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Quinta, 18 de dezembro de 2008, 08h01

Acabou o papel!

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Quem foi que teve a "brilhante" idéia de rimar o título aí de cima com "jingle bells"? A resposta a essa pergunta abriria caminho para uma pequena história da esculhambação brasileira através da música. Que espécie de traço cultural seria a esculhambação?

Sobre a canção ando perguntando por aí, mas ninguém conseguiu me ajudar até o momento. Por exemplo: quando é que foi "composta" a versão mais brasileira das canções natalinas? Por quem? Se o leitor sabe, que me diga.

Certamente é anterior à década de 60, porque na minha infância todos já a conheciam. E tem um sabor marcante de Rio de Janeiro - durante um certo tempo, cultivou-se no Rio a mania bizarra de fazer arruaça nas missas do galo.

A canção original (One horse open sleigh) é de autoria de James Lord Pierpont, e foi registrada em 1857, nos Estados Unidos. Trata-se de um Christmas carol feito curiosamente para o Dia de Ação de Graças. A letra original - ao contrário da versão oficial em português - não é nada espiritual ou carola, manda bater os sinos e rolar pela neve. A cinética da melodia alude justamente ao movimento do trenó, chegando mesmo a mencionar uma certa Senhorita Fanny Bright, que aparece para alegrar o passeio.

Antes mesmo de qualquer análise da esculhambação vale a pena refazer o percurso mental da canção. Passar de "jingle bells" para "acabou o papel" é uma associação fantástica. Exibe o poder comunicativo dos grandes refrões. "Acabou o papel" é uma construção incrivelmente redonda e sonora. Além disso, é sutil, não entrega o jogo - já está sendo usada por ecologistas (confira na internet).

Somente na seqüência é que o ouvinte vai perceber de que papel se trata. "Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal". Novamente, uma clareza heráldica, apesar da implicação turva e grosseira! Esse joguinho safado de adiar a grosseria faz parte da estratégia composicional, assim como o contraste cativante do jogo de rimas "el, el, el" com "al, al, al". Erudição pura.

Daí em diante surge nossa ancestral queixa sobre a carestia (o jornal tá caro - quem haveria de discordar?), e uma expressão popular envolvendo o chuchu, que não tinha nada a ver com a estória, mas estabelece as condições sonoras para o desfecho glorioso e indizível da última rima. Resumo da ópera: da brancura da neve ao cotidiano emporcalhado da evacuação.

Mas qual o sentido de avacalhar o natal de jingle bells? Será que a versão teria surgido como uma reação ao desembarque maciço de "coisas americanas" a partir do pós-guerra, de Sinatra à coca-cola, constituindo dessa forma um gesto matreiro de resistência cultural? Seria, dessa forma, um manifesto contra a americanização do natal?

Ou seria mais da ordem de uma tentativa de expurgar a inveja latente por que aqui não tem neve, trenó e desenvolvimento? Por se estar no excêntrico campo do outro - periférico? Afinal de contas, quando as pessoas cantam a versão apócrifa elas exibem um prazer todo especial, anunciando que o mundo está de cabeça pra baixo - pelo menos o mundo do papai noel.

A pergunta vai permanecer no ar: será que a anarquia nos liberta, permitindo um espaço de identidade com uma certa autonomia, ou nos aprisiona nessa identidade pret-a-porter de brasilidade esculhambativa - que no mundo só tem paralelo mesmo na Austrália?


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

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