
|
Divulgação
Capitu - Para Alemão, o diretor Luiz Fernando Carvalho caricaturou personagens de Machado de Assis
|
Márcio Alemão
De São Paulo
Ele conseguiu mais uma vez.
Luiz Fernando Carvalho conseguiu transformar Dom Casmurro, de Machado de Assis, em um "pasticcio" de bonitas imagens e caricaturas. Mais uma leitura delirante e equivocada de uma obra genial.
Comentou bem um colega: parece que ele odeia a literatura e não irá medir esforços para que todos dela se afastem. Mesmo quem teve paciência de chegar ao fim de seu Lavoura Arcaica, sem ter lido o livro, jamais chegará perto, mais uma vez, de Raduan Nassar. O mesmo feito conseguiu ele com Ariano Suassuna e agora com o genial Machado.
De um bom cozinheiro se espera uma boa comida. Se virá ela envolta por brocados, plumas, folhas de ouro, pouco importa, desde que seja boa a comida.
Pois é simplesmente isso que o diretor Luiz Fernando não consegue.
De um diretor se espera, antes de qualquer coisa, que saiba nos contar uma história.
Ele tem se recusado sistematicamente a fazê-lo.
No primeiro capítulo me revoltou ver que transformou todos os personagens de Machado em caricaturas. Depois de 5 minutos já tive vontade de mudar de canal. Aliás, a maioria dos telespectadores de todo o Brasil fez isso. A audiência foi muito ruim. Aos 10 minutos a tortura foi se tornando mais e mais dolorosa. E eu pensava: por que ele se recusa a conquistar o telespectador chamando-o para a história? Por que ele afasta todos que tentam se aproximar da trama? Que tipo de diretor é esse que tenta nos convencer que o mais importante é a direção de arte? Cito o primeiro diretor que me veio à cabeça: Akira Kurosawa. Seus filmes Ran e Sonhos trouxeram delírios e esbanjaram um requinte na direção de arte que raras vezes o cinema havia visto. Mas tudo estava a serviço da história.
Luiz Fernando Carvalho em seus recentes trabalhos - deixo de lado o muito bom e bonito Hoje é dia de Maria - fez exatamente o contrário.
E aquele Bentinho? Que desespero fui sentindo a cada frase que ele pronunciava. Tão jovem e tão chato. Ou talvez não o seja. Pode ter apenas obedecido ordens. Já a Capitu saiu-se bem. Teria se rebelado ou tem muito mais a oferecer que o jovem Bentinho?
Finalizo dizendo que nada me surpreendeu. Temia por essa "repetição" de A Pedra do Reino. Foi menos radical, mas ainda esteve longe de ser um bom trabalho.
Agora, Susana Vieira nas capas de Veja e Época...claro que também não me surpreendeu. Foi o assunto mais importante do país, certo?
Terra Magazine