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Quarta, 24 de dezembro de 2008, 08h33 Atualizada às 08h35

Correr

Amilcar Bettega
De Paris

Eu corro. Sou um amador, evidentemente. Não estou em busca de performances extraordinárias, nem mesmo procuro me superar numa espécie de luta íntima contra meus próprios limites. Simplificando, posso dizer que corro para sentir a extraordinária sensação de prazer que o corpo começa a sentir após uns quarenta ou cinqüenta minutos de marcha constante em torno de suaves 10 km/h, quando a sucessão de passadas adquire um ritmo próprio e o movimento parece se fazer sem esforço algum.

A impressão - falsa, evidentemente - é a de que se pode continuar a correr naquele ritmo indefinidamente. ou melhor, parece que é impossível, mesmo querendo, deixar de avançar, de lançar passada atrás de passada numa regularidade de máquina feita para comer distância. Há uma tal sincronia das passadas com o vaivém dos braços, os pequenos movimentos de rotação do tronco e os batimentos cardíacos, que o corpo inteiro torna-se prisioneiro do ritmo. A freqüência da repetição dos mesmos gestos, a cadência, a progressão das passadas como em uma série matemática, tudo isso misturado às descargas cada vez mais intensas de endorfina na corrente sangüínea tem a capacidade de nos transportar a um estado segundo. Então você já não corre mais, você plana, da mesma forma que seus pensamentos que produzem associações inusitadas, cada vez mais longe do ponto de partida ou daquilo que se apresenta à sua frente.

Associação não tão inusitada, e até mesmo um pouco gasta, o paralelo entre a corrida e a escrita ganha sentido quando a questão é o ritmo. Também durante a escrita de um texto - refiro-me a textos de ficção e razoavelmente longos - há um momento (pelo menos é desejável que haja) em que a frase ganha uma cadência, um certo impulso próprio que a tensiona e que a reinventa na próxima palavra e nas próximas frases. É o ponto a partir do qual o texto se auto-alimenta, cresce dele mesmo, quase sem esforço e independente do que o cérebro comanda.

Não, não é exatamente isso, o movimento da mão que faz a caneta deslizar contra o papel produzindo um agradável ruído no silêncio da tarde e levantando um odor de tinta que impregna as narinas, este movimento ainda é, evidentemente, reflexo de uma ordem emitida no cérebro. Mas à medida que a mão avança e que as palavras vão preenchendo a folha, essas novas palavras são imediatamente retomadas pelo cérebro que as associa a outras que logo são lançadas no papel por meio do movimento quase ininterrupto da mão fazendo avançar a caneta linha após linha. Outra vez a sincronia é perfeita, pensamento e ação, pensamento e tradução desse pensamento em palavras que avançam ao longo das páginas.

Coisa de alguns meses atrás, saiu na França um livro intitulado "Correr" que recria o mito de Emil Zatopek, a "locomotiva tcheca", o grande corredor de fundo que dominou a cena esportiva nos anos 50. Mesmo os que não se interessam em atletismo certamente já viram imagens de arquivo desta verdadeira lenda das pistas, seus sprints arrasadores fazendo os adversários tropeçarem nas pernas e acabarem estatelados no chão no esforço de persegui-lo (como na sensacional chegada dos 5000 metros das olimpíadas de Helsinque, em 1952).

O autor do livro é Jean Echenoz, até onde sei desconhecido no Brasil, mas senhor de uma significativa unanimidade no mundo literário francês, o tipo de escritor que é respeitado e admirado por todos, mesmo por aqueles que não gostam do que ele escreve mas que sabem reconhecer um grande escritor.

Echenoz não faz, evidentemente, esta associação entre corrida e escrita. Limita-se a contar da maneira mais simples e direta possível as proezas de Zatopek, desde seus começos como operário em uma fábrica de sapatos em Zlin até o declínio e a posterior purgação imposta pelo regime soviético por causa de sua simpatia às reformas que Dubcek tentava implantar para "desestanilizar" o país. É simplesmente antológica a cena que descreve Zatopek, já então lendário e nomeado lixeiro pelos novos dirigentes mais afinados com Moscou, sendo aclamado à passagem do caminhão do lixo nas ruas de Praga pelos moradores que o impediam de recolher as latas de detritos, levando-as eles mesmos até o caminhão.

Mas durante a leitura do livro, cuja fluidez é irresistível e nos faz percorrê-lo inteiro quase que de uma sentada, é impossível não pensar nesse paralelo entre os ritmos da corrida e da escrita. O estilo de Echenoz é límpido, de uma pureza exemplar. O que contrasta com a aparente falta de estilo do desengonçado Zatopek que só sabia avançar, que não suportava ver ninguém na frente dele.

Zatopek, três sílabas que traduzem à perfeição o avanço da locomotiva tcheca: a primeira com este som de "z", za, zás, que dá partida ao movimento, a segunda fazendo o motor engrenar e a terceira terminando num sonoro pec de faísca que emenda logo na próxima passada.

Za-to-pek, Za-to-pek, Za-to-pek, é o que ele ouve em julho de 1952 quando adentra o estádio olímpico de Helsinque para ganhar a maratona depois de, na mesma semana, levar o ouro nos 5.000 e nos 10.000 metros.

O público delira, Za-to-pek, Za-to-pek, Za-to-pek, a locomotiva avança. Mesmo após fecharmos o livro de Echenoz, o eco da sua leitura ainda ressona. Za-to-pek, Za-to-pek, Za-to-pek, num mesmo ritmo. Impossível deixar de associar corrida e escrita.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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