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Quarta, 14 de janeiro de 2009, 08h31

Sustentabilidade, moda ou compromisso

Jaime Lerner
De Curitiba

Todos querem o rótulo da sustentabilidade - bancos, carros, matreriais de construção como o concreto, lojas; e mostram índices de sustentabilidade que jamais foram conferidos. Prefeitos de cidades americanas anunciam que são a favor do Protocolo de Kyoto, mas não se sabe o que realmente estão fazendo em suas próprias cidades para amenizar o câmbio climático.

Bandas de rock se propõem a compensar a energia gasta em seus shows, atrizes e celebridades arvoram-se como heróis da sustentabilidade. Nada contra a intenção, o fato de querer ser sustentável. Querer ajudar em relação ao câmbio climático importa muito. Mas entusiasmo não basta, o que é importante é saber o que realmente ajuda.

Muitos pensam que a sustentabilidade se alcança com novos materiais, ou ainda com "green buildings", com novas formas de energia e com reciclagem. Tudo isso é igualmente importante, mas não o suficiente. O que todos temos que entender é onde podemos ser mais efetivos.

É importante saber que 75% das emissões de carbono se originam nas cidades, logo, é na concepção e na atuação das cidades que podemos ser mais efetivos. E começar com as crianças; se elas souberem antes o que os adultos já deveriam saber hoje seria um grande passo. A "convenient start", isto é: ao invés da Inconvenient truth mostrada por Al Gore, a resposta imediata onde todos deveriam assumir alguns compromissos que seriam essenciais não só para a sua cidade, mas para todo o planeta.

Existem compromissos que cabem aos governos, mas é você que pode mudar paradigmas. Juntos, esses esforços fazem a diferença.

Primeiro, usar menos o seu carro. Isso não quer dizer não usar o carro, mas quando se tratar de deslocamentos de rotina, usar o transporte público. Claro que para isso as cidades tem que oferecer, de imediato, transporte público de qualidade.

Segundo: separar o lixo da sua casa. O lixo reciclável representa uma poupança de energia considerável, afinal, uma de nossas maiores fontes de energia é o desperdício.

O governo pode, alem da coleta seletiva, incentivar e criar programas simples de reciclagem. Iniciativas como a troca de lixo por cestas básicas ou material escolar muda a vida de pessoas que moram em áreas onde a coleta não pode ser realizada.

Terceiro: viver mais perto do trabalho ou trazer o trabalho mais perto de sua casa. As cidades devem também, através de políticas de uso do solo, estabelecer a mistura urbana de funções, mistura de renda, misturas que possibilitem a ida da moradia mais perto dos centros urbanos.

Quarto: existem regiões altamente equipadas de uma cidade que não deveriam ficar vazias durante 16 horas por dia. Ou ainda, grandes construções, arenas, estádios, que são usadas pouco mais de 10 vezes por ano. Esses equipamentos e regiões poderiam ter diferentes usos durante as 24 horas.

Temos que entender que a sustentabilidade é uma relação entre o que se poupa e o que se desperdiça. Se você desperdiçar menos, a sustentabilidade cresce.

Por último, sair da perplexidade e dos rótulos que não dizem nada.

Jaime Lerner, arquiteto e urbanista, foi três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná. É consultor de urbanismo da ONU e presidiu a União Internacional de Arquitetos (UIA), sediada em Paris.

Fale com Jaime Lerner: jaime_lerner@terra.com.br

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Marcelo Pereira/Terra
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