
Atualizada às 16h23 |
Terra
Leituras limitadas: um político não pode ver uma só qualidade no adversário
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Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Já falei aqui sobre leitura, direta ou indiretamente. Perguntei, por exemplo, o que fez com que "a sociedade" só considerasse duas das nove perguntas que a propaganda eleitoral de Marta Suplicy fazia sobre Gilberto Kassab. Também já disse numerosas vezes que ler é mais do que atribuir sons às letras, e critiquei - quase zombei - dos que acham que uma grafia correta (ou uma "boa" legislação sobre a escrita) permite leituras adequadas, e que a incorreta as perturba. Mas há outros casos de leitura estranha. Como o que segue.
Renato Janine Ribeiro escreveu um texto em que classificou políticos brasileiros como líderes. Mencionou dois, FHC e Lula. Logo acrescentou Aécio. O que dá dois tucanos e um petista. Depois classificou outros como gerentes (Serra e Dilma) ou chefes (Haddad). O que dá dois petistas e um tucano. Ficou claro que prefere líderes a gerentes e chefes na presidência. Então, haveria três candidatos, se aceitarmos a lista dele. E três possíveis candidatos excluídos, ainda segundo seus critérios.
Guilhon de Albuquerque leu o texto e concluiu que Janine preconiza um terceiro mandato para Lula, já que não gosta de Serra e Dilma. Ou seja, ele só leu dois nomes onde há três, e só considerou um candidato possível de uma lista de três. Ora, do texto, poderia ter concluído que Janine prefere a volta de FHC à eleição de Dilma ou de Serra. Ou que, aos dois, prefere Aécio. Ou que simplesmente prefere Aécio a Serra.
É o que o texto de Janine permitiria - considerado apenas o texto. Então: ou Guilhon não leu bem, ou sabe de mais coisas sobre o que pensa Janine ou, se não as sabe, as imagina. Por exemplo, que ele excluiria líderes tucanos de sua consideração, que só os mencionou para despistar o leitor.
Esse caso (ler o que não está no texto, não ler o que está no texto) tem ilustres precedentes. O melhor talvez seja o procedimento do narrador do conto de Borges, "Pierre Menard, autor de Quixote".
Menard tem uma obra variada, mas a mais insigne é sua tentativa de reescrever o Quixote. Não copiar, parafrasear, adaptar, traduzir, mas reescrever. É mal sucedido, mas não totalmente. Em algumas passagens, teve sucesso. Vejamos um trecho do conto, relativo a um desses pequenos sucessos:
"Constitui uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu ("Dom Quixote", primeira parte, nono capítulo):
...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito de ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.
Redigida no século dezessete, redigida pelo "engenho leigo" de Cervantes, esta enumeração é um mero elogio retórico da história. Menard, em compensação, escreveu: ...a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito de ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.
A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contemporâneo de William James, não define a história como indagação da realidade, mas como sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que sucedeu; é o que pensamos que sucedeu. As cláusulas finais - exemplo e aviso do presente, advertência do futuro - são descaradamente pragmáticas".
Há um evidente desnível de leitura. É fácil ver que o comentário do narrador a respeito do texto de Cervantes desconsidera a sequência "mãe da verdade", aposto de "história". E que este aposto é o núcleo da leitura do "mesmo" trecho de Menard (a história, mãe da verdade). O que fez narrador do conto? Não viu uma expressão em seu trabalho de interpretação de Cervantes!
(Comentei esse texto em outro lugar e fiz uma brincadeira de mau gosto, confesso: disse que Borges não viu isso... Mas a verdade é que Borges não via mais nada, a essa altura).
Imagine-se agora que o narrador começa seu comentário sobre a narrativa de Quixote da mesma maneira que começa o relativo à narrativa de Menard: "a história, mãe da verdade". Sim, porque o trecho está lá. Mas acontece que ele não pode ser lido...
Seria fácil mostrar, nos jornais ou nas revistas - de todos os tipos - que leitores leem não o que está no texto, nem apenas o que querem ler: leem o que podem, o que estão autorizados a ler por sua doutrina, por sua ideologia. Os casos mais impressionantes são relativos a questões marcadamente ideológicas: um político - ou um eleitor - não pode ver uma só qualidade no adversário, nem um só defeito em seu candidato. Pobreza!!
Não é preciso concordar com ele: mas que alívio ler um texto como o que Bresser Pereira publicou na Folha de S. Paulo na segunda-feira, 02/02/2009! Será mesmo verdade que todos (os políticos) melhoram na oposição?
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