
Atualizada às 08h45 |
José Cruz/Agência Brasil
O ex-presidente José Sarney "não só lia, ou lê, como escreve romances...", diz Sírio Possenti
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Sírio Possenti
De Campinas (SP)
O mote para o primeiro dos comentários que faço hoje pode ser de novo a reforma (o acordo) ortográfica. Mas não falo dele, falo de um tema lateral. É mais ou menos incrível que a preocupação da "sociedade" seja sempre - e apenas - com as alternativas postas pelas diversas legislações: se um acento vai ou não continuar, se o trema cai ou não, se se grafa com ou sem hífen, se com ou sem "h" etc.
Uma das preocupações dos que comentam essas regras são seus possíveis efeitos na escola. Até parece que todos os alunos estavam escrevendo auto-estrada e auto-retrato, e, pobres deles, agora que tinham aprendido, precisam aprender de novo, porque, a partir do começo do ano, o correto é escrever autoestrada e autorretrado.
Convenhamos que o verdadeiro, ou o maior, problema da escrita na escola não é este, ou raramente é. Os problemas - no plural - de escrita na escola, mesmo se reduzidos à grafia, são de outras ordens. Há mais problemas do tipo escrever causa por calça e mau por mal e vice-versa do que de escrever vôo ou voo.
Querem ver? Considerem a seguinte ocorrência no Painel, seção do jornal Folha de S. Paulo, em 24/01/2229. Uma das notas diz que o presidente da Vale carrega por baixo da camisa uma correntinha com um "olho turco", amuleto que "espanta mal olhado"... Sim, mal olhado, com "l". Quem por acaso escrever causa parecerá bem menos sábio (todos ririam dele), mas o "u" final na primeira sílaba decorre exatamente da mesma razão que levou o jornalista a escrever mal por mau, só que invertendo os dados. É a "instabilidade" da relação som / letra num caso bem específico: em final de sílaba, se o som é u, pode-se ter dúvidas legítimas sobre escrever com "u" ou com "l". O "s" que começa a segunda sílaba de calça (na grafia causa) vai por conta do fato de que às vezes o som s se grafa com "s" mesmo.
Ora, esses fatos, estreitamente ligados à variação das pronúncias do português, nunca são diretamente encarados pelos livros didáticos ou pela "sociedade". No entanto, constituem bem mais de metade dos erros ortográficos, pelo menos nos primeiros anos da escola, e persistem entre os menos "letrados". É só ver as "placas"...
É claro que os acordos ortográficos não se dedicam diretamente a esses temas, mas isso mostra que as definições legais resolvem apenas pequena parte dos problemas de escrita, mesmo se reduzida à grafia, repito, e que essa questão, na escola, não pode escamotear as decorrências do fato muito relevante da variação linguística.
Deveríamos aceitar que a escrita não é apenas um recurso que deve ser utilizado correta e uniformemente por todos, para que haja um lugar de estabilização da língua, com as nobilíssimas finalidades que todos sabemos que essa ferramenta tem. A escrita é também um recurso que se pode explorar, exatamente como se exploram outros recursos da língua, até mesmo para "fazer estilo".
Se pensássemos assim, veríamos com outros olhos também os "erros" mais ou menos evidentes, como grafar de forma peculiar a palavra "afrodisíaco", após uma análise que tenta descobrir o sentido dessa palavra desconhecida, o que pode levar à grafia "a flôr de zíaco" (isso anda pela Internet). Tão interessantes quanto casos assim, são as sacadas certamente intencionais, como ocorre no aforismo de Millôr Fernandes, a pior dor é a dor de olvido (escrito assim mesmo, com "l", inesperadamente)...
Às vezes, ler jornais não só não atiça a azia, como produz peculiar prazer. Foi o caso, por exemplo, do final da coluna de Jânio de Freitas no dia seguinte à posse de Obama. Era mais ou menos assim: e para que tanta segurança, se o Bush escapou fácil?
No Caderno MAIS! (Folha de S. Paulo) de domingo, 25/01/2009, o psicanalista Renato Mezan dedicou um texto a defender a tese de que, se Lula lesse, faria outras análises, teria outra sensibilidade etc.
Claro. Óbvio. Óbvio ululante. Mas não está na hora de mudar de assunto, de parar de chover no molhado? Também se poderia dizer que, se Mezan fosse mais lacaniano, diria coisas mais interessantes e agudas. Outros diriam ainda que, se paulistas (intelectuais e políticos) fossem menos paulistas e mais mineiros ou mais nortistas ou mais nordestinos, ou se tivessem amassado mais barro, teriam outra sensibilidade ou outra compreensão do Brasil.
Lula certamente é, para a leitura (de romances, de ensaios filosóficos, de Nietzsche ou de Bobbio ou de Kafka, Dickens e Baudelaire), uma causa perdida. Não adianta chorar sobre o leite derramado. A pergunta não é mais por que Lula não lê, mas por que intelectuais não encontram outro viés para tratar desse tópico que não seja repetindo o lugar comum: se ele lesse, seria mais sensível (seria como eles...), compreenderia que Battisti é um terrorista (seria como a Globo ou a sábia turma do Berlusconi), não nomearia candidatos do PT derrotados em eleições (nomearia um Alckmin) etc.
Está mais chato do que Lula dizendo "nunca antes nesse país". E lembra um pouco piadas de japonês: como não há nada neles para reprovar, considerados os valores dominantes, fala-se de uma suposta característica física...
Ora, eu também lamento que todo mundo fale de língua sem ler nada de linguística, ou tendo lido só o Saussure das apostilas, mas o que é que se há de fazer? E não lamento isso em sindicalistas, mas em jornalistas, literatos e cientistas "humanos", cujo trabalho gira centralmente em torno da linguagem.
Outra coisa: o Sarney não só lia, ou lê, como escreve romances...
O Correio Popular, jornal de Campinas, publicou no dia 11.01.2009, reportagem interessante sobre dois compositores da cidade, Denis Brean e Oswaldo Guilherme, que compuseram músicas importantes, uma celebrizada por Maysa (a minissérie estava no ar). A primeira página do caderno C apresenta a dupla e conta histórias sobre seu trabalho. Avisa que a matéria continua na pág. 6. O leitor vai lá e se depara com a seguinte manchete: DA UNIÃO DE DOIS CAMPINEIROS NASCEU CLÁSSICOS.
Tudo bem. A posposição do sujeito (clássicos) é a variável que explica o verbo fique no singular (nasceu). A forma está se tornando cada vez mais comum, quase categórica. Mas, e se fosse o Lula? Ahn?
Cada torcedor é livre para ter as preferências que quiser. As minhas são que o Brasil ganhe Copas do Mundo e que o Corinthians ganhe a Taça S. Paulo de Futebol Júnior. E a Libertadores? Pra mim, Libertadores é coisa de argentino.
Terra Magazine