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Segunda, 15 de dezembro de 2008, 07h51

Pobre Machado. Pobre Susana.

Divulgação
Capitu - Para Alemão, o diretor Luiz Fernando Carvalho caricaturou personagens de Machado de Assis
Capitu - Para Alemão, o diretor Luiz Fernando Carvalho caricaturou personagens de Machado de Assis

Márcio Alemão
De São Paulo

Ele conseguiu mais uma vez.

Luiz Fernando Carvalho conseguiu transformar Dom Casmurro, de Machado de Assis, em um "pasticcio" de bonitas imagens e caricaturas. Mais uma leitura delirante e equivocada de uma obra genial.

Comentou bem um colega: parece que ele odeia a literatura e não irá medir esforços para que todos dela se afastem. Mesmo quem teve paciência de chegar ao fim de seu Lavoura Arcaica, sem ter lido o livro, jamais chegará perto, mais uma vez, de Raduan Nassar. O mesmo feito conseguiu ele com Ariano Suassuna e agora com o genial Machado.

De um bom cozinheiro se espera uma boa comida. Se virá ela envolta por brocados, plumas, folhas de ouro, pouco importa, desde que seja boa a comida.

Pois é simplesmente isso que o diretor Luiz Fernando não consegue.

De um diretor se espera, antes de qualquer coisa, que saiba nos contar uma história.

Ele tem se recusado sistematicamente a fazê-lo.

No primeiro capítulo me revoltou ver que transformou todos os personagens de Machado em caricaturas. Depois de 5 minutos já tive vontade de mudar de canal. Aliás, a maioria dos telespectadores de todo o Brasil fez isso. A audiência foi muito ruim. Aos 10 minutos a tortura foi se tornando mais e mais dolorosa. E eu pensava: por que ele se recusa a conquistar o telespectador chamando-o para a história? Por que ele afasta todos que tentam se aproximar da trama? Que tipo de diretor é esse que tenta nos convencer que o mais importante é a direção de arte? Cito o primeiro diretor que me veio à cabeça: Akira Kurosawa. Seus filmes Ran e Sonhos trouxeram delírios e esbanjaram um requinte na direção de arte que raras vezes o cinema havia visto. Mas tudo estava a serviço da história.

Luiz Fernando Carvalho em seus recentes trabalhos - deixo de lado o muito bom e bonito Hoje é dia de Maria ­- fez exatamente o contrário.

E aquele Bentinho? Que desespero fui sentindo a cada frase que ele pronunciava. Tão jovem e tão chato. Ou talvez não o seja. Pode ter apenas obedecido ordens. Já a Capitu saiu-se bem. Teria se rebelado ou tem muito mais a oferecer que o jovem Bentinho?

Finalizo dizendo que nada me surpreendeu. Temia por essa "repetição" de A Pedra do Reino. Foi menos radical, mas ainda esteve longe de ser um bom trabalho.

Agora, Susana Vieira nas capas de Veja e Época...claro que também não me surpreendeu. Foi o assunto mais importante do país, certo?

Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.

Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br

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