
Tony Monti
De São Paulo

A escritora Clarice Lispector
Toda segunda-feira, nós nos encontramos em um bar para lermos textos de um de nós. Alguns dias antes, por e-mail, o escolhido envia as páginas a serem comentadas na segunda. No bar, quem não jantou pede um lanche. Às vezes alguém chama uma cerveja enquanto contamos e ouvimos as novidades. Depois começamos a falar mal do texto do dia.
Em geral, as discussões têm dois momentos: os comentários específicos, referentes às frases, à escolha vocabular; e os genéricos, referentes às grandes estruturas do texto. Nesta segunda parte, com freqüência surge algum impasse. Se a solução aparece rápido, nenhum problema. Se nos demoramos em uma discussão tensa sem que cheguemos a conclusão definitiva, costumo sugerir que talvez o impasse, e não a superação dele, é que seja o caminho do texto.
Pouco depois de acordar, hoje, quando sentei em frente ao computador para escrever minha coluna, arrisquei seguir por três ou quatro caminhos que eu tinha anotado em guardanapos nos últimos dias. Nenhum deles me pareceu bom. Escrevi meia dúzia de primeiras frases antes de decidir que hoje não seria dia de caminhos, mas de becos sem saída.
Não sei sobre o que escrever, meu humor parece não aprovar a ação, apenas a reflexão. Eu apago as afirmações, parecem todas precipitadas. Fica difícil sair do lugar porque não consigo me agarrar a uma escolha sem questioná-la. Sim, não é muito animador. Lembro de uma sensação semelhante, quando, há poucos anos, começava a ler e reler A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector) para meu mestrado. Eu ficava angustiado com aquelas 180 páginas que não saíam do lugar, que se moviam um pouco em um "sim" mas voltavam à mesma indefinição, logo em seguida, no "não".
Muito do que a Clarice escreveu, tenho a impressão, é sobre impasses. A dúvida é o princípio de boa parte da literatura de que eu gosto. A possibilidade de contar uma aporia me fascina. Nesse aspecto, este tipo de texto é exatamente o contrário da história do heroi atrás de um objeto. Ou, no máximo, é o momento anterior à ação, no qual o heroi se debate em um caos de vontades e impossibilidades na tentativa de se afirmar como sujeito, de acumular as habilidades necessárias para sua missão.
Aliás, um dos sentidos de "paixão", do título do livro da Clarice, é um certo contrário de "ação". Paixão é algo que afeta o indivíduo, que vem de fora. Paixão é ausência de controle, é quando o que é feito de nós não está sujeito às nossas vontades e escolhas. No caso do heroi, pode ser o momento em que ele (ainda) não se considera apto à sua tarefa. Esse é talvez um modo de formalizar uma diferença entre dois tipos de literatura, a da ação e a da paixão.
Para não parecer afirmativo demais quanto às diferenças, é importante fazer a ressalva de que a literatura da paixão é em certo aspecto falsa. Não me parece simples o fato de uma pessoa escrever 180 páginas de texto bastante organizado para dizer que não consegue organizar um pensamento. Clarice Lispector e outros bons escritores sabem disso, sabem que o bom retrato da desordem é feito de escolhas precisas.
Por outro lado, a literatura da ação também esconde algo. A clareza nas escolhas visíveis (que faz os acontecimentos fluírem) constroi a obra como um edifício bem acabado, do qual já foram retirados os andaimes e as telas de proteção. Então, a escolha literária - que poderia estar em mostrar ou esconder os rascunhos e as estruturas auxiliares ao texto - passa a ser fingir (ou não) que o que se diz é mais (ou menos) caótico e pulsante que um texto organizado e bem cuidado. Disso pode-se concluir que, talvez, eu tenha pensado por muito tempo em escrever sobre a dúvida (e que dizer que escrevi este texto porque não consegui escrever outro seja, não uma solução simples, resultante de um impasse, mas uma estratégia complexa para, enquanto me movimento leve, fingir a inércia da hesitação).
Fale com Tony Monti: tony.monti@terra.com.br
Terra Magazine