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Quarta, 14 de janeiro de 2009, 08h30 Atualizada às 09h43

Desafios de Obama: Iraque, Paquistão e Afeganistão

Noam Chomsky
Do The New York Times Syndicate

A diplomacia é a única alternativa sã ao ciclo de violência que vai do Oriente Médio até a Ásia Central e que ameaça engolir o mundo. Uma conclusão é o reconhecimento de que violência somente gera violência. Também ajudaria se a administração Obama e o Ocidente enfrentassem os problemas imprevistos que movem a política na região.

Iraque

O governo do Iraque cunhou um Acordo de Situação das Forças, relutantemente aceito por Washington, que visa a acabar com a presença militar americana. O SOFA é a etapa mais recente em um processo de resistência de massas não violenta que levou Washington, passo a passo, a concordar com eleições e ampliou a independência do país ocupado.

Um porta-voz iraquiano disse que o SOFA provisório "é compatível com a visão do presidente eleito americano Barack Obama". A visão de Obama não é anunciada claramente, mas ele provavelmente concordaria de algum modo com as demandas do governo iraquiano. Caso assim seja, isso exigiria uma alteração dos planos dos EUA para assegurar o controle dos enormes recursos petrolíferos do Iraque, enquanto que bases seriam estabelecidas para reforçar o domínio sobre a maior região produtora de energia do mundo.

Vale notar que pesquisas mundiais recentes mostram forte oposição a bases navais americanas no Golfo. A oposição é particularmente forte na região.

A perspectiva de transferir as forças do Iraque para o Afeganistão evoca uma lição dos editores do Washington Post: "Ainda que os EUA tenham interesse em evitar o ressurgimento do Talibã afegão, a importância estratégica do país nem se compara àquela do Iraque, o qual se situa no centro geopolítico do Oriente Médio e contém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo". Trata-se de um reconhecimento da realidade muito bem vindo, já que os pretextos sobre segurança e promoção da democracia não conseguem mais ocultar os verdadeiros interesses e intenções.

O comando da OTAN também passou a reconhecer as cruciais questões energéticas. Em junho de 2007, o secretário geral da OTAN, Jaap de Hoop Scheffer, informou em um encontro dos membros que a "as tropas da OTAN têm de proteger os dutos que transportam o petróleo e gás que são destinados ao Ocidente" e, de maneira mais geral, proteger as rotas marítimas utilizadas por navios petroleiros e outras "infraestruturas cruciais" do sistema energético.

A tarefa presumivelmente inclui o gasoduto TAPI, com projeção de 7,6 bilhões de dólares, o qual levaria gás natural do Turcomenistão até o Paquistão e Índia, passando através da província de Kandahar no Afeganistão, onde tropas canadenses estão estacionadas. O objetivo é "bloquear um gasoduto rival que traria gás para o Paquistão e Índia a partir do Irã" e "reduzir a dominação russa sobre as exportações energéticas da Ásia Central", relatou o Globe and Mail (Toronto), delineando plausivelmente alguns dos contornos do novo "Grande Jogo" (quando Grã-Bretanha e Rússia competiam para influenciar a Ásia Central durante o século 19).

Paquistão

Obama deu seu aval à política de Bush de atacar líderes suspeitos de pertencerem à Al-Qaida em países que não foram invadidos (ainda) pelos EUA. Em particular, ele não criticou os ataques aéreos por drones Predador que mataram vários civis no Paquistão.

Neste mesmo momento, uma furiosa mini-guerra está sendo travada na zona tribal de Bajaur no Paquistão, próxima ao Afeganistão. A BBC descreve a ampla destruição oriunda do intenso combate: "Muitos em Bajaur traçam as origens da revolta a um ataque que se suspeita ser de um míssil americano contra um seminário islâmico, ou madrassa, em novembro de 2006, o qual matou cerca de 80 pessoas".

O ataque foi noticiado na grande impressa paquistanesa pelo altamente respeitado físico dissidente Pervez Hoodbhoy, mas ignorado nos Estados Unidos. As coisas com freqüência parecem diferentes no outro lado do porrete.

Hoodbhoy observou que o resultado costumeiro de tais ataques "tem sido casas arrasadas, mortos e crianças mutiladas, e uma crescente população local que busca vingança contra o Paquistão e os EUA". Bajaur hoje talvez exemplifique o ciclo já conhecido o qual Obama não mostra sinais de interromper.

Em 3 de novembro, o General David Petraeus, recém nomeado chefe do Comando Central Americano que abrange o Oriente Médio, teve seu primeiro encontro com o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, o chefe do exército, General Ashfaq Parvez Kayani, e outros oficiais.

Sua principal preocupação: "os contínuos ataques com drones contra nosso território, os quais resultam em perda de vidas preciosas e propriedade, são contraproducentes e difíceis de ser explicados por um governo democraticamente eleito", Zardari disse a Petraeus. Seu governo, afirmou ele, está "sob pressão para reagir mais agressivamente" aos ataques. Estes poderiam levar a "uma reação violenta contra os EUA", já profundamente impopular no Paquistão.

Patraeus disse que havia ouvido a mensagem e que "nós teríamos de levar em consideração (a opinião paquistanesa)" ao atacar o país - uma necessidade prática, sem dúvida, já que mais de 80 por cento dos suprimentos para a guerra dos EUA- OTAN no Afeganistão passam pelo Paquistão.

A maneira pela qual a opinião paquistanesa foi "levada em consideração" foi revelada duas semanas mais tarde no Washington Post, o qual relatou que os EUA e o Paquistão chegaram a "um acordo tácito em setembro (2008) sobre uma política de boca fechada (don't ask- don't tell) que permite que aviões Predator sem piloto ataquem alvos suspeitos de terrorismo" no Paquistão, de acordo com oficiais não identificados de alto escalão de ambos os países. "Os oficiais descreveram o acordo como um acordo em que o governo americano recusa-se a reconhecer publicamente as ofensivas, enquanto que o governo paquistanês continua a queixar-se ruidosamente dos ataques politicamente delicados".

Um dia antes de o relato sobre o "acordo tácito" ter aparecido, um atentado suicida nas áreas tribais conflitadas matou oito soldados paquistaneses - retaliação a um ataque de um drone Predator que matara 20 pessoas, inclusive dois líderes do Talibã. O parlamento paquistanês chamou o Talibã para o diálogo. Fazendo eco à resolução, o ministro paquistanês das relações exteriores Shah Mehmood Qureshi disse, "há uma percepção crescente de que o uso exclusivo da força não consegue produzir os resultados desejados".

Afeganistão

A primeira mensagem do presidente afegão Hamid Karzai ao presidente eleito Obama foi bastante semelhante àquela entregue a Petraeus pelos líderes paquistaneses: "acabem com os ataques aéreos americanos que geram risco de baixas civis". Sua mensagem foi enviada logo após as tropas da coalizão terem bombardeado uma festa de casamento na província de Kandahar, matando 40 pessoas conforme relatado. Não há indicação de que sua opinião tenha sido "levada em consideração".

O comando britânico alerta que não há uma solução militar para o conflito no Afeganistão e que terá de haver negociações com o Talibã, arriscando um desacordo com os EUA, noticia o Financial Times. As questões já estão sobre a mesa, escreve Jason Burke, um correspondente do Observer com longa experiência na região: "o Talibã está participando de conversas secretas sobre o fim do conflito no Afeganistão em um amplo "processo de paz" patrocinado pela Arábia Saudita e apoiado pela Grã-Bretanha".

Alguns ativistas afegãos pela paz têm reservas a respeito dessa abordagem, preferindo uma solução sem interferência estrangeira. Uma crescente rede de ativistas pela paz vem fazendo apelos por negociações e pela reconciliação com o Talibã na Jirga pela Paz Nacional, uma grande assembléia de afegãos formada em maio de 2008.

Em um encontro em maio em apoio à Jirga, 3.000 políticos e intelectuais afegãos, principalmente pashtuns, o maior grupo étnico, criticaram "a campanha militar internacional contra militantes islâmicos no Afeganistão e fizeram um apelo ao diálogo para pôr fim à luta", noticiou a agência France-Presse.

O presidente interino da Jirga pela Paz Nacional, Bakhtar Aminzai, "disse no encontro de abertura que o atual conflito não pode ser resolvido por meios militares e que somente o diálogo poderá trazer uma solução".

Um líder da Awakened Youth of Afghanistan, um proeminente grupo antiguerra, disse que devemos acabar com o "afeganicídio - o assassinato do Afeganistão".

Fazer uma pesquisa de opinião no Afeganistão dilacerado pela guerra é difícil, mas os resultados merecem atenção. Uma pesquisa de opinião realizada por canadenses constatou que os afegãos são a favor da presença de tropas canadenses e de outras tropas estrangeiras - o resultado que saiu nas manchetes no Canadá. Outros achados sugerem ressalvas.

Apenas 20 por cento dos afegãos na pesquisa "crêem que o Talibã prevalecerá quando as tropas estrangeiras forem embora". Três quartos apóiam negociações entre o governo de Karsai e o Talibã e mais da metade é a favor de um governo de coalizão. A grande maioria, portanto, discorda fortemente do enfoque dos EUA e da OTAN em uma maior militarização do conflito e parece acreditar que a paz é possível com uma guinada em direção a meios pacíficos.

Um estudo dos soldados rasos do Talibã pelo Globe and Mail, embora não sendo uma pesquisa científica como aponta o jornal, ainda assim produziu um insight considerável. Todos eram pashtuns afegãos da área de Kandahar. Eles descrevem a si mesmos como mujahedin, seguindo a antiga tradição de expulsar invasores estrangeiros. Quase um terço relatou que ao menos um familiar havia morrido em bombardeios aéreos nos últimos anos. Muitos disseram que estavam lutando para defender os habitantes dos vilarejos afegãos contra os ataques aéreos das forças estrangeiras. Poucos alegaram estar travando uma jihad global ou ser leais ao líder talibã mulá Omar. A maioria percebia a si mesmos lutando por princípios - por um governo islâmico - não por um líder.

Mais uma vez, esses resultados sugerem possibilidades de um acordo de paz negociado, sem interferência estrangeira.

Na Foreign Affairs, Barnett Rubin e Ahmed Rashid recomendam que a estratégica americana na região deveria passar de mais tropas e ataques no Paquistão para uma "grande barganha diplomática - criando um compromisso com os insurgentes, enquanto que aborda uma série de rivalidades e inseguranças regionais".

O atual enfoque militar "e o terrorismo correspondente", alertam eles, poderão levar ao colapso de um Paquistão armado nuclearmente, com sombrias conseqüências. Eles insistem que a próxima administração americana "ponha fim à dinâmica cada vez mais destrutiva do Grande Jogo na região" através de negociações que reconheçam os interesses das partes interessadas dentro do Afeganistão, bem como no Paquistão e Irã, mas também na Índia, China e Rússia, os quais "têm ressalvas em relação a uma base da OTAN dentro de suas esferas de influência" e às ameaças "apresentadas pelos EUA e pela OTAN", bem como pela Al-Qaida e Talibã.

O próximo presidente americano, escrevem eles, deve acabar com "a ânsia de Washington pela 'vitória' como a solução para todos os problemas e a relutância dos EUA em envolver rivais, oponentes ou inimigos na diplomacia".

Já de início, em diversos pontos da zona de perigo, a administração Obama poderia agir para interromper o nefasto ciclo de violência.


Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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