, canal de vídeos da internet, surrando 20 oponentes entre 2003 e 2006. Eram lutas sem luvas e só valia dar socos. Ganhava quem ficava em pé.

Kimbo sucumbiu diante de um único lutador, o policial de Boston Sean Gannon, hoje com 34 anos. Perdeu porque cansou antes do rival. Gannon saiu da luta com inchaços na testa que pareciam caroços do tamanho de bolas de sinuca. Em média, Kimbo faturava entre USS$ 3 mil e US$ 5 mil por combate.

Em menos de sete meses de carreira no MMA (mistura de artes marciais, o antigo vale-tudo) o ex-lutador de rua Kimbo Slice tornou-se um ícone do esporte graças a fama alcançada por seus vídeos na internet. Ele conseguiu a proeza de ser o segundo atleta da história do MMA a ilustrar a capa da revista ESPN Magazine, o que aconteceu em maio de 2007.

Antes dele apenas Chuck Liddell atingiu tal feito e depois de uma vida dedicada ao MMA. Kimbo faturou em seu último combate mais de US$ 500 mil, enquanto muitos lutadores renomados ganham apenas US$ 30 mil.

O apelido "Slice" (fatias) foi criado pela legião de fãs de Kimbo. Seus admiradores crescem vertiginosamente junto com o youtube. Só a luta contra Gannon, ocorrida em 2004, foi vista até o fim deste mês por 5,5 milhões de internautas.

A fama virtual rendeu a Kimbo um contrato com o Cage Fury Fighting Championships. Ele lutou uma única vez nesse evento, em junho de 2007, quando aplicou um estrangulamento para derrotar o veterano do boxe Ray Mercer, ex-campeão peso-pesado olímpico e da Organização Mundial de Boxe. Foi uma luta de "exibição", portanto não contou para o currículo de Kimbo.

Pouco tempo depois Kimbo foi escalado para fazer parte do plantel de lutadores do Elite XC, primeira organização de MMA a selar contrato com um canal de TV aberta nos Estados Unidos, a CBS. Sua popularidade era tamanha que Kimbo acabou alçado ao posto de maior estrela do Elite XC poucos meses depois de assinar contrato com o evento em outubro de 2007.

Como era promovido de graça pela CBS, o Elite XC passou a depender de uma audiência recheada para manter-se no ar. O maior rival do Elite, o Ultimate Fighting Championship (UFC), lucra e banca a bolsa de seus atletas com a venda de seus eventos pelo sistema pay-per-view.

Kimbo garantia a audiência necessária para manter viva as pretensões do presidente do Elite XC Gary Shaw de acabar com a hegemonia do UFC - a maior organização de MMA desde o fim do evento japonês Pride F.C, em 2007. Mas depender de um lutador em fim de carreira, Kimbo tem 34 anos, e sem um passado dedicado ao MMA era arriscado demais para Shaw.

Seu medo de ver sua estrela ser derrotada era indisfarçável. Em uma das lutas de Kimbo, o presidente do Elite XC chegou a dar instruções para o juiz voltar o combate em pé, terreno onde a ex-estrela do youtube é especialista.

Interessada em preservar a audiência e o mito que se criava em torno de Kimbo, a organização do Elite sempre fez o que pôde para garantir lutas fáceis à sua nova estrela. O objetivo era torná-lo o campeão peso-pesado do evento. Seu primeiro combate no Elite XC seria contra Mike Bourke - um lutador com características semelhantes a dele, sem jogo de chão e também com um passado ligado às lutas de rua ("street fighter"). Porém, uma contusão a véspera de 10 de novembro de 2007, dia do evento, tirou Mike Bourke do caminho de Kimbo. No seu lugar entrou Bo Cantrell, ainda pior que Bourke.

Cantrell, que antes de enfrentar Kimbo tinha sido derrotado 10 vezes em 20 lutas, comentou que seu oponente não estaria preparado para encarar um atleta de verdade. Ele prometeu derrotar Kimbo, mas acabou nocauteado em 19 segundos. Shaw vibrou feito uma criança! E tinha razão. As lutas de Kimbo, depois daquela noite, passaram a gerar cada vez mais audiência.

O próximo na lista de presas fáceis para Kimbo foi Tank Abbott, um veterano do MMA com um passado ligado a lutas de rua e, principalmente, a brigas em bares. Em seus tempos áureos Abbott faria frente aos potentes socos de Kimbo e teria uma boa chance de vencê-lo. Mas não hoje. Decadente, com 43 anos e sem treinar ele não durou nem dois minutos contra a estrela do Elite XC.

A jogada de mestre de Shaw foi se valer de Kimbo na luta principal do primeiro torneio de MMA transmitido pela TV aberta na história dos Estados Unidos. O EliteXC Primetime garantiu a maior audiência até hoje de uma luta de MMA. Mais de 7,2 milhões de espectadores viram o combate entre Kimbo e o inglês James Thompson, veterano do Pride. Restou provado a popularidade de Kimbo.

Era para ter sido mais uma luta fácil para a Kimbo. Thompson, apesar de se dizer lutador de muay thai, é um brutamontes muito forte, mas com pouca técnica. Ele evoluiu muito desde que surgiu em 2004 tremendo no Pride e prometendo arrancar a cabeça de seu oponente para depois de apenas 11 segundos acabar nocauteado. Desde então seu apelido entre os fãs brasileiro é treme-treme.

O problema de Kimbo foi que treme-treme mudou seu jogo e, para tristeza de Shaw, não quis trocar socos. O inglês avançou nas pernas da estrela do Elite e o derrubou na lona. Boa parte do combate foi travada no solo com vantagem para Thompson. Shaw, desesperado com a derrota iminente de sua estrela, pressionou o juiz para fazer a luta voltar de pé.

No início do terceiro round Kimbo desferiu uma boa seqüência de socos na face de treme-treme, que ficou grogue, mas ainda de pé e consciente. Mesmo assim o juiz interrompeu o combate e deu a vitória por nocaute técnico a Kimbo. Sonoras vaias vieram do publico presente à luta. Faltavam apenas 4 minutos para terminar o combate e a vitória por pontos seria do inglês. Foi um vexame, mas não por culpa da ex-estrela do youtube.

Sucesso de audiência e invicto em três lutas de MMA, apesar da vitória discutível contra Thompson, Kimbo logo foi escaldo para fazer mais uma luta principal de um outro Elite transmitido pela TV aberta. Dessa vez ele teria pela frente o personagem do jogo de videogame "Street Fighter" e lutador de MMA desde 1993, Ken Shamrock.

Ken não vence ninguém desde 2004 quando nocauteou outro veterano, Kimo Leopoldo, com uma joelhada. E vinha de cinco derrotas seguidas antes de ser alçado ao posto de desafiante de Kimbo. Para sua sorte, momentos antes da luta pelo Elite Ken bateu a testa na cabeça de um parceiro de treino. A pancada lhe rendeu alguns pontos sobre a sobrancelha e seu corte do evento.

Sem tempo de chamar alguém para substituir Ken, o Elite propôs a Seth Petruzelli - lutador escalado para um combate na categoria peso-médio - que enfrentasse Kimbo. Uma boa grana lhe foi oferecida. Petruzell tinha lutado na categoria dos pesados no UFC, onde acabou derrotado duas vezes, e topou encarar a estrela do Elite XC.

Apesar do improviso o combate entre Kimbo e Petruzelli gerou a terceira maior audiência da historia do MMA. Foram mais de 6,4 milhões de espectadores. Só perde em números para Kimbo x Thompson e Chuck Liddell x Tito Ortiz - que teve 6,5 milhões de espectadores e foi promovido em um UFC especial transmitido pelo canal aberto SpikeTV.

A verdade é que se a luta de Kimbo tivesse sido cancelada o prejuízo para o Elite teria sido menor. Em poucos segundos a ex-estrela do youtube levou um cruzado no queixo e caiu de rosto na lona. Mais uns socos na cabeça e a luta foi interrompida. Massacre! Vexame para Shaw, que ainda gritou histérico do lado de fora numa tentativa de dizer ao juiz que Kimbo havia levado socos na nuca, o que seria ilegal. Fim do mito em vergonhosos 14 segundos. Mas não culpem Kimbo.

O pior para o Elite veio no dia seguinte à luta, quando Petruzelli revelou que Shaw ofereceu dinheiro para a luta correr em pé. Nada melhor para Dana White, presidente do UFC, do que ver seu desafeto Shaw ser acusado de tentar interferir no combate. O MMA envolve apostas e a credibilidade do esporte foi posta em risco graças a um aventureiro, acusou o poderoso-chefão do UFC. O mais cômico para Dana foi ver um ex-lutador seu frustrado por ter fracassado no UFC desbancar Kimbo em menos de 15 segundos.

Dana e alguns de seus atletas e ex-atletas, como Chuck Liddell e Tito Ortiz, estavam em campanha contra Kimbo. E viviam subestimando o ex-astro do youtube. A vitória de Petruzelli significou também a vitória de todos os lutadores e fãs de MMA que repudiavam a ostentação em torno do nome de Kimbo, um lutador ainda sem história nesse esporte.

Afundando em dívidas superiores a US$ 50 milhões, o Elite decretou falência poucas semanas depois do vexame de Kimbo. Com a derrota da principal estrela do evento e a reputação manchada pela acusação lançada por Petruzelli o Elite repentinamente sumiu do mapa. Mas nas últimas semanas correram boatos de que a CBS e outras empresas que detém parte do Elite estariam se organizando para ressuscitar o evento sob nova direção.

Kimbo é um sujeito pacato apesar da cara de mau e da fama de brigador. Sempre que pode ele fala de seus filhos, do quanto é importante participar da educação deles e passar um bom exemplo. Desde que surgiu no MMA sempre se comportou como um aprendiz, apesar da fama repentina e do sucesso instantâneo. Os holofotes da mídia não parecem ludibriá-lo. Assim que topou se tornar um lutador de MMA teve a humildade de admitir que não sabia nada e pediu ajuda ao lendário Bas Rutten, lutador holandês seu treinador desde então.

O ex-lutador de rua passou por maus bocados em sua vida. Ainda criança Kimbo emigrou das Bahamas para os EUA com sua mãe e dois irmãos. O pai ele nunca teve muito contato. Não se formou e depois de um ano e meio largou a faculdade. Nunca teve um emprego fixo.

A reviravolta em sua vida veio em meados dos anos 90. Um amigo de infância dono de uma empresa que distribui pornografia pela internet e proprietário de uma limusine tirou Kimbo da profissão de segurança de uma boate de striptease e o contratou como motorista.

Ao perceber que Kimbo era bom de briga seu amigo teve a idéia de organizar lutas com grana em jogo e lançar na internet. Foi aí que Kevin Ferguson passou a adotar seu apelido de infância, Kimbo, em vez de seu nome real. E a construir a reputação de brigador.

O K1, evento de lutas em pé organizado no Japão, planeja colocar Kimbo em um de seus torneios no início do próximo ano. O sucesso dele atravessou o oceano, apesar de ser mais marketing do que qualquer outra coisa. E ele poderá dar a volta por cima em sua carreira, ou afundar-se de vez.

O Elite acabou, mas pode voltar. Já Shaw perdeu a credibilidade e sua curta carreira como promotor de lutas acabou de maneira vergonhosa. Kimbo ainda tem mais uma chance. Por ora, ele é verde para o MMA, mas tem socos potentes e popularidade de sobra. Sem dúvida sua derrota em 14 segundos vai aumentar a pressão e a responsabilidade de se sair bem no próximo combate. Se Kimbo perder mais uma vez sem apresentar muita resistência entrará para a história como uma das maiores farsas e decepções do MMA.


Guga Noblat é jornalista e colaborador do site de Misturas de Artes Marciais (MMA): www.fight2live.net. Cobre política para o Blog do Noblat e já trabalhou como roteirista e produtor de programas de TV.


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