
Amilcar Bettega
De Paris
Manoelito sofria de acabrunhamento. Passava as tardes na solitude do rio, largando flor de corticeira correnteza afora. A mãe não dizia nada. O pai balançava a cabeça, estrépito: "esse não tem serventia".
É sabido, nessas bandas daqui, que todo guri tem a idade da molecagem, das galinhas, das ovelhas, mas nunca Manoelito se prestou pra esse tipo de bulimento. Mais tarde, houve até um falatório. Que o rapaz era estranho, que não bebia no salão, não visitava as "tias", essas coisas.
Naquele tempo, mesmo o nosso povo que vivia no redor das estâncias, no trabalho bruto, tinha decência e se esbaldava na fartura. A turma farreava era tirando um pra courinho. Manoelito.
Certo dia um forasteiro apareceu na vila. Viajado de muita lonjura, o homem carregava um caderno de versos - pelo olhar e pelas palavras, se via que era gente de conhecimento. O homem pediu pouso. Comeu, bebeu e proseou com o Manoelito até de madrugada. De manhã o rapaz encarou o pai:
- Eu vou com o moço.
- Tu fica que tu é da terra - respondeu o velho.
O guri retrucou, e o pai, fazendo jus à brabeza afamada, desceu-lhe a mão no costado do ouvido. E foi logo lhe encaroçando o lombo a relhaço, pra que aprendesse duma vez como as coisas eram, como foram sempre.
À noite, de tanta dor nas feridas, não houve modo do rapaz dormir, faltava paz no seu corpo, e mais ainda na alma. Estava era cortado por dentro e, naquela madrugada mesmo, já uma casca de silêncio começou a empedrar no seu peito. Antes do sol vir, o rapaz pegou a estrada. O pai acordou com a mulher se lamuriando sobre a cama do filho. Com voz de tumba, ele disse que mandaria rezar uma missa.
O tempo foi tirano com nosso povo. Rarearam a plata, a comida e o trabalho. A vida se tornou dificultosa e na vila amontoou-se uma piazada remelenta que dava nojo, um mulherio debalde e muito marmanjo na flor dos anos. Aumentaram a vadiagem, as bebedeiras sem cabimento. Por fim, como que até o chão se abriu e o deserto cresceu onde antes verdeava o pasto.
Passamos a viver nessa penúria, meio que esquecidos do mundo. Nem viajante se achegava. Por isso estranhamos a vinda daquele homem com porte de senhor doutor. Mas foi só o bicho prosear e já sentimos orgulho de ouvir o jeito da nossa fala na boca de gente tão apessoada. Era Manoelito, sim, e dava gosto de ver: homem feito, vencedor na vida.
Ele olhava pros lados, queria saber do povo, da casa e, num baque da voz, perguntou pela mãe e o pai - as vistas aguadas. Lhe dissemos que a velha era finada, mas que o pai continuava lá, naquele casebrinho desconjuntado, a caminho do rio.
Descemos a rua em direção à maloquinha, um bando de ranhentos de atrás. Na cadeira de balanço, o velho mascava o palheiro. O doutor se quedou na porta, enquanto uma cuscada invadiu a peça. Meio assustado com o alvoroço, o velhote indagou de nós. Também foi com tremedeira na fala que lhe contamos do filho - o doutor era de novo o guri, ajoelhado aos pés do pai.
Porém, fazia horas a cegueira do velho não lhe deixava ver nada. Ele abriu aquele um riso de caveira, tossindo já seus últimos catarros, e disse:
- Filho meu não era desse povo e morreu faz tempo, não prestava. E essa minguação toda deve ser praga daquele infeliz. Até a terra tá negaceando.
Deu foi uma dó em nós. Manoelito ali, arriado, escutando. Que teimosura a daquele velho. Que cegação. Parecia que nem a morte lhe matava.
Manoelito não disse nada, ele ia embora de novo.
E a gente continuava aqui. A gente é que continuava aqui. Como se o tempo não tivesse findado.
Aí foi dando foi uma dó de nós.
Terra Magazine