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Quarta, 28 de janeiro de 2009, 08h11

Luxo alternativo

Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)

A Semana da Alta Costura de Paris, o evento mais glamoroso de toda temporada de lançamentos de moda, termina nesta semana com uma certeza: a crise econômica mundial já abala o consumo de bens de luxo, ou pelo menos, o torna mais vigilante e precavido.

É verdade que o evento, apesar de denominado "semana" já se resumia a quatro dias de desfiles e exposições e nesta temporada de Primavera-Verão 2009, tem programada apenas três dias de atividades. É verdade também que há muito já se anuncia, ou pelo menos se questiona, o fim do sistema de moda que categoriza as criações e os designers, e dão à alta costura, o topo da pirâmide.

Na temporada passada (julho 2008), foram 27 apresentações, sendo 23 desfiles. Nesta semana de janeiro de 2009, há na programação oficial apenas 23 eventos, sendo que muitos deles não são desfiles tradicionais: três são apresentações fechadas com hora marcada e pelo menos quatro são exposições.

Sem considerar a crise, já é possível traçar uma tendência: cada vez mais os costureiros adotam propostas de lançamento de coleções à margem do calendário oficial. Esse fato reforça a tese que o modelo baseado em estações do ano já não condiz com o terceiro milênio, seja pelas tecnologias disponíveis, seja pelos efeitos climáticos decorrentes do aquecimento do planeta.

Para se ter uma idéia, ainda hoje há status diferenciado para se fazer parte da Fédération Française de La Couture, a instituição responsável pelos eventos de moda na França, e pela classificação dos designers em couturier (costureiro, em francês) para aqueles que praticam a alta costura, e créateurs de moda (criador de moda, em francês), para aqueles que apenas apresentam coleções Prêt-a-Porter.

Embora as grandes marcas de renome internacional como Dior, Chanel, Christian Lacroix, Givenchy, Jean Paul Gaultier e Valentino tenham confirmado a presença em grande estilo, as pequenas maisons têm optado por modelos alternativos. Por um lado, essa "desobediência" ao modelo tradicional pode trazer benefícios para a busca de novos formatos para eventos de lançamentos de moda, não se esquecendo que a alta costura sempre foi vista como o espaço "laboratório de criação". Ou seja, a inovação supera o orçamento.

A irreverente marca inglesa Boudicca, membro convidado da Fédération Française de La Couture, já há duas temporadas apresenta desfiles virtuais na internet. Segundo Zowie Broach e Brian Kirkby, os designers por trás da marca, a alta costura é muito mais ampla do resumi-la a um desfile. Para esta temporada, a dupla trabalhou uma série de sonhos usando o papel como suporte. Algumas declarações parecem ser mais sinceras, como a de Anne Valérie Hash, um dos nomes emergentes na alta costura francesa. Ela declarou sua ausência no calendário oficial de desfiles por questões econômicas, visto que é necessário um orçamento superior a cem mil euros (cerca de 300 mil reais) para a realização de um desfile.

Segundo a designer, sua prioridade foi manter os empregos e salários de sua equipe em dia e usufruir de um espaço cedido pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da França: a Galerie de Valois, no Palais Royal de Paris. Desde 19 de dezembro do ano passado e até o próximo dia 9 de março, através das vitrines da famosa arcada, é possível apreciar parte de suas criações.

Mesmo grandes marcas como Chanel, que nas outras temporadas apresentou sua coleção no imponente Grand Palais, optou por um espaço menor e mais próximo da sua sede histórica na Rue Cambon, embora declare que a mudança não foi por medida de economia, e sim devido à incompatibilidade de agenda do Grand Palais. De qualquer forma, a empresa declarou que a turnê mundial da Mobile Art, um projeto inovador que une arte à mobilidade, está suspensa por conta da crise econômica mundial.

Só pra lembrar, uma crise nada mais é do que um ajuste. E quando o cinto aperta, as soluções simples e inovadoras tendem a emergir, mesmo que por questões de sobrevivência. Como conseqüência, as melhores idéias se tornam tendências.

O momento, portanto, exige antenas ligadas. A sugestão da semana? Fique de olho!

Maria Alice Rocha é doutora em moda pela University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br

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Reuters
Modelo cai na passarela durante desfile do estilista alemão Karl Lagerfeld para a grife Chanel, em Paris

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