Terra Magazine

 

Terça, 27 de janeiro de 2009, 07h58

Rousseau - abismo entre o céu e o inferno

Fernando Rego
In memoriam

Escrever confissões é separar vidas. De um lado, o confessando, e do outro, o confessor, existências que discrepam. Mas, em Rousseau, a escrita confessional é, ao mesmo tempo, uma tentativa de aproximação e ruptura com o outro, e um exercício retórico através do qual dirige-se ao leitor ideal, Deus. Escrever confissões é tarefa ingrata porque é necessário ao escritor saber dosar o que pode ser dito com o que deve omitir, a costura invisível do texto.


Fazendo uso desses artifícios, Rousseau busca despertar o leitor e atraí-lo para o centro de sua ardilosa teia onde habita o seu eu:


- Somente eu conheço meu coração e conheço os homens. Não sou da mesma massa daquelas com que lidei, ouso crer que não sou feito como os outros. Mesmo que não tenha maior mérito, pelo menos sou diferente. Se a natureza fez bem ou mal quando quebrou a forma em que me moldou, é o que poderão julgar somente depois que me tiverem lido.


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Acreditando e alardeando seu autoconhecimento, Rousseau exige uma leitura positiva de sua obra, já que ele sofreu pela verdade e a ela dedicou sua vida.


O lamento de Jean-Jacques Rousseau é a forma de mostrar a tranquilidade de um mortal infeliz e o fim de uma existência pessoal que tornou impossível com a de Deus. Jean Starobinski diz com propriedade: "Rousseau enterneceu-se ao som do próprio lamento". É com ardil e dramaticidade que Jean-Jacques aproxima-se do leitor: "Como seria doce viver entre nós, se a atitude exterior fosse sempre a imagem das disposições do coração".


Todavia, não devem ser levadas a sério certas afirmações de Rousseau. É por ele mesmo reconhecido que existem momentos nos quais predomina o delírio. Por isso, é perigoso julgar um homem só por suas ações. Desde que esse homem seja Rousseau, deve-se acrescentar. Sem dúvida, algo de taciturno perpassa as Confissões, mas não chega a anular os momentos de um humor ferino. Ao comentar, por exemplo, os livros obscenos: "Qualquer bela senhora por aí os acha incômodos porque não se pode lê-los senão com uma mão".


Em outro momento relata o assédio por ele sofrido em um convento onde se recolheu, por interesse, dizendo converter-se ao cristianismo: "Jamais vi um homem em semelhante estado; mas se somos assim junto às mulheres, é preciso que elas tenham os olhos bem fascinados para não sentirem horror por nós".


Ocorrências - reais ou imaginárias - levam Rousseau a acreditar-se um estrangeiro entre os homens: "Tudo o que me é exterior me é estranho doravante. Já não tenho neste mundo nem próximo, nem semelhantes, nem irmãos. Estou na Terra como em um planeta estrangeiro no qual teria caído daquele que habitava". No entanto, esse que se sentia estrangeiro viveu intensamente em torno da opinião dos outros, perseguindo o próprio reconhecimento e, ao mesmo tempo, transformando sua misantropia em sucesso. O verdadeiro solitário não faz alarde de sua condição porque escolheu ser o único e assim fluir a eternidade de sua vida finita. Não necessita de espelho do outro para desenhar sua existência. Rousseau, ao contrário, busca seu igual, seu semelhante, aquele que o reconheça e, não o encontrando, lamenta-se:


- Por que, tendo encontrado tanta gente bondosa quando moço, encontro-as em tão pequeno número numa idade avançada? Ter-se-ia extinguido a raça? Não, mas a ordem pela qual preciso procurá-las hoje não é mais a mesma que usava então.


É inconcebível em um anacoreta tal lamúria, de vez que o silêncio é seu segredo. A descoberta do mundo e de si é feita por Rousseau, através dos livros: "Não sei como aprendi a ler, lembro-me somente das minhas primeiras leituras e do efeito que me produziram: é o tempo de onde começa a contar sem interrupção a consciência de mim mesmo". Essa descoberta da infância talvez seja o fundamento de sua crença no poder persuasivo do discurso que nasce do coração, do íntimo do ser, razão pela qual ilumina aquele que o acolhe. Nos possuidores e possuídos pela verdade que brota do coração, as atitudes exteriores igualam-se às interiores, o oculto inexiste. As subjetividades então podem comunicar-se.


As Confissões, acima de tudo, demonstram, exaustivamente, erros cometidos pelo outro. Erros que induziram e levaram Rousseau a um comportamento distinto de sua pureza interior. Motivos os mais diversos fazem Rousseau abandonar seus cinco filhos aos cuidados de um orfanato logo ao nascerem e, em nenhum momento sente-se culpado por ter agido dessa maneira. Argumenta Rousseau que procurou o que lhe parecia o melhor para as crianças. Por não entenderem sua atitude pedagógica, seus inimigos, dizia Rousseau, buscavam denegrir sua imagem, acusando-o de vil e desalmado. Todos, de uma maneira ou de outra, desejam atingi-lo porque não aceitam sua habilidade:


- Minha habilidade era a de dizer verdades úteis aos homens, mas verdades duras, com bastante energia e coragem era preciso manter-me nesta linha.


Nos Devaneios do Caminhante Solitário Rousseau afirma na quinta caminhada:


- Tudo vive num fluxo contínuo na Terra: nela, nada conserva uma forma constante e definitiva, e nossas afeições, que se apegam às coisas exteriores, passam e se transformam necessariamente como elas. Sempre à nossa frente ou atrás de nós lembram o passado, que não mais existe ou antecipam o futuro que, muitas vezes, não deverá existir: nada há de sólido a que o coração se possa apegar.


Já que o fluxo contínuo tem sua presença marcante na Terra, o ideal seria que os momentos prazenteiros se tornassem eternos, imóveis. Só assim poder-se-ia exauri-los e alcançar o êxtase da alma, a paz interior, que não deve ser associada ao silêncio absoluto, à morte.


Rousseau, por sentir-se confortável junto às mulheres, gravita em torno delas. Sucessos e frustrações acompanham seus assédios. Dentre elas, uma se destaca, por dedicar-se aos homens, a Sra. Warens. A ela deve Rousseau a descoberta da prática sexual e o burilamento de seu espírito: "... Nunca a moral toda de um pedagogo equivalerá à tagarelice afetuosa e terna duma mulher sensata por quem sentimos afeição".


A Sra. Warens preparou o jovem Rousseau para sociedade dos salões. Já Thérèse, com a qual conviveu em seu período de maturidade e velhice, e que foi a mãe dos seus cinco filhos, era destituída de certas delicadezas, mas possuía qualidades como governanta: "Possuindo-a, sentia que ela ainda me faltava: e só a idéia de que eu não era tudo para ela fazia com que ela se tornasse quase nada para mim". À sua maneira, Rousseau, a uma e a outra mostra sua gratidão e afeto. No décimo devaneio, inconcluso, Rousseau celebra os momentos de felicidade junto à Sra. Warens, um bonito exercício introverso para aplacar os achaques da velhice e da doença.


As Confissões revelam um homem sem grande nobreza, sem grande vileza, com profundo medo de ser mau, corroído por contradições - as mais diversas -, de intenso poder criador, e que viveu grande parte da vida perambulando em estado de semidependência, mas nunca aceitou a dependência com gratidão. Um homem que, talvez, fosse menos perturbado, houvesse seguido o conselho que lhe foi dado por uma cortesã em Veneza: deixar as mulheres e estudar a matemática.


Em janeiro de 1911, o ensaísta e polemista Karl Kraus, ao analisar o censo demográfico de Viena, disse: "... Viena tem 2.030.834 habitantes, ou seja, 2.030.833 almas e eu". O mesmo poderia ser dito por Rousseau em sua época. O comportamento incomum, as críticas sociais e políticas fizeram que muitos aceitassem sem a devida apreciação o dito de seu companheiro Diderot: "Rousseau é um grande abismo entre o céu e o inferno". Rousseau constrói e defende nas Confissões uma lógica das emoções para se contrapor à razão crítica que solaparia e destruiria o sagrado e que, por esta razão, transformaria o homem em um "animal depravado", incapaz de compreender as verdades que brotam do coração... enfim, as verdades ditas e vividas por Rousseau:


- Quanto a mim, declaro em alta voz e sem receio: quem quer que, mesmo sem ter lido as minhas obras, examinar com os seus próprios olhos o que eu sou naturalmente, examinar o meu caráter, meus costumes, minhas inclinações, meus prazeres, meus hábitos e puder ainda assim julgar-me um homem desonesto, é um homem que deve ser suprimido.


No fim das contas, o que Rousseau reivindica é o reconhecimento de seu eu pelo outro. Uma obstinação que faz das Confissões um mundo fechado, insubstituível, que só a ele pertence e a mais ninguém. E, ao mesmo tempo, é uma vitória sobre a fugacidade das coisas; sobre a morte. As Confissões não despertaram comoções nas almas. Em torno delas surgiu o silêncio, a recusa. Por não conseguir reconhecimento, mais uma vez Rousseau recolhe-se em busca de forças para um novo ataque. Começa então a redigir Os Devaneios do Caminhante Solitário e neles leva ao paroxismo seus temas prediletos: o sentimento de ser perseguido e de ser sozinho na Terra. Mas a morte não permite que ele conclua a grande "ópera" - a história de sua solidão.



Fernando Rego, baiano de Salvador, foi filósofo. Deu aulas na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia por 25 anos. Seus ensaios compõem o livro História Noturna da Filosofia (2006, Quarteto Editora).

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