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Quinta, 8 de janeiro de 2009, 13h47 Atualizada às 01h30

Havana para um Cabrera Defunto

Claudio Leal/Terra Magazine
Garotos brincam em Havana Velha, no retorno da escola. Esquina de um cortiço.
Garotos brincam em Havana Velha, no retorno da escola. Esquina de um cortiço.

Claudio Leal
De Havana, Cuba

Guillermo Cabrera Infante? O livreiro da Plaza de Armas, no centro de Havana, agita a cabeça, nervosamente, olhos faiscantes: "Não. Entenda: Esses autores não são publicados em Cuba...". Pedro Juan Gutiérrez? "Esse também não. Está fora", e o sexagenário e sagaz vendedor entreabre um sorriso. Confrontado com a permanência de Gutiérrez na capital cubana, completa o argumento. "Ele é um dissidente, pensa diferente do governo, você não acha nas livrarias. Nem aqui, veja".

O que há na quadrangular feira de livros é um mar calmo de Che Guevara, Fidel Castro, revolução e Ernest Hemingway, além dos toques de santería e mitologia. Dois dos mais eletrizantes autores cubanos contemporâneos estão fora das estantes. Com um detector de malícia, o livreiro continua: "Até que Cabrera, depois de morto... Ainda se acha, mas é difícil. Tenho um outro aqui, preste atenção: Leonardo Padura Fuentes". Oferece o livro "Adiós Hemingway & La cola de la Serpiente". "Olhe, são narrativas policiais, mas só na superfície. Percebeu? Vão além, vão além...", insinua.

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Os pensamentos mais desregrados ainda pedem Cabrera Infante, rememoram suas cravadas históricas na jugular dos revolucionários de 1959. Sente-se sua evocação do poeta Federico García Lorca, na porta do Hotel Inglaterra, paralisado com a chuva caribenha - a abertura das "cataratas do céu". Cabrera: o calor de seus libelos, os jogos verbais, o manejo irônico dos substantivos. O exilado e suas obsessões.

O autor de Três tristes tigres, Mea Cuba e Havana para um Infante Defunto, sepultado no exílio londrino, em 2005, continua a se contorcer na narrativa que vinga uma cidade perdida, arruinada e esvaziada em seus 40 anos de ausência. Defunta desde que partiu de Cuba, definitivamente, em 1965. Viera enterrar a mãe e renunciar às funções diplomáticas na Europa. Terminou preso. A última prisão.

HAVANA DEVE PURGAR

Revolucionário de primeira hora, rompeu com Fidel Castro logo nos primeiros gestos de censura à criação artística. Cerco à liberdade de pensamento que seu rival Gabriel García Márquez qualificou, em reportagem de 1975, como uma "valorização desmedida" da importância do artista no mundo. Condescendência fantástica com o regime cubano, merecedora de tamancadas de Cabrera, que apontou, no Nobel colombiano, o "candor que se confunde com cinismo".

No exílio, Havana se tornaria sua personagem permanente, tanto no jornalismo quanto na ficção. Denunciou o discurso de enaltecimento dos campesinos, que justificava o desprezo à cidade voluptuosa e prepotente dos cabarés. Havana devia provar o purgatório.

Atualmente, o Centro Histórico passa por um processo de restauração, turbinado pelo capital espanhol e coordenado pelo historiador Eusébio Leal, reconhecido como homem atuante na defesa do patrimônio habanero. Quando falta verba para reformar um casarão, recorre a escoras de madeiras que preservam os esqueletos das ruínas.

Apesar dos investimentos, Habana Vieja segue a reunir todas as contradições cubanas. Da segregação turística à diferença radical entre o estado de palacetes de ruas contíguas. Ao lado da charmosa calle Obispo, sobrevivem cortiços com suas fiações elétricas cruzadas e expostas.

ALMA NO VARAL

"Havana era uma redução poética de Cuba, uma metáfora. Nero incendiou Roma para reconstruí-la. Castro, quase César, transformou Havana numa ruína que agora restaura. O projeto de Nero era grandioso; os propósitos de Castro, miseráveis", fuzilou Cabrera Infante em 1988, num ataque considerado injusto por revolucionários ativos.

Para Cabrera, o bloqueio econômico e a penúria do País agravaram uma indiferença. "Castro não devia odiar Havana como Guevara odiava, mas as necessidades criadas por seu governo e o oportunismo com que se resolveram estes problemas foram mais visíveis em Havana". Isso não representou a perda da alma. A pobreza dos ocupantes de cortiços esconde camadas subcutâneas de malandragem e doçura.

Os moradores da cidade velha levantam seus varais nas janelas das ruas, não exatamente como fazem os portugueses de Alfama, em Lisboa; há um traço cubano na miséria dos panos rotos e simples, quase sem adornos, e nos gradis enferrujados. De idêntico, a liberdade de entregar as roupas íntimas aos olhares dos vizinhos.

"Uma cidade doente de colunas", definiu o novelista Alejo Carpentier, também ele alvo de dardos do inquieto Infante. Havana, ao amanhecer, lembra uma cidade devastada por guerras infindas. Doente de colunas. O sol caribenho forma um painel comovente de silhuetas arquitetônicas carcomidas. Os terraços têm a monotonia de paredes descascadas e de antenas televisivas tortas.

PORCO E SALSA

A alegria pode irromper em tratamentos alimentícios. Rua Consulado, 22 de dezembro. Três homens jogam um porco em cima de uma mesa de madeira, rente a um tonel de água fervente. Volumoso, o animal está morto, com retalhos ao longo do corpo. As crianças festejam o rito. Os cozinheiros jogam canecos de água quente sobre a pele do porco, para queimar os germes. Ali mesmo o cortam e cozinham.

Noutra rua da velha Havana, é possível ver a cabeça suína entre as borbulhas. Felizes com o prato de fim de ano, os donos da casa dançam uma salsa na via pública e até chamam os transeuntes para bailar. O sol ainda garante o brilho do sacrifício.

A escuridão se estende do centro histórico ao resto da capital. Postes vacilantes orientam, parcamente, os motoristas. Nem todos acreditam no racionamento de energia. "A Revolução mantém a cidade escura para provar que não há nenhuma relação entre segurança e luminosidade", ironiza um jornalista.

Apesar das luzes esparsas, a incidência de roubos é pequena, embora não tão ínfima como se supõe, segundo relatos de comerciantes. Os turistas devem segurar com firmeza suas máquinas fotográficas.

Outros pecados são camuflados pelo governo. Na noite do Natal de 2008, como se o espírito de Cabrera Infante caminhasse pelo Paseo del Prado, rumo à calle Zulueta, Havana deixa flutuar os ardis que driblam o discurso revolucionário. Raros vestígios de catolicismo nos tímidos enfeites das lojas, na rua Neptuno. Casais pobres olham vitrines de eletrodomésticos, bebem em movimento.

E NA ARCADA UMA CHICA

Com malha decente e chapéu rijo, o habanero oferece aos estrangeiros "caixas de puros" mais em conta, por 30 pesos. Sem sucesso na venda de charutos, apresenta sua casa como residência temporária. Quinze pesos. O fracasso inibe propostas altas e abre caminho para um pedido mais modesto: "Pague um mojito para seu irmão pobre".

Mesmo a música que sai dos cortiços, nos quais o Natal se esvazia dos remorsos cristãos e vira um passo de bolero, assume um tom melancólico na nudez das calçadas. "O 25 de dezembro não faz mais sentido para a gente. Minha geração, que está com 30 anos, foi formada pelo governo revolucionário. Tive uma educação atéia. Hoje, vou para casa dormir", relata um jovem taxista ao cortar o Malecón.

"Agora os lacônicos moram nela, e Havana tornou-se uma cidade-fantasma para turistas torpes", revolvem as palavras do defunto Cabrera Infante. Cenas de prostituição masculina e feminina se apresentam aos olhos ateus.

Nos bares, as mulheres podem se vender por um drinque. Mas é bem outra a que se vê nesse inferno natalino, sob uma arcada à margem do Paseo del Prado. O gigolô atravessa a rua. Terno apertado, gorducho, aborda turistas, sem peias: "Quer namorar esta chica?". Emoldurada em cachos castanhos, num cândido vestido de algodão puro, a garota negra desvia o olhar, lânguida e lacônica como a própria Havana.

 

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