Terra Magazine

 

Quinta, 29 de janeiro de 2009, 14h02 Atualizada às 16h17

Protógenes: HDs na CIA fragilizam investigação

Marcela Rocha
Especial para Terra Magazine

Na segunda parte da entrevista a Terra Magazine (confira aqui a primeira), o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz fala sobre o envio dos HDs de Daniel Dantas à Agência Central de Inteligência norte-americana, a CIA.

Para Queiroz, a entrega dos discos rígidos dos computadores apreendidos na Operação Satiagraha "fragiliza muito as investigações". Explica:

- Um dos principais bancos dos EUA, o City Group, participou dessa fraude no Brasil. Mas acredito que não tiveram outra saída (enviar as provas à CIA), haja vista que o sistema brasileiro de inteligência foi desmontado de maneira insana e irresponsável.

Veja também:
» Dantas já desviou quase US$ 16 bi, diz Protógenes
» Opine aqui sobre a operação Satiagraha da Polícia Federal
» Satiagraha: governo bloqueia US$ 2 bi enviados ao exterior
» De Grandis: Bloqueio derruba tese de Dantas

A justiça brasileira pediu ajuda aos Estados Unidos para descriptografar discos rígidos apreendidos. Com essa medida, diz Protógenes, "tentam retardar o processo investigativo, e ele requer velocidade". Questiona:

- Será que nós, no Brasil, somos incapazes mesmo?

O delegado critica o andamento de dois inquéritos abertos. Um em Brasília, sobre a legitimidade das interceptações telefônicas feitas durante a operação Satiagraha. O outro em São Paulo, sobre vazamento de informação sigilosa da operação.

- Até agora o único andamento foi a busca e apreensão que eu e meus familiares sofremos. (...) Mas quero ressaltar que ainda não apareceu nenhuma confirmação de grampo.

Protógenes Queiroz conta que a investigação sobre sua atuação na Satiagraha foi iniciada pela PF e segue "num ritmo bem acelerado, disponibilizando recursos e material humano. Porém, até agora, não fui ouvido, chamado para depor", diz. "Pedi várias vezes para ser ouvido", revela.

Para o delegado, o recente vazamento de relatórios oficiais da operação precisa ser investigado. "Existe um documento oficial e alguém entregou. Então, quem elaborou os relatórios, o mesmo que investiga, é o primeiro suspeito".

Adianta que, "caso não tenham sido instauradas investigações sobre esses três vazamentos", irá representar, "junto ao MP, a requisição da instauração de inquérito policial".


Após ter sido vítima do que considera um atentado, Protógenes Queiroz vai a São Paulo para tratamento
(Foto: Marcela Rocha/Terra Magazine)



Protógenes está afastado de suas atividades por licença médica. Dia 15 de janeiro houve uma explosão no painel de seu carro que esguichou água fervente e ácida sobre seu corpo. Ele acredita ter sido vítima de um atentado por sofrer vigilâncias, pressões e ameaças durante e depois da operação Satiagraha.

O delegado revela que, quando retomar suas atividades, passará a atuar na coordenação de segurança responsável por sem-terra, índios e segurança de dignitários, ministros e presidente da República - a Coordenação Geral de Defesa Institucional (CGDI). "Fiz um concurso para delegado federal, onde não se pode escolher com o que trabalhar".

Enquanto se recupera do que considera ter sido um atentado, aproveita o tempo livre para retomar algumas práticas do dia-a-dia. Terra Magazine pergunta:

- O que está fazendo agora?

- Lendo.

- O quê?

- A corporação, Caso Telecom Itália e Gomorra que conta a história da máfia italiana Camorra.

Confira a entrevista:

Terra Magazine - A Polícia Federal não tinha condições de abrir os discos rígidos aqui, no Brasil? Era necessário mandá-los para CIA nos Estados Unidos?
Protógenes Queiroz -
Eu entendo que, ao enviar os discos rígidos para a CIA, antecipam-se informações às autoridades estrangeiras. Isto pode trazer graves conseqüências à investigação. Haveria necessidade de pedir apoio? Sim, mas nesse momento as autoridades brasileiras deveriam enviar técnicos daqui para acompanhar o trabalho que está sendo realizado nos EUA. Até porque um dos principais bancos dos EUA, o City Group, participou dessa fraude no Brasil. Assim, fragilizam muito as investigações. Mas acredito que não tiveram outra saída, haja vista que o sistema brasileiro de inteligência foi desmontado de maneira insana e irresponsável. Desmontou-se todo o sistema de inteligência do departamento de PF, o qual poderia estar trabalhando para descriptografar esses discos rígidos. Eu mesmo, ao longo da operação, consegui obter algumas informações assim. Por que pedir auxílio e dizer que, no Brasil, não há como fazer isso? Na minha avaliação isso tudo é conseqüência do mesmo processo que vivi lá. Tentam retardar o processo investigativo, e ele requer velocidade. Tenho a certeza de que os colegas estão dando o melhor de si para acelerar a operação, mas o establishment impôs a ordem de desmontar uma estrutura (tecnológica e de recursos humanos) que poderia ser útil ao País, caso lhes dessem condições. Será que nós, no Brasil, somos incapazes mesmo? Não existe tecnologia capaz disto aqui? Acredito que existe sim, veja os centros de tecnologia da USP, UFRJ, UnB. Mas o Estado não disponibiliza o aparato necessário à PF. Sem saída, tiveram que recorrer.

Como está o andamento do inquérito sobre vazamentos? Aquele que entrou com uma representação para investigar a sua saída e a cúpula da PF.
Até agora o único andamento foi a busca e apreensão que eu e meus familiares sofremos.

Refiro-me à representação para investigar a cúpula da PF...
Entrei com a representação para abrir uma investigação logo depois da deflagração da operação. Está em andamento e corre em segredo de justiça. Acredito que os colegas da procuradoria logo darão uma resposta. A investigação que a PF iniciou contra mim seguiu num ritmo bem acelerado, disponibilizando recursos e material humano. Porém, até agora, não fui ouvido, chamado para depor. Pedi várias vezes para ser ouvido e me respondem que o serei no momento oportuno. O que é interessante é que já houve três vazamentos dessa investigação contra mim e cadê a providência que a PF tem que tomar em relação a vazamentos? Eu quero saber das providências. Foram três vazamentos seguidos, quero saber das três novas investigações distintas, pois são fatos distintos. Se foram instauradas e estão em sigilo, ok. Mas por que, quando instauraram uma contra mim, deram notícia, publicidade? Por que nesses vazamentos da investigação contra mim não deram publicidade nenhuma, caso haja investigações sobre? Então, estou coletando informações com os meus advogados para que, caso não tenham sido instauradas investigações sobre esses três vazamentos, vou representar, junto ao MP, a requisição da instauração de inquérito policial. E é evidente que não fui eu nem ninguém da minha equipe que vazou.

Por quê?
Porque estão estampando documentos O-FI-CI-AIS da operação em jornais. O jornal O Estado de S. Paulo publicou um documento oficial da Polícia Federal. Cadê o documento oficial vazado da Operação Satiagraha? Não existe. Estão me acusando de vazamento? Então cadê os documentos oficiais publicados na imprensa? A única coisa que a imprensa publicou foi o vazamento dentro da PF em abril e não apuram nada. Instauraram inquérito contra mim dizendo que houve vazamento no dia da execução da operação. Vazou algum relatório da PF enquanto eu estava coordenando a operação? Algum órgão de imprensa publicou algum relatório de inteligência? Não. E a estrutura do Estado funcionou para se voltar contra mim. E não funciona para investigar três vazamentos sucessivos de dados oficiais da operação Satiagraha. São dados de backup da operação. Tem que existir backup, mas hoje estão sendo divulgados pela imprensa. Quem vazou? Eu não fui. Eu não produzi aqueles relatórios que a imprensa está publicando. Quem produz é quem investiga atualmente. Ou seja, as pessoas que estão ME investigando atualmente são as que precisam prestar contas sobre os vazamentos.

Na nossa outra conversa, quando falava em vazamentos, se referia à "cúpula". Quem é a cúpula? Sabemos que acima do senhor tinha, na área de Inteligência, o Sr. Daniel Lorenz, diretor de Inteligência, e seu diretor, e o Sr. Luis Fernando, diretor geral. É a eles que se refere?
Sim, eles são os meus superiores hierárquicos. Mas não serei leviano de apontar ninguém, porque até então os indícios não são ainda sólidos o suficiente para dizer que Fulano ou Sicrano vazou para o jornalista ou jornal. É como o vazamento da investigação sobre o vazamento. Existe um documento oficial e alguém entregou. Então, quem elaborou os relatórios, o mesmo que investiga, é o primeiro suspeito. Não posso apontar, mas já encaminhei dados suficientes ao Ministério Público Federal para que julguem quem é mesmo o responsável pelos vazamentos.

Com o avanço das investigações da PF em Brasília (sobre o suposto grampo no STF) e da PF em São Paulo (sobre o vazamento), não há confirmação (inclusive analisando seus computadores) de um grampo contra Gilmar Mendes. Como o senhor acha que isso vai se desenrolar?
O inquérito do grampo sobre o ministro Gilmar Mendes encerra agora em fevereiro, pelo que tenho acompanhado, via imprensa. Vamos aguardar. Mas quero ressaltar que ainda não apareceu nenhuma confirmação de grampo.

Até quando vai ficar afastado? Voltará a trabalhar na mesma área?
Estou de licença médica. Mas acredito que só até fevereiro. Em março retorno às atividades na PF. Fui informado por telefone pelo Dr. Fontel, diretor executivo, que eu estaria lotado, no início, na coordenação de defesa institucional, na CGDI. É a coordenação responsável por sem-terra, índios e segurança de dignitários, ministros e presidente da república. Mas ele disse que é uma lotação inicial, pode um dia haver uma alteração. Nada é definitivo. Eu só não poderia ficar sem uma lotação para ficar.

Para um delegado com 10 anos de trabalho no combate à corrupção, é confortável mudar de área de atuação?
Eu sou delegado de PF. Trabalho em qualquer setor. Mas a minha especialização em 10 anos de PF é voltada para a área de inteligência, terrorismo e crimes financeiros. O setor para o qual serei encaminhado requer outras especializações, e eu não tenho nenhum curso nessa área.

Acredita que isto é para te afastar das investigações?
É, não foi afirmado isso. Mas me disseram que foi o primeiro lugar que encontraram para me colocar. Fiz um concurso para delegado federal, onde não se pode escolher com o que trabalhar.

O que está fazendo agora?
Lendo.

O quê?
A corporação, Caso Telecom Itália e Gomorra que conta a história da máfia italiana Camorra.



Leia a cobertura completa de Terra Magazine sobre o caso:
» "Não sei quem fez grampo no STF", garante Félix
» Toda a dimensão da crise
» No meio do caminho tem uma pedra
» Mello defende juiz e ataca quebra ilegal de sigilo
» STF mantém habeas corpus para Daniel Dantas
» "Dantas se infiltrou no Estado", diz Protógenes
» Protógenes diz que Dantas é criminoso e psicopata
» PF faz busca na casa de Protógenes Queiroz em SP
» Dantas pediu para Mendes julgar processo em 2005
» Lacerda vai à CPI desfazer articulações de Dantas
» Deputado admite que CPI pode beneficiar Daniel Dantas
» Alvo de Daniel Dantas, Lula dizia: "É um escroque"
» Gravação expõe fratura na cúpula da PF; ouça
» Delegado: "Vou ouvir Dantas e na sexta relato inquérito"
» Delegado que prendeu Dantas é afastado
» FHC: Caso Dantas é batalha pelo controle do Estado
» Em diálogos, Daniel Dantas cita FHC na montagem de fundo
» Dantas ressuscita ACM para atacar ministro do STJ
» Bahia diz não ter recebido US$ 32 mi do Opportunity
» 'Gilmar Mendes agiu certo', diz criminalista
» 121 juízes demonstram indignação com Mendes
» Juíza que avisou de grampo pede: 'me esqueçam'
» Maierovitch: Gilmar Mendes está "extrapolando"
» Dantas: "Vou contar tudo! Detonar!"
» Pedro Simon: "Está na hora de rico ser preso"
» Mello: Ministros do STF não têm nada a esconder
» "O senhor está preso", diz delegado a Dantas
» Com prisão preventiva, um xeque-mate em Dantas
» Na madrugada, estratégia para a nova prisão Dantas
» Solto, Dantas é intimado a depor
» PF viveu guerra e espionagem para prender Dantas
» 50% dos presos esperam decisão dada a Dantas
» Dantas, um banqueiro da Coisa Nossa
» Advogado: Dirceu não tem relação com Daniel Dantas
» BrOi: emissários de Dantas tentam chegar a Dilma
» Celso Pitta recebia dinheiro vivo de Naji Nahas
» Inferno de Dantas - Um Raio X do Opportunity Fund
» Dantas-Nahas: Para entender a organização
» O inferno de Dantas
» Exclusivo: PF prende Dantas e organização criminosa

 
Marcela Rocha/Terra Magazine
Enquanto se recupera do que considera um atentado, Protógenes lê sobre a máfia italiana.

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol