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Quarta, 4 de fevereiro de 2009, 08h02

Bom, mas nem tanto...

Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)

Numa época em que o cinto começa apertar para tudo que for supérfluo, o debate relacionado com a indústria da beleza e suas peculiaridades surge com força e consistência. É verdade que as empresas já sentem uma significativa retração no consumo de cosméticos, um setor que nas últimas décadas só tem tido boas notícias. Mas, os efeitos da crise econômica parecem atingir o setor com vontade.

Algumas pesquisas já revelam que os cosméticos ditos premium sofrerão mais que aqueles relacionados com o consumo popular. O motivo? Acima de tudo preço, o que faz prever que as empresas precisarão reduzir sua margem de lucro para não perderem consumidores. Além do fator financeiro, há outro elemento que exerce forte influencia no consumo de produtos relacionados à beleza: os efeitos prometidos pelos cosméticos nem sempre têm a sua eficácia comprovada.

Para se ter uma idéia, em momentos de crise como esta, onde o consumidor precisará reduzir gastos, gigantes da cosmética como Estee Lauder e Elizabeth Arden tendem a se aproximar de gigantes da higiene pessoal como Johnson & Johnson ou Procter &Gamble, ou ainda de marcas populares como a Avon.

Na verdade, o consumo de produtos e serviços na indústria da beleza tem uma relação muito próxima com o quanto você se dispõe a gastar ou investir. O esforço muito vezes acaba sendo mais eficaz psicologicamente do que o resultado visual em si, ou seja, seu efeito físico.

Em época de crise, as preferências pelo consumo de um produto em detrimento a outro só aparecem significativamente se existirem elementos que realmente tragam uma carga inovadora ou chamem atenção para algo benéfico e único. E é aí onde entra o debate do limite entre o produto cosmético e o remédio.

De acordo com a FDA (Food and Drug Administration) agência reguladora norte-americana equivalente à Anvisa brasileira (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a definição de um cosmético é um produto que limpe ou embeleze, ou ainda promova atratividade física ou altere a aparência. Mas, o produto para ser cosmético não pode afetar a estrutura ou função de nenhum órgão do corpo, característica que classifica o produto como droga.

Mas, os avanços da ciência e da tecnologia têm feito com que as duas definições se tornem cada vez mais próximas, ou pelo menos, dividam a opinião pública. Um bom exemplo é o lançamento do Latisse pela Allergan, em Dezembro passado nos Estados Unidos, um produto à base de bimatoprost, que fez ferver o debate por ter sido aprovado pelo FDA e possuir um efeito cosmético. O fato é que a ciência descobriu que o bimatoprost, substância usada para diminuir a pressão ocular e indicada para o tratamento do glaucoma, também tem efeito no tratamento para Hipotricose e atua no crescimento e o escurecimento dos cílios.

A polêmica se inicia pelo fato da empresa californiana Jan Marini Skin Research ter lançado no mercado em 2006 um produto cosmético contendo a substância bimatoprost. A máscara Marini Lash foi retirada do mercado pelo FDA, alegando que o produto era capaz de alterar a estrutura dos cílios, portanto, tinha característica não cosmética. E agora a Jan Marini declarou insatisfeita com a postura do FDA, alegando ter perdido mercado para uma concorrente, que usa o apelo cosmético para vender remédios.

Para resumir, nos Estados Unidos, produtos classificados como remédios ou drogas precisam de prescrição médica, e necessariamente passaram por uma série de protocolos e testes e são monitorados pelo governo e profissionais, enquanto que cosméticos tem consumo livre e desimpedido. Aí vem a sinuca de bico da hora: como lançar algo inovador e com benefícios únicos para se manter líder no segmento, sem incorporar todo o benefício que a tecnologia já dispõe? Sim, pois aparentemente na indústria da beleza, é mais vantagem ser cosmético que ser remédio.

Para as empresas, na ponta do lápis, atuar na indústria cosmética é mais barato em termos de investimento em pesquisa e desenvolvimento, pois não há um acompanhamento médico obrigatório, e uma responsabilidade menor no que tange causar prejuízos aos usuários. Além de tudo, não se tem como missão o tratamento de doenças, mas melhorar o que teoricamente ainda está sadio.

Mas, o que o tema parece fazer emergir, felizmente, é o debate a respeito das definições de fronteira do que efetivamente seja um cosmético e uma droga, e seus benefícios e efeitos colaterais. Para que, em pleno século 21, não se permita que um impasse negocial entre duas empresas seja mais importante do que as discussões sobre os benefícios que os produtos podem trazer para os seus consumidores, sejam eles físicos/fisiológicos, sejam eles estéticos/cosméticos.

Não se deve esquecer nunca que tudo deve começar por e terminar para o consumidor.

Maria Alice Rocha é doutora em moda pela University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br

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