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Quarta, 24 de dezembro de 2008, 07h45

Diário de uma viagem ao Amazonas (XX, final)

José Cláudio
De Olinda (PE)

O banzeiro foi, ou melhor, está sendo, no trecho perto de Urucurituba, que agora estamos avistando de baixa.

Em Urucurituba o barranco é tão a pique que não dá para cavar degrau e se chega n'água descendo por uma escada de pedreiro.

O rabo de marolas que o Garbe vai deixando começa a avermelhar. Avoam as penas de arara do cocar da índia que deu o nome ao paraná da Eva. Aurorarara. Por cima do paraná e em toda a largura do Amazonas o sol remexe com a zangaia a sua caixa de tintas e lasca um céu cachorro-doido. O tucuxi mostra o lombo quase na ponta de um "V" deitado que o sol desenha no céu com lasca escarlate. Agora é um falso horizonte lilás esboçado por cima de frondosas... o quê? - não tenho no rol de quipagem árvores desse porte, do tamanho de uma maçaranduba que tinha no Cupe a mais, querendo fechar o mundo, como se fosse edifícios. O mastro da popa de Lindolpho ameaça com uma porrada.


Barcos no Rio Madeira. Desenho de José Cláudio, 1975

O barco ainda não desarmou e estou aproveitando a rede aqui debaixo da tolda nos intervalos do vexame causado pela bagagem. Já refiz as caixas três vezes deixando uma parte da Varig para ser enviada frete a pagar o belo dia em que o fiscal passar vistoria, e o resto enfiei no guarda-bagagem do aeroporto. Fora isso almocei no Hotel Amazonas: a comida é boa. Tinha uma mesa de frios com uma seção de peixes já agora velhos conhecidos que vi sendo pescados e tratados em cima da canoa: tucunaré, tambaqui, sardinha ticada, a bela pirarara. Para desenfastiar fiz pé num prato de peru, fatias de carne clara e escura e rodela de ananá. Arrematei com uma bolonhesa meio tola e um pedaço de mamão menos doce que o que comemos no barco. Agora Barra-Afora, o cozinheiro, está arengando mais uma vez com João, dizendo que João não prova que trabalhou em alto mar, que nunca saiu da lama, levando chuva aí pelos igarapés. Ontem de tarde quando já ia terminando de digerir o almoço, para cima e para baixo na operação bagagem, vi, numa travessa à esquerda de quem desce a Avenida Eduardo Ribeiro, debaixo de uma grande mangueira de tronco linheiro e grosso, umas mesinhas com panela e fiteiro de bolinho e o povo tomando tacacá. Eu comi um vatapá amazônico adubado com castanha de castanheiro, porque se a gente disser "castanha-do-pará" o amazonense diz: "Não, daqui mesmo". Não é por bairrismo, é que não conhecem o termo.

Por falar em tronco grosso me lembrei de uma foto que mostraram a Paulo de uma seringueira com doze homens de mãos dadas para abarcá-la. Era seringueira mesmo, não era sapopemba, um amigo dele estava na foto ou bateu-a.

Manaus é uma cidade tão agitada quanto o centro de São Paulo ou Recife.

Estamos deixando o porto de Manaus. O barco está procurando passagem entre as dezenas de barcos de madeira e navios e alvarengas que entopem o Rodo. Filomeno e Alonso correm pelo convés, de popa e proa, do Garbe para Lindolpho. A popa agora mostra o prédio da Alfândega que deste ângulo de dentro d'água vejo pela última vez. A lancha à qual estávamos atracados vai se distanciando. Estamos contornando a proa do navio "Celina". Tem uma balsa chamada "jacy". Vejo uma ponta de Manaus que pintei, São Raimundo. Agora é a proa do "Zuleika", de bela mastreaçã, e do outro lado um pequeno "Tuxaua II". Parece uma barcaça das que tinha no Recife no Cais de Santa Rita. O guindaste gira com uma tarrafona no bico. Passamos para o meio do rio. Eu vou deixando Manaus. Agora os " motor de recreio" na praia do Mercado. Tem um banzeiro a bombordo: a nosso favor, diz o mestre. Uma casa se chama "Credi-Motor". Passamos em revista dezenas de motores perfilados. Uma ponte com um caculo no meio por cima do igarapé. Cai água do deposito na capota do Garbe. Vem chegando o "Ideal I" cheio de gente. De que rio? Um trapiche oferece óleo, aberto dia e noite. Cada qual pinta o casebre como lhe apetece, em comum só as palafitas. Um bueiro polui. Motorezinhos sonhadores pintado da cor da ternura. Uma mangueirona nem tem medo de cair do barranco.

Tele. Do Amazonas S/A-TELEMAZON. Ficha N° 037. Despesa: 72,80. Telefonei de Manaus dizendo a Léo que chegava amanhã.

Assim que chegamos a Manaus, Paulo disse, Chica também, ele disse: "Bem, vou tratar da vida". Deve ter sido porque a viagem foi um sonho. Barra-Afora limpou tudo do rancho, até papel higiênico, e João quase ia às tapas com ele por causa de um resto de feijão. Alonso também foi para casa. Ficamos eu e Filomeno. Ainda deslumbrado por estar de volta ao Rodó debaixo da curva da marquise fantástica da proa dos navios grandes, olhando para os reflexos da água do Rio Negro, vi saírem dois corpos da lancha do "Selvatur". Mas vindos de outra lancha particular atracada ao lado da primeira. O chão do cais estava molhado e depositaram os corpos no chão, um dos quais conservava na rigidez da morte os gestos de desespero. A sola do pé sem sangue parecia a do mambira que Vanzolini esfolou. Uma moça bonita, muito comprida e loura, chorava com o corpo todo na sua nudez biquínica que o longo azul transparente deixava entrever. Queriam levá-la num carrão de luxo mais ela não quis. Sentou num banco, estava descalça, e só saiu depois que uma kombi da polícia apanhou os cadáveres. Foi assim que escureceu no Rodo no domingo da nossa chegada. No outro dia saiu o retrato de um deles num jornal numa página interna e uma chamada na primeira página: "Acidente mata Martins Lopes". Na coluna "Acontecendo": "Jonas Martins Lopes, empresário, dono do Hotel Martilopes, ex-presidente do Nacional Fast Clube em 1971 e 72, pessoa bem conceituada na sociedade amazonense, faleceu às últimas horas da tarde de ontem, vítima de afogamento. Jonas realizava um passeio de barco pelo Lago Janauacá, ocasião em que a pequena embarcação, não suportando o forte banzeiro produzido pela ventania, naufragou. Apesar de saber nadar, a vítima não teve chances, já que a corda que serve para amarrar a prancha ficou em volta de seu corpo, impedindo-o de esboçar qualquer reação. Jonas Martins Lopes deixou dois filhos, Jonas Martins Lopes Filho e Patrícia".

Ontem, voltando à noite no Lindolpho (terça-feira) porque viemos trazer Alonso, último dos manauras a deixar o Garbe, fiquei só de cueca, porque n'água é assim que se deve andar. E até de colete salva-vidas. (Alonso foi em casa mais voltou e seguiu conosco até o trapiche onde o Garbe encostou e ficou, no trapiche do INPA).Quando eu pisava na canoa, tirava logo a roupa, ficava só de calção, nem que o mosquito me comesse. Logo eu, que não sei nadar. Mas me lembrava sempre do pai do pintor Wellington Virgolino que me contou das vezes que se salvou e a outros contraditoriamente porque não sabia nadar. Sofreu nas duas guerras três atropelamentos nos seus cinqüenta anos de marinha mercante e uma infinidade de acidentes. Terminava as histórias com a frase: "E tudo porque não sabia nadar"...

Finalmente passei pelos fiscais da bagagem, refiz os pacotes a tempo depois de abertos pela fiscalização, paguei quinhentos cruzeiros de excesso por causa de telas, tintas, cavalete, torquês, espátulas, alicate de esticar tela, martelo, pincéis, ganchos, serrotes, tesoura, escopo, duas pedrinhas de amolar, um pauzinho não sei pra que, coisas que levei e trouxe e não sei pra que servem. Vanzolini disse a certa altura: "Sabe quando eu preparo uma viagem? Quando chego". Ele disse que quando chega, arruma as ferramentas, deixa tudo em ordem como se fosse sair de viagem. Só levo mesmo um reloginho, o mais barato que encontrei, para Maria, minha filha, umas blusinhas para Léo, minha mulher, e para sortear entre as sobrinhas, e uma barraca de acampar para Mané. Paulo perdeu o último cargueiro do ano e vai emplacar 76 em Manaus. Chica segue amanhã. Fim. De uma belíssima viagem. Isto devo a Paulo Emílio Vanzolini. Nós nos lembramos o tempo todo de Arnaldo Pedroso d'Horta.

***

Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em dezembro de 2007.


José Cláudio é pintor, autor dos livros Meu pai não viu minha glória e Bem dentro. Reside em Olinda.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
José Cláudio/Terra Magazine
Detalhe - Furo do Canumã, no Rio Madeira. Desenho de José Cláudio, 1975

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