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Terça, 10 de fevereiro de 2009, 08h03 Atualizada às 14h19

As causas da retração industrial

Valter Campanato/Agência Brasil
Para o economista Julio Gomes, o Banco Central  errou ao prolongar a taxa básica de juros em nível elevado. Na foto, o presidente do BC, Henrique ...
Para o economista Julio Gomes, o Banco Central errou ao prolongar a taxa básica de juros em nível elevado. Na foto, o presidente do BC, Henrique Meirelles

Júlio Gomes de Almeida
De São Paulo

A indústria brasileira cresceu 3,1% no ano passado, porém, denotando uma dramática reversão de desempenho no último trimestre. Se o nível de produção de setembro é considerado como referência, o setor encolheu 19,8% até dezembro, sendo este o resultado das quedas de 1,4% em outubro, 7,2% em novembro e 12,4% em dezembro.

Seria inevitável um forte impacto da crise internacional sobre a indústria brasileira. Um fator peculiar à fase em que se encontrava a evolução industrial no país pode ser considerado também um determinante do maior impacto da crise sobre a indústria. Trata-se da acentuada dependência do crescimento industrial brasileiro a apenas dois setores de um total de vinte sete segmentos pesquisados pelo IBGE, quais sejam, indústria automobilística e máquinas e equipamentos. Esses dois setores eram responsáveis por quase 40% do crescimento industrial de 6,5% acumulado no período de janeiro/setembro de 2008. Como a presente crise afetou especialmente os setores automobilístico e bens de capital em todo o mundo e também no Brasil, era incontornável um forte retrocesso industrial. A queda da produção foi, no entanto, muito mais profunda em razão das políticas de juros e de crédito.

O Banco Central não reagiu à altura da situação ao manter por tempo demasiadamente prolongado a taxa básica de juros em nível muito alto, tendo feito uma primeira redução apenas no mês passado quando a taxa Selic foi reduzida de 13,75% ao ano para 12,75% ao ano. Também não obteve êxito nas medidas que adotou para restaurar o crédito interno. Este sofreu uma dramática reversão tão logo teve início a crise internacional e só muito parcialmente e com taxas de juros extraordinariamente mais elevadas, vem reagindo às medidas adotadas.

Estas consistiram principalmente em ações pontuais e tímidas em áreas do crédito afetadas pela crise, como nos casos do financiamento para exportação e crédito agrícola. A observação pertinente é que em outros países que em geral dispõem de instrumentos mais limitados do que o Brasil, medidas muito mais fortes foram tomadas. No caso brasileiro a ação mais relevante foi a de ampliação da liquidez bancária com a redução dos recolhimentos compulsórios dos bancos. O montante de recursos liberados alcançou quase R$ 100 bilhões, mas, como não houve qualquer indução para que esta enxurrada de liquidez abastecesse o crédito, não houve recuperação deste e tampouco a liquidez excedente serviu para evitar que as taxas de juros aumentassem vigorosamente.

O momento é de reforço das políticas de juros e de crédito para o objetivo de recuperar o financiamento das empresas e consumidores e para ajudar a minimizar o efeito da crise sobre as expectativas dos agentes econômicos. Essas medidas certamente não farão a indústria recuperar o nível de produção anterior a crise, mas irão diminuir a intensidade da presente recessão industrial e restringir o impacto da crise da indústria no emprego e em outros segmentos da economia.


Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Fale com Júlio Gomes de Almeida: jgomesalmeida@terra.com.br

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