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Sábado, 27 de dezembro de 2008, 07h43 Atualizada às 19h23

Papo com Bruce Sterling, autor de "Tempo Fechado"

Divulgação
Bruce Sterling, um dos fundadores do Movimento  Cyberpunk  nos anos 80.
Bruce Sterling, um dos fundadores do Movimento Cyberpunk nos anos 80.

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Bruce Sterling, escritor de ficção científica e jornalista internacional, é com William Gibson um dos principais nomes do Movimento Cyberpunk, que ele ajudou a fundar na década de 1980.

O segundo romance de Bruce Sterling publicado no Brasil, Tempo Fechado ("Heavy Weather") foi lançado há poucas semanas pela Editora Devir, de São Paulo. Antes, ele havia aparecido no Brasil com Piratas de Dados ("Islands in the Net"), romance ganhador do Prêmio John W. Campbell em 1989, foi publicado no Brasil em 1991 pela Editora Aleph. Contos de sua autoria apareceram nas revistas Isaac Asimov Magazine e Quark (onde apareceu o seu primeiro trabalho premiado com um Hugo, a noveleta "Consertador de Bicicleta", de 1997).

Tempo Fechado é um movimentado romance ambientado num futuro em que a mudança climática que sofremos agora alterou as condições de vida da maioria da população da Terra.

Trechos desta entrevista apareceram na revista Sci-Fi News N.º 129.

Publicado originalmente em 1994, Tempo Fechado parece ser um livro verdadeiramente antecipatório quanto à mudança climática. Como você vê as transformações na compreensão geral quanto à mudança climática e ao aquecimento global, de lá para cá?
Bruce Sterling -
Coisas terríveis que os cientistas então apenas teorizavam, agora se tornaram fatos da vida real que a população em geral vem sofrendo. Infelizmente ainda estamos nos primeiros estágios dessa crise global. O pior do problema ainda está diante de nós.

Com Tempo Fechado você retirou a sensibilidade cyberpunk da mancha urbana e a jogou no mundo rural? Como situaria o romance dentro do conjunto de idéias e atitudes cyberpunks?
Considerando que Tempo Fechado é um romance sobre pessoas que caçam tornados, ele precisa acontecer numa área com um bocado de tornados. Não dá para caçar tornados no centro de Tóquio ou no eixo metropolitano Boston-Atlanta. Os caçadores de tornados tendem a ser um bando bastante grosseiro e rústico, e por isso compõem um elemento natural para um romance cyberpunk. E Tempo Fechado é definitivamente um romance cyberpunk; todos os personagens principais são rebeldes high-tech, subversivos e desajustados.

Tempo Fechado é, em sua maior parte, ambientado no Texas, o estado em que você nasceu. O que o motivou a empregar essa ambientação?
É uma ambientação fácil de alcançar. Como pesquisa para o livro eu realmente saí e cacei alguns tornados com uma equipe de televisão de Oklahoma. Não apanhei nenhum tornado, mas foi útil observar esse pessoal trabalhando.

Atormentado por uma doença respiratória crônica, Alex Unger parece ser um personagem bastante original, na ficção científica. Como ele foi criado?
O conjunto irmão e irmã no livro, que são os personagens detentores do ponto de vista narrativo, foram criados como uma dupla. Temos a irmã, Jane, que é passional, comprometida, energética e convicta no que faz, e temos o irmão mais novo, Alex, que é mais distanciado, cético e quase indiferente quanto à sua própria sobrevivência e à dos outros. Gosto de usar múltiplos pontos de vista nos livros. Acho que é importante brincar com as suposições e expectativas do leitor. O mesmo vale para os personagens: eles precisam ser desafiados, precisam ser mantidos na corda-bamba, precisam aprender coisas que não sabem, quando o livro começa.

Preocupações ambientais ou verdes também estão presentes no Movimento de Design Viridiano que você lançou. Conte-nos algo a respeito.
Acho que já fiz, com o Movimento Viridiano, tudo o que conseguiria fazer como um escritor de ficção científica. De fato, depois de dez anos de experiência com ele, terminei ensinando numa escola de design e escrevendo textos sobre design. Gostaria de poder dizer que o Movimento Viridiano evitou a crise climática ao estudá-la e ao elevar a consciência das pessoas a respeito do assunto, mas não conseguimos fazer isso. O design verde é atualmente uma idéia muito atraente e está na moda, e temos visto um bocado desse design aparecendo, mas ainda vamos sofrer com a crise. Por outro lado, tem sido agradável ver o Brasil tomar algumas decisões positivas em termos de política energética. O Brasil tem planícies de cana-de-açúcar e oceanos de álcool; cada vez que alguém se mete numa suja e sangrenta guerra por petróleo, os brasileiros devem dar risada.

Você poderia nos dar uma lista dos escritores favoritos de ficção científica da atualidade?
Gosto dos mesmos escritores de ficção científica de que sempre gostei, na maior parte já mortos. É extremamente importante para os escritores profissionais que eles leiam escritores mortos. Quanto mais e melhor você entende o seu próprio tempo e lugar, mais importante se torna desenvolver um alcance que se distancie deles. Hoje em dia minha tendência é de gastar muito tempo com escritores que escrevem em outras línguas do que o Inglês. Haruki Murakami, Ivan Pelevin, Orhan Pamuk.

Que caminhos os seus escritos estão tomando hoje?
Ainda estou escrevendo sobre o Efeito Estufa. A mudança climática tem aparecido em todos os meus romances de ficção científica. Houve um tempo em que ela era uma possibilidade, e agora é uma certeza. Meu novo romance, The Caryatids, é sobre uma sociedade mundial devastada pela mudança climática. Gosto de ser fantástico e imaginativo, mas luto mais é para ter uma postura honesta.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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