Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Paulo Costa Lima

Quinta, 1 de janeiro de 2009, 07h49

De Caju em Caju... até a Cajuína

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Meu sobrinho americano chegou com um livrinho feito especialmente para viajantes, trazendo palavras importantes em português e sua "explicação" em inglês. Qual não foi minha surpresa ao consultar o verbete do caju: fruta típica que tem o sabor entre a pêra e o limão, com um rim grudado encima...

Um rim? Quem no mundo poderia descrever um caju como algo meeiro entre pêra e limão, e ainda por cima achar que a castanha parece com um rim? Fiquei possesso. Mas agora, lendo o verbete "caju" do mestre Cascudo, descubro que a autoria dessa comparação esdrúxula (castanha com rim de ovelha) é de Georg Marcgrave¹ (1610-1648).

Marcgrave era alemão, das redondezas de Dresden, e produziu um valioso compêndio sobre a riqueza natural do Brasil, com dedicatória a Mauricio de Nassau, e ainda hoje uma importante referência para a descrição dos peixes brasileiros a partir da nomenclatura indígena. Consta que Nassau era apaixonado por caju. Baixou decreto protegendo os cajueiros e fez com que o doce em compota chegasse às melhores mesas da Europa.

Pois, se uma opinião escalafobética emitida em 1638, e impressa dez anos depois, ainda retorna nos dias de hoje em manuais para viajantes ao Brasil, o que dizer de toda a tralha que nos descreve e nos deforma ao longo dos séculos - de De Gaulle ao trem pagador?

Mas deixemos isso pra lá, pois essa não é uma crônica de apenas um caju. São vários. O nosso segundo caju está no próprio livro de Marcgrave, em sua belíssima ilustração-frontispício (que pode ser vista por inteiro em: http://research.amnh.org/ichthyology/neolit/Marcgr/marcgrave1.html).

O ilustrador apresenta o Brasil como uma espécie de paraíso na terra, onde a cornucópia da fartura jorra dos braços de sua divindade. Há um Adão e uma Eva indígenas postados de cada lado de um caminho de árvores frondosas. Índios dançando ao fundo, animais de todos os tipos. Mais acima, a presença da serpente confirma o cenário. E, certamente no lugar da maçã, do lado direito, um arbusto carregado de cajus.

Na composição imaginária dessa estampa o caju assume o lugar do fruto proibido. Essa visão reverbera o papel da fruta como ícone do Brasil e da gente brasileira.

A época do caju coincide com o final do ano, e talvez seu gosto característico ajude a estabelecer uma marca no ciclo do tempo, tal como as nódoas que deixa nas roupas. O próprio Marcgrave anota o costume indígena de guardar as castanhas como registro da idade. Até hoje, no Nordeste, ainda é possível ouvir alguém dizer que tem "quarenta cajus". Mas trata-se de um tempo tropical, diga-se de passagem.

Transposto para o mundo das palavras, esse travo de caju acaba remetendo ao travo cristalino da Cajuína - e, no caso da canção de Caetano, à incrível rede de rimas que teria tudo pra ser exagero e até mau gosto (embora lembre a tradição repetitiva dos repentes), mas que bem ao contrário, soa contida e refinada. Um bom exercício de composição seria explicar como esse aparente excesso se transforma em gesto necessário, mais do que rima - sina.

destina / pequenina / sina / ilumina / nordestina / fina / retina / cajuína, cristalina, Teresina

De onde se vê que a distância entre o caju e a metafísica é pouca - existirmos: a que será que se destina? - pergunta esse forró bissexto, cujo núcleo do traçado harmônico (a partir de rosa pequenina...) refaz em seqüência, quase a totalidade da progressão fundamental,

(i - I7 - iv - VII7 - III7 - VI - V - V7 - I7 - iv - V7 - i) em dó menor,

remetendo tanto à tradição de um Luiz Gonzaga como aos prelúdios de Bach, e aproveitando a riqueza do modo menor cuja ambigüidade absorve a Tônica maior para seus propósitos.

Se do lado harmônico a inevitabilidade vem desse jogo barroco-nordestino de encadeamento em quintas, do lado melódico ela surge da estrita simetria construída com os desenhos de terça. Esquecendo a repetição das notas, cada verso reúne uma terça descendente e outra ascendente , e todos juntos funcionam como uma corrente de elos melódicos deslizando sobre a harmonia.

Eis aí minha sugestão auditiva de Ano Novo - veja e ouça Cajuina no SeuTubo (não estranhe, lembre do rim de ovelha) -, com atenção especial para o solo de violoncelo de Jacques Morelembaum. Ora, quem nunca percebeu? O violoncelo é uma espécie de caju de madeira, um instrumento tropical capaz de absorver todas as ressonâncias do mundo (assim, ajustamos as contas com Marcgrave).

O solo de violoncelo absorve a melancolia cristalina da canção e convoca acentos de vários cantos para celebrar um passeio sonoro que é ao mesmo tempo circunspecto e viajandão:

- a articulação do arco imita a moda sertaneja (como se fosse o movimento de pescoço da Almira de Jackson do Pandeiro), brinca com intervalos que remetem a um certo parentesco entre Nordeste e Oriente, acolhe ritmos do xaxado, evoca seqüências em sétimas/sextas descendentes, desce até o dó grave (via réb trinado) e faz um arco de harmônicos sul ponticello até que finalmente enuncia a melodia da canção, a qual continua o jogo...


Do fruto proibido ao violoncelo-caju aprendemos que as questões humanas podem e devem ser enunciadas de qualquer ponto do planeta, especialmente de Teresina. Nunca cessaremos de nos traduzirmos uns aos outros, mesmo quando o tema é a intraduzibilidade da cultura ou da existência.

Na verdade, quanto ao caju, não precisa traduzir, basta morder.

__________________________________________________________________

¹Embora seja de Thevet (1558) a mais antiga descrição do caju, que para ele se assemelhava a ovos de pata (pode?)


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.
www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/

Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
Reprodução
Historia Naturalis Brasiliae, do alemão Georg Marcgrave

Exibir mapa ampliado

O que Paulo Costa Lima vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol