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Quarta, 17 de dezembro de 2008, 14h03 Atualizada às 15h16

Delfim: Bancos centrais permitiram "patifarias"

Claudio Leal

O ex-ministro e ex-deputado federal Delfim Netto tem uma palavra mais específica para definir as estripulias do mercado financeiro: "patifarias". O gestor de fundos Bernard Madoff, acusado de fraude de US$ 50 bilhões, nos Estados Unidos, é um dos personagens do ciclo de patifarias "sob o nariz" dos bancos centrais.

Em entrevista a Terra Magazine, Delfim Netto define como "irresponsável" a liberação das rédeas do setor financeiro. Agora, resta empreender a reconquista da confiança.

- As patifarias feitas sob o nariz dos bancos centrais, essa última patifaria do (Bernard) Madoff, mostram, na verdade, que eles foram irresponsáveis, que não sabiam o que estavam fazendo, na melhor das hipóteses.

O economista defende a decisão do Fed (Federal Reserve), banco central americano, de baixar a taxa básica de juros de 1% para entre zero e 0,25%. A medida histórica integra um conjunto de ajustes que pretendem "promover a retomada do crescimento econômico sustentável e preservar a estabilidade dos preços". Delfim a enquadra no rol das ações para o fortalecimento da confiança.

- Achei uma decisão correta. A política monetária é simplesmente uma condição necessária pra você tentar restabelecer o funcionamento do circuito econômico. Mas ela é incapaz de fazer isso. Porque esse funcionamente depende do restabelecimento da confiança. O que o Fed fez foi ir ao limite do que ele pode fazer.

Antonio Delfim Netto, 80 anos, ocupou os ministérios da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento em três dos governos da ditadura militar, tornando-se artífice do "milagre econômico brasileiro", marcado por taxas de crescimento elevadas. Com alguma mordacidade, critica os rumos do debate mundial sobre a crise financeira. Em especial, a idéia de "refundar o capitalismo".

- Tem duas discussões que me parecem que não vão levar a lugar nenhum. A primeira discussão é a de que você pode ficar fora da crise. (...) A segunda é essa discussão um pouco infantil de que nós vamos reformular, vamos refundar o capitalismo. Isso é produto de uma profunda ignorância histórica.

Leia a entrevista:

Terra Magazine - O Fed tomou ontem uma decisão histórica ao reduzir a taxa de juros para quase zero. É uma medida correta na condução da crise?
Delfim Netto - Achei uma decisão correta. A política monetária é simplesmente uma condição necessária pra você tentar restabelecer o funcionamento do circuito econômico. Mas ela é incapaz de fazer isso. Porque esse funcionamente depende do restabelecimento da confiança. O que o Fed fez foi ir ao limite do que ele pode fazer. O efeito disso, provavelmente, só será efetivo se, realmente, ele ajudar a restabelecer a confiança dos consumidores, dos investidores. Numa certa medida, ele produz isto. Na minha opinião, por exemplo, exatamente o que o Banco Central brasileiro não fez foi produzir uma pequena redução de 0,25%, cujo efeito seria mínimo sobre a economia real. Mas os efeitos psicológicos, provavelmente, seriam importantes para o restabelecimento da confiança. De modo que eu acho que o Fed está fazendo o que podia fazer, com a convicção de que foi a política monetária laxista dos bancons centrais que produziram a crise que estamos vivendo.

Como o senhor avalia a declaração de Barack Obama, de que os EUA já esgotaram a munição contra a crise?
Acho que esgotou a munição monetária e agora vai começar uma política fiscal. De novo, os economistas... Ou melhor, o Fed, o Banco Central, pode produzir a crise como produziu, mas é incapaz de resolvê-la. Ela está fora do campo da economia. Não é simplesmente dando liquidez, tentando induzir os empresários a investirem, tentando dizer que os banqueiros emprestem, que você vai conseguir isso. Porque se destruiu o fator importante, que é a confiança. Sem a qual o sistema não funciona. Não há dúvida nenhuma sobre esse fato. A confiança é o cimento da própria sociedade. Se você não confiar no choffer do seu ônibus, você não vai a lugar nenhum. O que aconteceu? As patifarias feitas sob o nariz dos bancos centrais, essa última patifaria do (Bernard) Madoff (gestor de fundos acusado de fraude de US$ 50 bilhões) mostram que eles foram irresponsáveis, que não sabiam o que estavam fazendo, na melhor das hipóteses.

Com a crise, vai ser superado esse mundo de fantasia?
É a segunda vez. Em 2001, também foi a crise da fantasia. E se dizia que se tinha acabado a nova economia. Os preços não dependiam mais dos fundamentais. Os preços eram produzidos pelos ganhos de produtividade da tecnologia de informática. Essa crise que nós estamos vivendo é a continuação da crise de 2001, mal-resolvida pelos bancos centrais.

Como se situa o Brasil?
Nós estamos na mesma situação. Estamos fazendo o que é possível, o governo está fazendo o que é possível. O setor privado está muito assustado... O governo está na posição correta de restabelecer a confiança. A única vantagem, no Brasil, é que, aparentemente, a sociedade acredita mais no seu presidente do que acontece em outros países.

O senhor, que conviveu com outros presidente, analisa de que forma a popularidade de Lula, em plena crise mundial?
Lula tem uma intuição muito grande. Lula é um brasileiro. Esse é que é o fato. Ele tem uma linguagem que fala à maioria das pessoas. Ela, de vez em quando, fica sujeita a intelectuais, a críticas de alguns intelectuais, mas ele tem um mecanismo de comunicação com a sociedade que é muito importante. A tendência dele é de acomodar. Você vê: quando houve aquele problema de aumento de salários no setor automobilístico, ele entrou e disse: "Não, vou fazer o aumento, mas prestem atenção: se vocês quiserem um aumento muito maior do que os aumentos de produtividade, nós vamos perder emprego." Agora mesmo, ele está dizendo: "Vamos negociar." Hoje, a legislação brasileira não permite nenhuma negociação. Mas é claro que flexibilizar não é retirar direitos. Porque ninguém vai retirar direitos. Ninguém deveria ousar propor retirar direitos. Esses direitos foram conseguidos em 150 anos de guerra. E de luta. O que se trata é o seguinte: vamos acomodar agora os interesses do trabalhador, das empresas, pra que a gente tenha um custo menor. O Brasil se beneficiou de estar no mundo, e vai pagar o preço por estar no mundo.

Na Costa de Sauípe (Bahia), os chefes de Estado discutem também a proteção da América Latina e do Caribe diante desta crise. Quais são as opções para esses países?
Tem duas discussões que me parecem que não vão levar a lugar nenhum. A primeira discussão é a de que você pode ficar fora da crise. Só se dissesse ao mundo: "Pára, que eu vou descer", tá certo? Não pode. A segunda é essa discussão um pouco infantil de que nós vamos reformular, vamos refundar o capitalismo. Isso é produto de uma profunda ignorância histórica.

Por quê?
Porque o capitalismo é sempre uma coisa diferente. O capitalismo, esse regime de economia de mercado, é compatível com a liberdade individual. A liberdade individual, combinada com as garantias jurídicas de que o cidadão pode se apropriar dos benefícios dos seus esforços, é que levou pra economia as ciências, as inovações. Quer dizer, é a liberdade individual que produz esse resultado extraordinário, que junta eficiência produtiva e produziu uma mudança no mundo. Em 250 anos, o mundo veio da idade da pedra pra idade da informática. Graças a esse sistema de produção, que combina eficiência com a liberdade do indivíduo. Isso não foi inventado por ninguém. Isso foi descoberto na história.

Então, as ideologias, neste momento...
Ideologia continua sendo o que sempre foi: sinal de trânsito.

Não vale a discussão proposta pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, de refundar o capitalismo?
A essa discussão falta uma visão histórica. E é muito arriscado. Cada vez que se tentou substituir esse sistema, por alguma coisa produzida por um cérebro peregrino, terminou muito mal, né?

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Valter Campanato/Agência Brasil
Para ex-ministro Delfim Netto, discutir refundação do capitalismo é "uma ignorância histórica"

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