
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Prezados milhares de leitores. Imagino que entre vocês existam muitos que tenham passado pessoalmente ou indiretamente por uma formatura recentemente. Não era o meu caso, até a semana passada. Possuo um talento incomum pra não ir a batizados ou casamentos, e uma impaciência crônica para com eventos desprovidos de significado, tais como almoço de federação das indústrias, concertos de rock e, especialmente, formaturas.
Na semana passada rompi essa regra para assistir ao meu amigo Genivaldo Leite se formar no Ensino Médio, na escola pública onde estudou. Eu iria ao batizado do Genivaldo, a não ser que ele se batizasse naquela seita do bispo, e muito provavelmente aceitaria o convite para assisti-lo discursar na Fiesp, tal o prestígio do Genivaldo entre os moradores do meu ex-prédio, ali na chique e ruidosa Vila Nova Conceição.
Eu tinha recém chegado em São Paulo, uma experiência mais do que dramática, podem acreditar. Estava morando no apartamento de uma amiga que tinha ido para Espanha, enquanto arrumava um lugar pra chamar de meu. Acordava com a tensão natural dos neo-paulistanos, olhava para o mundo lá fora com muita dúvida sobre a escolha que eu tinha feito, de vir para cá. O Genivaldo deu um jeito nisso.
Imaginem o sujeito mais simpático do planeta, multipliquem por n, e teremos algo próximo do Genivaldo. Agora pensem nesse mesmo sujeito sorrindo essa simpatia TODOS os dias, e TODAS as horas. Era impossível manter o meu mau humor, não havia como sustentar qualquer resistência a São Paulo. Se um sujeito que tinha vindo do interior da Bahia para se alfabetizar aqui, aos 14 anos, e agora aos 21 se preparava para terminar o Ensino Médio, se ele podia sobreviver e ser irresistivelmente feliz, então, senhoras e senhores, eu também podia. Hora de parar de ser fresco, como diria minha avó Jovita, tão doce, e ir lá fora dar um jeito. Fui.
O golpe de misericórdia, o Genivaldo deu quando leu dois dos meus livros, para debatermos um dia, tomando um café no Pão de Açúcar em frente. No dia em que o Genivaldo me informou que teria sua formatura na escola, óbvio que eu sustei todos os compromissos em contrário e fui.
Senhoras e senhores: de um lado, Genivaldo e sua turma. Felizes, cercados por familiares e amigos - lá do prédio foram vários moradores, admiradores, como eu. Dignos, merecedores daquele momento, em suas togas de aspecto estranho e sorrisos multirraciais de arrepiar até mesmo um insensível como eu.
Do outro lado, uma diretora de escola que conseguiu fazer eu me lembrar da minha, no século 12. Uma diretora, digamos, da linha Torquemada de administração. E, contratados pela escola, me dizem, uma produtora de formaturas.
Pausa: na minha inocência e desconhecimento, eu simplesmente não sabia que agora temos produtoras de formaturas, que basicamente mandam na banda. No meu tempo, esse tipo de coisa ainda tinha como centro os formandos e seus discursos para mudar o mundo. Agora, temos a produtora do evento. Triste figura, me pareceu.
A produtora controlou cada instante da cerimônia, homens com aspecto de leões de chácara portavam câmeras fotográficas a não deixavam mais ninguém fazer as suas próprias fotos. Mulheres com umas batas esquisitas impediam os garotos de sair de seus lugares, para não prejudicar a foto. Tudo ali era uma foto. A produtora adquire os direitos exclusivos de imagem, para vender aos formandos, ela apenas, mais ninguém.
Portanto, o que era pra ser a celebração de uma passagem importante, especialmente para esse universo de pessoas, estudantes noturnos em uma escola pobre, no meio de um bairro muito rico, se tornou a triste seqüência de obtenção de imagens para serem vendidas. Tudo aquilo ali era pretexto para se tomar e vender imagens. O evento existiu para poder ser vendido em pedaços. E isso para aqueles alunos, suas famílias, orgulhosos, arrumados, impecáveis em seus trajes de festa. Gente que deu um duro danado para estar ali. Que feio fazer isso com eles!
Ninguém falou nada que marcasse, quem falou alguma coisa não foi escutado, fotos foram feitas de tudo e de todos. E assim foi a noite.
Durante a semana comentei meu espanto com outras pessoas, e elas me dizem que essa virou a norma, nessas formaturas ainda mais sem sentido que são as de ensino médio da classe média. Se formar na escola, se você é da classe média ou alta, tem o mesmo grau de dificuldade de colocar um aparelho ortodôntico. Se existe algum mérito nessa conquista, ele está entre a turma do Genivaldo. E eles mereciam mais respeito. E fica a pergunta: quem ganhou o que com isso? A escola contratou a produtora, ou a produtora contratou a escola? Havia um cenariozinho, togas, canudos, presentes, todo o kit felicidade por um dia diante da família. Quem deu o quê? Em troca do quê? Tudo foi estranho demais para parecer fruto de bondades.
Se nossa era vai por aí mesmo, se temos que existir para que alguém possa ganhar dinheiro com isso, se é apenas isso, estamos mal. A maravilhosa e subestimada banda Kinks disse que "people live just to leave pictures behind" ou algo assim. Deixar fotos e lembranças é uma das coisas boas da vida. Virarmos uma cena a ser vendida, não. Somos bem mais do que isso, ou deveríamos ser, e a turma do Genivaldo, injustamente tratada, é apenas um bom e rico exemplo do que estou falando. Que nossos méritos sejam reconhecidos, que nossas realizações sejam premiadas, que nossos mais belos momentos sejam registrados, sim. Mas falsificarmos as emoções para termos o que fotografar é pobre, triste e tem, tem que ser denunciado. Portanto, aqui foi. E um bom Natal a todos.
Terra Magazine
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