
Amilcar Bettega
De Paris
Era manhã feita quando a voz grossa e desconhecida se fez clara e quase tão real quanto o soldadinho de camisa azul que gastava tardes inteiras a defender o Forte do ataque apache. Poderia ser o sonho último da manhã, aquele que prende à cama quando o sol já vai alto, não fosse a insistência com que tornava a voz, entre gracejos discretos e a fala da mãe. O menino abriu os olhos e correu à porta. Da fresta, observou a figura do homem que nunca vira: pernas cruzadas, uma xícara de café na mão, o chapéu sobre o joelho. O rosto era enorme, os olhos fundos, um bigode fininho em cima do lábio. Sem perceber, ele imaginou-se no futuro: talvez um homem igual àquele. Voltou para a cama que dividia com a mãe e pensou nas perguntas sem respostas da sua vida diferente, nos únicos diálogos possíveis: se não com a mãe, só mesmo com o Comandante do Forte.
Ela entrou mudada, deu-lhe um beijo na testa e foi logo dizendo que não podia um gurizinho daquele tamanho dormir tanto assim. Abriu a janela e respirou fundo. À tarde, ela até cantou.
No outro dia não bastava observar de longe. O menino transpôs a porta e teve os olhos fundos em cima de si. Automaticamente desviou o olhar - ato vergonhoso, que a indagação do seu nome ofereceu a chance de corrigir. Olhos nos olhos, apresentou-se. Esticado o braço, sentiu a mãozinha nadar naquela outra imensa, grossa, pesada, quente. A mãe fez um riso mudo, a cabeça inclinada para o lado.
A tarde reservava um gosto original, o passeio a três. Mais ainda: entre a casa e o rio, a cidade atravessada passo a passo, em formação completa. Até na frente da casa do Zeca eles passariam. O Comandante do Forte não foi, tampouco houve ataque índio. O menino preferiu rolar na grama e tomar banho no rio. Falou só com a mãe, para pedir o bolinho de milho que ela trazia na bolsa. De resto, apenas escutou. Uma horinha chegou bem perto e tocou o músculo daquele braço. Era rijo como um moirão.
Naquela noite, da cama grande, habitual, ele foi para o sofá na sala - estava ficando mocinho, a mãe dissera. Não questionara. Há muito aceitava que as coisas fossem assim, como Deus queria. E Deus queria botar nos olhos dela aquele brilho de bolita nova.
Na cidade falavam de um tal "forasteiro". Ele ouvira quando entrava na padaria, mas o seu João cutucara o outro que estava de costas e dissera que o tempo era de chuva. Em casa, perguntou, a quem devia perguntar, sobre o significado da dita palavra. Ouviu o mesmo que ouvia há anos, uma só resposta servia a várias perguntas. Se não possuía aqueles ensinamentos tão importantes para se fazer um homem, seguia mesmo os maternos, até porque mãe nenhuma no mundo desejaria o mal do filho.
Certa manhã não quis tomar café na mesa. Abancou-se na poltrona - pernas cruzadas, a xícara na mão - e abriu o jornal com ares de interesse. O homem, sentado na outra poltrona, sorriu para a mãe. O menino tomou todo o café ali, sentado na poltrona, jornal no colo, diante dos dois.
As tardes ainda eram passadas no quarto, ele orquestrava tanto a investida dos índios quanto a defesa do Forte, e de vez em quando ouvia a voz grossa na sala. Não lembrava quem lhe ensinara brincar de Forte Apache. Os soldadinhos de plástico, os índios, cavalos, guaritas, as muralhas em madeira resinada, tudo já habitava uma caixa velha quando ele se apercebeu das coisas que o rodeavam, o quarto onde dormia, o espaço repartido no armário, as escovas espalhadas sobre o toucador, um cabide onde descansavam apenas xales e vestidos, a cama única. Foi sob o leito que descobriu a caixa, em pura ânsia investigatória. Ninguém ergueu-lhe a tampa com um sorriso. Ele próprio tirou as peças, arranjou casas e guaritas, dispôs o muramento em deduzido quadrado, separou brancos de peles-vermelhas, e começou uma história. Uma história pela metade. Onde faltavam nomes e rostos, e palavras ditas com a mão no ombro. Assim como, na sala, faltava a foto que vira na casa do Zeca: os noivos no sofá, os parentes sentados à volta. E faltavam também os cinzeiros, o porta-chapéus.
Pois no meio desse grande vazio aquele homem chegara, sentara na poltrona e lera o vespertino local - a xícara de café na mão. Assim fizera, dia após dia, até essa tarde em que o menino veio à porta e o viu de pé. À frente do homem, a mãe falava abafado e de cabeça baixa. Sobre o sofá, uma revista dobrada e o chapéu. E ao lado, encostada ao pano encardido da poltrona: a mala.
O menino sentiu um grito crescendo, uma sílaba, a primeira palavra de uma criança. Com o instinto e o ardor de todos os índios da América atirando-se às muralhas do Forte, ele partiu em corrida desabalada, agarrou-se às pernas do homem e começou a chorar.
Terra Magazine