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AP
Reservistas do exército israelense se reúnem antes de ofensiva na Faixa de Gaza
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Dina Lida Kinoshita e Moisés Storch*
Especial para Terra Magazine
O Oriente Médio é uma área estratégica no plano econômico, geopolítico e militar. Tem sido palco de disputas por hegemonia entre países da região, bem como entre potências mundiais.
É fonte de preocupação permanente em todo o planeta, pelo arsenal bélico - inclusive nuclear - que ali se encontra, sempre propício a conflagrações que podem fugir a qualquer momento ao controle político ou diplomático.
É neste contexto que o conflito palestino-israelense se enquadra e já perdura por mais de seis décadas. Um conflito extremamente complexo, melhor compreendido por uma seqüência de imagens do que por um instantâneo.
De todo modo, é bom frisar que nesse filme não há "bandidos" nem "mocinhos", embora setores da mídia e da esquerda mundial o mostrem e defendam de forma unilateral. Como na lógica definida por Bertrand Russell como "a crença na virtude dos oprimidos", acabam sendo exibidos com destaque apenas os fenômenos trágicos que ocorrem no lado palestino. Mas, as vítimas e os algozes estão nos dois lados.
Em 1947, uma resolução da recém-nascida ONU determinava a partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu. No ano seguinte, os judeus aceitaram-na e fundaram o Estado de Israel. Os árabes palestinos não aceitaram a divisão e, apoiados pelos exércitos dos países árabes vizinhos, atacaram o novo país que, numa guerra de sobrevivência, acabou expandindo as fronteiras, que foram estabilizadas em 1949, conforme linhas de armistício reconhecidas internacionalmente (a chamada Linha Verde).
No decorrer da Guerra Fria, as superpotências utilizaram todos os países da região como peões e, durante décadas, os países árabes - em unanimidade - recusaram-se a reconhecer o Estado de Israel, ameaçando elimina-lo pelas armas. As guerras foram se sucedendo e, em 1967, Israel ocupou a Cisjordânia, Gaza, as colinas de Golan, o Sinai e Jerusalém Oriental.
Na guerra do Yom Kipur, em 1973, Israel foi atacado de surpresa pelos vizinhos, e novamente conseguiu reverter o resultado, à custa de pesadas baixas. Mas, por outro lado, a vitória inicial do Egito devolveu ao líder Anwar el Sadat o orgulho e a grandeza de estadista de propor a Israel um tratado de paz em troca da devolução da península do Sinai. Foi a primeira quebra da frente de rejeição árabe à existência de Israel. Sadat pagou sua coragem com a vida: foi pouco tempo depois assassinado por membros da Irmandade Muçulmana. Mais tarde, também foram normalizadas as relações com a Jordânia.
Desligamento
No início dos anos 90, mediante os Acordos de Oslo, a OLP (Organização para Libertação da Palestina), sob o comando de Yasser Arafat, assinou com o primeiro-ministro Itzhak Rabin os acordos de Oslo, com reconhecimento mútuo entre Israel e a OLP e a definição de parâmetros para a futura criação de um Estado Palestino, a partir da evolução de uma Autoridade Nacional Palestina (ANP) com crescente autonomia e abrangência nos territórios de Gaza e Cisjordânia.
O acordo proporcionou de início uma rápida conciliação entre israelenses e palestinos, e a reaproximação de famílias árabes dos dois lados da Linha Verde. Mas uma série de falhas em seu detalhamento permitiu que os inimigos da paz, nos dois lados, o minassem.
De um lado, a expansão da construção de assentamentos judeus em território palestino prosseguiam e, do outro, atentados terroristas palestinos se multiplicavam, com homens-bomba explodindo ônibus, lanchonetes e qualquer tipo de aglomeração de pessoas em Israel.
O radicalismo cresceu ao ponto de o Rabin ser assassinado por um colono fanático, ao sair de um comício onde defendia os acordos de paz com os palestinos e a Síria em troca da devolução dos territórios conquistados em 1967. Seguiu-se um período de desesperança e violência, com a ascensão da direita em Israel, e a intensificação da violência palestina contra a ocupação.
Em 2005, Israel retirou-se da Faixa de Gaza, forçando os israelenses que ali viviam a abandonar seus assentamentos. Mas Ariel Sharon, ao invés de capitalizar politicamente os líderes moderados da Autoridade Palestina - dispostos a negociar o processo de paz com Israel - preferiu um "desligamento unilateral", o que acabou fortalecendo o grupo fundamentalista Hamas, que reivindicou a retirada como resultado da sua "luta armada".
Com este cacife eleitoral, e mais a bandeira de acabar com a corrupção administrativa da Fatah, o Hamas - que tem como objetivos declarado eliminar os judeus do "sagrado solo palestino" (o que inclui todo o Estado de Israel) - venceu as eleições parlamentares palestinas em 2006.
Inicialmente, houve alguma esperança de que o grupo, como havia feito a Fatah em Oslo, abandonaria a prática terrorista, uma vez que passava a ter a responsabilidade de governar cerca de 1,5 milhão de habitantes sem recursos e com complexas ligações geo-econômicas com Israel. Mas a sensatez não prevaleceu.
Hamas: prioridade é eliminar Israel
Apoiado pelo regime islamista do Irã - que tem reiterado publicamente a intenção de "varrer Israel do mapa", e não esconde sua intenção de desenvolver poder nuclear - o Hamas acabou expulsando da Faixa de Gaza os militantes da facção rival Fatah. Assumiu o controle absoluto e total do território e iniciou a implantação das leis fundamentalistas islâmicas em todos os aspectos da vida da população, redobrando as ações terroristas contra Israel.
A principal forma de terror, desde que uma cerca praticamente impedira o envio de homens-bomba para Israel, é a de lançar mísseis que atingem indistintamente áreas civis. A intensificação dessas ações e retaliações israelenses - que incluíram um crescente bloqueio físico e econômico do território - tem tornado cada vez mais intenso o sofrimento das populações em ambos os lados da fronteira.
Após uma trégua de seis meses intermediada pelor Egito, foram retomados em dezembro os ataques sistemáticos, com dezenas de foguetes lançados diariamente contra o sul de Israel.
A situação ficou insustentável, e o governo de Israel viu-se obrigado a reagir para defender o seu território e os seus cidadãos.
Decisão equivocada
No entanto, a ação israelense seguiu uma tática de guerra clássica, ineficaz no combate a uma espécie de guerrilha urbana que utiliza civis como "escudos humanos". É praticamente impossível atingir objetivos militares, sem causar importantes danos à população inocente, o que já determina uma derrota a priori de Israel, na "guerra da propaganda".
Assim, os intensos bombardeios por ar e mar e a invasão da Faixa de Gaza por soldados israelenses já causaram enormes perdas humanas e materiais, contribuindo para uma escalada da espiral do ressentimento, do ódio e da violência.
Da mesma forma que os foguetes Qassam lançados contra Israel, os bombardeiros da Faixa de Gaza estão semeando uma geração de pessoas que terão ódio do adversário com quem um dia terão que viver em paz.
Como já vem sendo demonstrado desde a Guerra do Vietnã, a via militar não está resolvendo mais nenhum conflito regional no mundo. Está claro para as grandes potências que uma guerra nuclear teria soma zero, sem vencedores. Por outra parte, a guerra clássica não tem condições de vencer táticas utilizadas por grupos terroristas como o Hamas e o grupo islâmico Hizbolá no Líbano.
A ação militar israelense está, surpreendentemente, repetindo o sangrento equívoco que semeou a destruição no Líbano há cerca de um ano, numa ação violenta que não trouxe qualquer sucesso palpável em termos de segurança no norte do país que justificasse as imensas perdas materiais, humanas nos dois lados. Sem falar na queda da simpatia a Israel na comunidade mundial.
Dois Estados já
É imperativo o cessar fogo imediato, com o fim dos bombardeios, a retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza e a retomada do diálogo.
A única solução para o drama que estamos assistindo no Oriente Médio é a de "DOIS ESTADOS PARA DOIS POVOS", concepção que já havia sido institucionalizada pela ONU em 1947, numa Assembléia Geral dirigida pelo Brasil. Um processo de paz deve levar rapidamente à criação do Estado da Palestina - ao lado do Estado de Israel - nos territórios de Gaza e Cisjordânia, sendo que Jerusalém sediaria ambas as capitais.
Cada gota a mais de sangue derramado leva ao fortalecimento de grupos fundamentalistas em todo o Oriente Médio, ao isolamento do Estado de Israel e também das lideranças políticas seculares da Autoridade Palestina.
Brasil pode ajudar
Um cessar-fogo é urgente, mas a atuação internacional é indispensável, primeiramente porque ambos os lados não se reconhecem. É essencial a participação do Egito, país árabe fronteiriço que tem relações com o Hamas e Israel.
O Brasil pode ter papel privilegiado nas articulações, pois conta com a simpatia dos povos israelense e palestino. A diplomacia brasileira apóia consistentemente o estabelecimento de um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel, desde a própria resolução da ONU que decidiu a partilha da Palestina. Em 1956, um batalhão do exército brasileiro fez parte das forças de manutenção paz da ONU em Gaza, após a guerra do Sinai.
A complexidade e importância estratégica do conflito exige a interferência de órgãos multilaterais e das grandes potências mundiais.
No vácuo da transição presidencial norte-americana, tem despontado a iniciativa da comunidade européia, com destaque ascendente da França.
Obama vai mudar?
Com a urgência de um cessar-fogo em Gaza, a questão israelense-palestina deverá conquistar uma grande prioridade, logo no primeiro dia do mandato de Barack Obama.
O governo Bush há tempos perdeu o poder de mediação com os palestinos, uma vez que sempre tendeu a se alinhar com a direita israelense. Sua política é também responsável pelo fortalecimento do Hamas e sua radicalização, na medida em que desperdiçou - com o governo israelense - a chance de apoiar a Fatah e o legítimo presidente da AP (Mahmoud Abbas), na melhoria das condições de vida dos palestinos e passos concretos para construção efetiva de um Estado Palestino, como a evacuação de assentamentos.
Espera-se que Obama vá efetivamente dinamizar a atuação diplomática dos EUA no Oriente Médio, empreendendo a saída do atoleiro criado por Bush na região. Com Hillary Clinton como Secretária de Estado, Obama trará uma equipe já experiente em negociações com israelenses e palestinos, com relações de confiança sólidas de elementos do governo da AP e do campo da paz israelense.
Uma atitude responsável do governo norte-americano seria Bush antecipar-se à posse de Obama e - à semelhança do ocorrido no auge da crise financeira americana - convidar o presidente eleito para atuar na questão. Juntos, enviariam uma delegação de alto-nível, comandada talvez pela Secretária de Estado Condoleezza Rice e sua sucessora nomeada, Hillary Clinton para atuar na mediação do conflito.
Do cessar-fogo para a paz
Antes de mais nada, é urgente acordar um cessar-fogo e atender à situação calamitosa da população de Gaza. Para isto, as fronteiras da Faixa de Gaza com o Egito deveriam ser abertas e guarnecidas por forças internacionais. Estas agilizariam a entrada e saída de ajuda humanitária, produtos e pessoas, impedindo a entrada de armamentos.
Restabelecida a calma, ficará novamente provado, ao custo de perdas humanas irrecuperáveis, que não existe solução militar para o conflito israelense-palestino.
O reinício de negociações entre a Autoridade Palestina e Israel, para criação de um Estado Palestino, deverá ocorrer o quanto antes, se possível aproveitando o momento da posse do novo governo americano e da mobilização internacional em torno do conflito de Gaza.
A paz definitiva deverá ocorrer, mediante negociações para o estabelecimento de um Estado Palestino, ao lado do Estado de Israel, incluindo os territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, tendo Jerusalém Oriental como capital.
Caso haja um esforço diplomático consistente, poderemos ainda assistir a uma rápida retomada do processo de paz no Oriente Médio.
A criação de um Estado Palestino em paz com Israel teria o potencial de transformar aquela região explosiva num foco de progresso econômico e social, neutralizando o avanço do islamismo fundamentalista.
Observação: Milhares de israelenses convocados pelo Movimento Paz Agora protestaram diante do Ministéria da Defesa em Tel Aviv na noite de sábado, exigindo um cessar-fogo imediato. Para ver imagens do protesto, veja o link http://www.youtube.com/watch?v=DfwYXC15Oe8
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