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Sábado, 20 de dezembro de 2008, 08h16

Madonna mia!

Alexandre Xavier
De São Paulo

Sabe quando tem festa do peão de rodeio em cidade do interior? Todo mundo tem que ir pra ver e ser visto, é o evento social do ano e a cidade inteira comenta.

Pois a Madonna é a nossa festa de rodeio. É quando Rio e São Paulo mostram que são provincianas. Porque essa "babação de ovo", "lambeção de saco" (com o perdão do termo) em torno da Madonna é injustificável.

O vídeo que mostra o Sérgio Cabral tietando a "diva" resume a ópera (coloque no YouTube: madonna, governor, rio). É vergonhoso, pra não dizer patético. Ela o agradece por ter desviado o trânsito para a equipe dela. E ele se orgulha. E a presenteia com uma camiseta do Ronaldinho (futebol e subserviência, somos mestres!).

A Madonna é chefe de Estado? A Madonna nem gosta de futebol. E pergunta se o prefeito de Amsterdã parou o trânsito para a Madonna ir até a Arena do Ajax se apresentar. Não parou.

Somos um povo estranho. Tem hora que somos ufanistas sem limites, tem hora que endeusamos os gringos sem o menor comedimento.

No Brasil, ou é Galvão ou é Madonna. Meio termo ou bom-senso é bobagem.

"Karina Bacchi 'persegue' Madonna em shows"
Olha essa manchete aí em cima! Como assim? O tombo no palco é notícia, os dois mil energéticos que ela pediu é notícia, o divórcio é notícia, o panaca que ficou duas horas em frente ao Copacabana Palace esperando ela sair na janela é notícia...

Não é injusto que a mídia embarque nessa turnê caça-níquel da Madonna quando tem um monte de banda brasileira boa por aí que não ganha nem uma resenhazinha na imprensa?

Falaram à exaustão até dos caras que armaram barraca no portão do estádio. Cadê a notícia? Até os fãs do Iron Maiden (que já veio 3742 vezes pro Brasil) acampam toda vez pra conseguir ficar na grade. Não tem nada de novo aí.

Mas o espírito "festa do peão" foi bem disseminado. Um amigo meu vai levar a mãe no Morumbi só porque ela quer ver do que se trata esse fuzuê. Ela conhece umas 5 músicas famosinhas, mas topou pagar R$100 num ingresso. Os VIPs também vão, mas de graça, porque os patrocinadores querem que os fãs os vejam. Ou querem que os fotógrafos os vejam com a camisa dos patrocinadores... É muita sofisticação, ave maria.

Cadê a música?
Não é ranzinzisse. A Madonna tem um monte de fã, é justo que ela lote o Morumbi. Mas trata-se de um evento de música onde o que menos interessa é a música. Ela é uma cantora e o que menos se falou nesses dias foi da voz dela (que não é mais a mesma). É a realidade do oba-oba de massa, da sociedade oca do espetáculo. Mesma coisa no rodeio. O peão de boiadeiro, dane-se. O que importa para a maioria é estar presente na "festa".

Se bem que o caso da Madonna é mais provinciano ainda. A "diva pop" (título que, pense bem, não quer dizer nada) pára o trânsito, fecha hotel, exige mundos e fundos e cobra um fortuna pra cantar "La Isla Bonita" e "Hung Up" e as pessoas vão em peso. E a mídia acha bonito.

É bom lembrar que o último CD dela nem é grande coisa. O "Back to Black" da Amy Winehouse (que, diga-se, canta mais que a Madonna) vendeu mais que o dobro que o "Hard Candy" esse ano.

Like a virgin
Por outro lado, há de se reconhecer. O show que vi da Madonna ano passado foi divertido, ela daria uma boa cheerleader.

A ressalva no tocante à apresentação da "diva" é só que você não sabe de onde vem o som. É tanta parafernália visual no palco que a banda fica em segundo plano (se é que a "banda" toca alguma coisa mesmo). E fica patente que ela usa um monte de playback durante o show inteiro. Mas quem for vê-la no Morumbi vai ter um "good time".

Minha indignação é apenas que não há nada que justifique o auê social e midiático em torno de uma cinquentenária que não faz mais as músicas que fazia nos anos 80 (quando ela tinha razão de ser).

E o fato de ter sobrado ingresso para todos os setores no segundo dia da turnê no Maraca prova que esse oba-oba é exagerado.

A primeira apresentação da Madonna em solo estrangeiro foi no Haçienda, em Manchester, Inglaterra. Tinha umas 200 pessoas lá em 1983. Foi histórico, não tinha puxa-saco, ela não era ainda um produto pop e fazia música do fundo da alma. Mal sabia ela que um dia iria transformar São Paulo e Rio numa Barretos.

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Reprodução
A primeira apresentação da Madonna em solo estrangeiro. Manchester, 1983

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