
Amilcar Bettega
De Paris
E então Sophie viu que ele estava ali.
Há quanto tempo ele estaria ali, sentado à sua frente e sem falar nada, apenas esperando? E o que ele esperaria?
Martín esperava. Sentado à pequena mesa do café, a cadeira um pouco de lado, o cotovelo esquerdo apoiado sobre o tampo de mármore encardido e a mão apoiando a cabeça que mantinha uma leve inclinação em relação ao tronco que, por sua vez, descia através de uma linha contínua terminando nas pernas cruzadas e no pé que balançava num ritmo constante, quase junto à cadeira de Sophie.
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Outra vez porque há muito Martín deixara de ser o Martín que, um dia, após uma vespertina de tango no Latina...
Estava no outro lado (aquele Martín, as vespertinas no Latina, etc), como parte de uma outra história. Já fazia algum tempo que um buraco havia se instalado entre aquele passado e o seu presente em suspensão, também este metido em uma espécie de buraco. E como que para acentuar o vazio entre aqueles dois períodos (que ela, embora não expressasse desta maneira, sentia já como duas vidas), a única relação possível entre eles (entre elas) era pela via da oposição. Norte-sul, verão-inverno, luz-sombra, leveza-peso, alegria-tristeza.
E Martín-Martín.
Agora ele estava ali, diante dela, sentado à mesa do café e envolto por uma atmosfera de ruídos, pedaços de conversa e fumaça. O cotovelo apoiado na mesa de mármore, a mão apoiando a cabeça, as pernas cruzadas e o pé balançando tão próximo a Sophie que quase roçava sua coxa. Ele estava ali e esperava.
Então alguma coisa no interior do seu corpo (de Sophie) moveu-se. Como uma vibração que repercutiu no exterior através de um leve movimento dos ombros. Na seqüência ela trouxe o tronco para mais perto da mesa (e de Martín). Suas pupilas se espremeram. Com um pequeno movimento da mão ela arrastou de alguns centímetros o cinzeiro de vidro sobre o mármore da mesa e (sentia a boca terrivelmente seca) começou a falar.
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